       
       
    CECLIA MEIRELES
    
       Capa: foto de
       
      Eduardo Santaliestra
        
        
        
Olhinhos 
de Gato
      Coleo Veredas
       
       
       
        
       
       
Coordenao editorial: Maristela Petrili de Almeida Leite Preparao de texto:  Regina Gimenez 
          Capa: foto de Eduardo Santaliestra
         
           para edio em brochuras no   Brasil da Editora Moderna Ltda.
  para qualquer outra forma de edio ou reproduo j conhecida ou que a tecnologia venha a descobrir no futuro, das herdeiras da Autora.
         
         CIP-Brasil. Catalogao-na-Fonte
         Cmara Brasileira do Livro, SP
         _____________________________________________________________________
         Meireles, Ceclia, 1901-1964. 
         M4530          Olhinhos de Gato / Ceclia Meireles. - 3.ed.    
          3.ed.     - - So Paulo : Ed. Moderna, 1983.
         
         1. Fico brasileira   2. Literatura infanto-juvenil I. Ttulo.
             80-1102                                                          CDD-028.5 
                                                                                    -869.935
         _____________________________________________________________________
         ndices para catlogo sistemtico:
         1.   Fico : Sculo 20 : Literatura brasileira
         869.935
         2.  Literatura infanto-juvenil    028.5
         3.  Literatura juvenil     028.5
         4.  Sculo 20 : Fico : Literatura brasileira
         869.935
         
               
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         CEP 04511 - So Paulo - SP  Brasil
         
         1987
          Impresso no Brasil
       
       
       
       NOTA
       
       
       Publicado inicialmente em captulos na revista Ocidente, de Lisboa, durante os anos de 1939 e 1940, Olhinhos de Gato constitui uma potica narrativa autobiogrfica de Ceclia Meireles.
       As personagens principais, pessoas que conviveram com a menina Ceclia, so carinhosamente evocadas por cognomes. Por exemplo, a av Jacinta, com quem viveu depois da morte dos pais,  Boquinha de Doce; a ama  chamada de Dentinho de Arroz; Olhinhos de Gato, por sua vez,  a prpria autora.
       O texto desta primeira edio em livro foi cotejado com a publicao em captulos, revistos pela autora. Permitimo-nos atualizar apenas as convenes ortogrficas.
       
       
       O EDITOR
       
       
       
       
       
       
       
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    1
    
       O SUSPIRAR do vento matinal por aquela alta folhagem. . .
       E as mil coisas que comeava a desenhar, sobre o cu transparente, o seu sussurrante suspiro: lua crescente, branca e sem luz, esquecida no ar da manh. . . flocos de cores das nuvens, com fios de ouro pelo meio. . . giro dos pombos, para longe, para longe, como para dar volta ao mundo, arqueando as asas. . . cigarras de bronze e cristal sonoramente aderindo ao galho rugoso. . . e o piar dos passarinhos  goelas vermelhas contra a luz, e vidas, vidas. . . teias de aranha estendendo redes de prata pela laranjeira. . . moscas verdes zumbindo. . . duros besouros rolios. . . liblulas vestidas de vidro. . . formigas deslizando num interminvel cortejo pela goiabeira abaixo. . . abelhas rodando em volta da rsea flor toda aberta. . . lagartixas correndo pelos tijolos do muro. . . falas de bem-te-vi... pios de sabi. . . pingo da torneira do tanque abrindo n'gua trmulos crculos sucessivos... o gato amarelo caminhando cuidadoso pela beira do telhado... e no alto da cerca o velho galo de curvos espores endireitando o corpo para cantar. . . (Depois, ele abanava a cabea, agitando as barbas e os brincos, moles e vermelhos, e punha-se a cacarejar c para baixo, conversando com a famlia. . .) E o pintinho tremendo pri-pri-pri-pri-pri. . . e esquivando-se todo diante de uma pobre minhoca. . . e um fiozinho de gua perdendo-se abandonado pela terra adiante, numa interminvel lgrima. . . e o vento levantando as folhas secas do cho, virando-as, pousando-as, carregando-as, deixando-as, o vento, aquele vento caricioso, subindo outra vez pela rvore acima, jogando fora as flores pequenas e os frutinhos murchos, e fugindo pelo cu, perseguindo pssaros e empurrando nuvens...
       
        OLHINHOS DE GATO!
       Voltou os olhos, fatigada.
       A mo, robusta e morna, pousou-lhe na testa, depois no pescoo, depois pelos braos, at o pulso.
         No, j no tem febre. . .
       Os dedos passaram-lhe entre os cachos:
         Deixe-me ver a lngua.. .
       No. . : OLHINHOS DE GATO no gostava de mostrar a lngua. . . Mas contou que a noite inteira levara vendo coisas pelas paredes: uns bales vermelhos que inchavam, inchavam, saam uns de dentro dos outros, boiavam. . . Quanto mais se olhavam, mais fugiam. . . Quem os trazia? Quem os levava?
         Era a febre. . .  Era a febre. . .
       Sentava-se na cama, e abria a boca, pegajosa, amarga, quente, esperando a colher de remdio que lhe vinha chegando devagarinho, devagarinho. . .
         Cuidado! para no pingar no cobertor. . .
       E OLHINHOS DE GATO ficava olhando: cobertor vermelho, to grosso, peludo como o couro de um bicho. . . Peludo e lustroso. E, de lado a lado, um leo enorme caminhando. (Haveria lees vermelhos? Seria aquele cobertor uma pele de leo?)
       Escorregava de novo por entre os lenis. Deixava pender a cabecinha para o lado. O sorriso em sua boca era uma flor emurchecendo, vergada. Unidos ao corpo, de um lado e de outro, por cima da roupa, os bracinhos longos e finos. Um anelzinho de ouro no dedo. Cabelo imvel. Todas as pregas da cama no mesmo lugar.
       S os olhos azuis-verdes-cinzentos comeavam a viajar: resvalavam pela rstia do sol, buliam nos puxadores das gavetas (l dentro estavam bem dobrados os lenis e as fronhas cheirando a ma e a malva. . .), seguiam pelo mrmore, paravam nas flores pintadas na loua azul  ramos to finos sobre a antiga porcelana, com cachos de flores vermelhas, como os "brincos-de-rainha" que oscilavam l fora na cerca... A bacia pousava num pano de renda. Havia a saboneteira. Uma caixa redonda de cristal, com p-de-arroz. Um copo facetado, com letras de ouro. Uma caixa de jias, anis, cordes de ouro, broches quebrados, santinhas de esmalte. . .
       Na prateleira estava o porta-relgio, que abria e fechava suas duas grandes conchas de ncar. Estava tambm o termmetro, armado num suporte difcil, com roxos cachos de pequeninas uvas, e retorcidos pmpanos dourados.
       De onde viera tanta coisa? Onde estavam os donos daquilo? Do relgio fechado ali dentro, dos vestidos guardados naquele armrio? Do imenso leque de tartaruga que um dia vira na gaveta?
       Os olhos azuis-verdes-cinzentos paravam no ar, e recordavam outras coisas, subitamente: um par de luvas brancas, de homem. . . uns sapatinhos de bico fino e pompom  to pequeninos que quase lhe ficavam justos no p. . . E aquela mesma voz ali do quarto, dizendo s vezes, a olhar para as nuvens: "Minha querida filha!" com duas lgrimas grossas, descendo. . .
       OLHINHOS DE GATO pousava ento a vista no espelho, procurando, procurando. Todos aqueles rostos deviam ter passado por ali. . .
       Mas o espelho ainda  mais infiel do que a memria humana. . .
       Trapinho de seda branca. . . Pedao de fita. . . Resto de renda...
         Queres fazer um vestidinho para tua boneca?
       No. OLHINHOS DE GATO prefere ficar vendo, apenas, todas aquelas sobras de pano, retorcidas, amassadas, de onde se exala um estranho cheiro, que no vem dos fios, que no vem das cores, nem dos desenhos, nem da gaveta. . . mas de muito antigamente, de um tempo desconhecido, onde havia outras casas, outras pessoas, outro viver, outras modas.
         Esta chita de argolinhas! Ainda ficou um pedacinho disto! H quanto tempo. . . H quanto tempo!
       OLHINHOS DE GATO vai alisando os pedacinhos de pano: o de trevo de quatro folhas (havia trevos daquele tamanho, entre as malvas e as violetas. E tinham um gostinho azedo, mas bom), o de aneizinhos entrelaados (quem os pudesse arrancar dali com a ponta do dedo!), o de quadradinhos de duas cores... o de salpicos. . . Telas entretecidas de fios de seda. . . gorgores hirtos, de um brilho de bronze. . . Cores que j no se encontram: tons de madeira, de vinhos, de pssaros, de vidro. . . E negro, negro, negro, negro.
       OLHINHOS DE GATO mergulha as mos nos crepes franzidos, para tocar os vidrilhos sobre o cetim e a gaze. Crepes pretos, vidrilhos pretos, cetim preto, gaze preta. . . Negro, negro, negro, negro. . . Levanta os olhos, ao retirar os bordados  de palhetas  e miangas,  que mal cintilam naquela treva. E o olhar que se encontra com o seu est dizendo l longe, onde o olhar  ainda pensamento: "Luto, luto, luto, luto..."
       Suas mos sobre aquele mundo so pssaros cados, arrastando-se tristemente: sonho magoado... perdida direo . . .
       
       Acontece chamarem-na: "OLHINHOS DE GATO!"
       Volta-se para a porta, com as mos cheias dos seus trapos de todas as cores. As visitas olham-na docemente, caminham para ela, brincam-lhe com os cabelos. Depois, uns dedos enluvados pegam-lhe no queixo, para lhe levantarem o rosto: "Mas  o retrato da me!" ME. Deixa-se estar com o rosto assim levantado, segurando bem os trapos, sobre o peito.
       Da posio? Da luz que lhe bate na vista? Da expresso com que a esto mirando? Seus olhos ardem como se os incendiassem. Ardem, dilatam-se, crescem, transbordam. Por qu? Vm duas mos enxugar-lhe o rosto brandamente.
       E j est de novo com os seus trapos, conversando com as cores, os fios, os desenhos, as contas.
       Um dia, no meio dos outros, aparece um pedao grande, que se recusa a sair facilmente. Pe-se de p, para poder puxar melhor. Arranca-o de dentro daquela multido de chitas e sedas. E em suas mos surpreendidas aparece um vestido inteiro, um vestido cor de abacaxi, com finas listas paralelas, em relevo, enfeites de renda amarelada, muitas barbatanas, e muitos, muitos colchetes. Mete-se dentro dele, abotoa-se como pode, e sai pela casa correndo.
         OLHINHOS DE GATO! OLHINHOS DE GATO! Ela   est   como   as   princesas   que   lhe   mostraram   nos
       livros: para andar, arregaa a frente da saia; para trs,  a cauda, espalhando-se. E da gola muito larga e mal abotoada, surge o seu rosto plido, de riso singular. Um riso que certos germens de pensamento perturbam e estremecem.
         No rasgues! Tem cuidado!
       OLHINHOS   DE   GATO   v-se   no lustro   dos   mveis como num espelho. E a voz continua:
         To bem que lhe ficava! Era a moda dos vestidos "princesa"?. . .
       Depois, havia um silncio. OLHINHOS DE GATO, parada, esperava, mostrando-se.
         Minha querida filha!
       Ento, ia despindo lentamente aquela roupa que cheirava a flor murcha. Deixava-a cair do corpo, e saltava de dentro dela como quem pula de um tmulo.
       Certa vez, encontrou tambm uma blusa cinzenta, com rendas pretas, gola alta, mangas duplas. De bruos, no cho, ps-se a viajar pelos caminhos das rendas pretas, que eram s flor sobre flor... de repente  de dentro das mangas? de dentro do peitilho? de onde?  caiu perto dela um pequeno leno de seda branca bordado de roxo. Alisou-o com as duas mos, estendeu-o no assoalho at ficar bem quadrado. E assim ficou. E olhava, olhava. E no era mais ali. No sabia onde. Num canto de uma casa, um dia, perto de uma parede. . . Muita gente. Um cheiro diverso. . . Um ar diverso sobre as coisas. Uma pressa. Levantaram-na nos braos, como tirando-a de dentro do cho. Desviaram um leno igual, igual quele!  "Beije a mame!" E beijou um rosto duro e frio. Perto havia uma porta.
         Onde estava esse lencinho? Ela ergueu os olhos, para explicar.
       Disseram para longe: "No gosto de a ver brincando tanto com aquelas coisas."
       
       Em que dia se puseram a abrir malas, barricas, bas?
       Enxotavam-na docemente para longe: "Tem tanta poeira!" Mas a lmpida ignorncia de seus olhos nem estremecia. "Faz muito mal! Tem doenas!" Palavras sem sentido. . .
       As caixas abriam-se de repente, e, das tbuas levantadas, escapavam grossos livros com lombadas douradas, que, ao escorregar, entreabriam-se, mostrando e escondendo figuras. . .
         Olha que te faz mal!
       As malas imensas custavam a ceder nos fechos. Por fim, levantavam as curvas tampas. E havia coisas to apertadas, to amassadas, que se tornavam irreconhecveis. Era preciso desdobr-las, uma a uma. Viam-se, ento, cortinados de renda  muitos, muitos  roupas de banho de mar, de l, com cadaros brancos e ncoras, capas de viagem, de uma seda que sussurrava com o movimento, fantasias de domin, lantejoulas, gales de ouro, esfiapando-se, fitas e guizos. . . Uma dizia: "Eu no quero ficar perto disso!" Outra respondia: "Ora, que  que tem? Eu no acredito nessas coisas!"
       Certas peas tiravam com o maior cuidado: colchas de renda, camisoles de seda. Erguia-se aquilo nos braos como um corpo de criana. Murmurava-se: "Um enxoval to bonito! Mal empregado! Que pena!" Analisava-se: "Estas rendas de crivo!. . . Estes bordados!..." Acrescentava-se mais baixo, e lentamente: "Tinha umas mos de prata!"
       Tudo era como nos sonhos. Traziam-se, levavam-se aquelas coisas. Mas parece que ningum sabia nem pensava por qu.
       Entre os cetins cor de marfim e de rosa, cintilavam traas, rapidamente. Desdobravam-se as roupas ao sol. A parreira desenhava sobre elas o recorte clssico de suas folhas, cuja nitidez a brisa s vezes perturbava.
       Quanto tempo se passou assim? Dias e dias seguidos. Os gaios cantavam, os pssaros faziam uma algazarra pelas rvores, passavam os burros do carvo, vinha o peixeiro de brincos de prata, subia o mascate, ouvia-se o prego dos pretos do melado e das bananas, dormitava o gato embaixo da mesa. D. Sinh cachimbava na sua rede, comeavam a aparecer crianas lavadas pelas portas, chegavam os negrinhos das balas, do puxa-puxa, dos roletes de cana, a rua enchia-se de cantigas de roda, de corridas, de gritos, de gargalhadas, os homens voltavam do emprego (to cansados, meu Deus!), acendiam-se os bicos de gs  nasciam claras estrelas  e todo esse tempo andavam a revolver essas coisas vindas de longe, a escolh-las, a separ-las, a sacudi-las, a estend-las ao sol ou a deit-las para o lado: "Isto no serve mais... Isto tambm no..."
       No serviriam tambm mais os domins com seus guizos, e as roupas de banho com as suas ncoras?
       E por que se guardavam as camisas de seda to leves, to moles, com suas preguinhas muito finas e suas rendas de suaves rosas? Quem viria uma noite vestir aquela roupa linda, que parecia das pessoas impossveis das histrias? Esperariam mesmo algum? E por isso  que se abriam ao sol, com tanto carinho, os lenis rendados e as colchas brilhantes?
       
       De que imenso caixote tiraram um dia os frascos? Eram tantos, tantos, que ningum sabia onde os arrumar, nem que fazer daquilo. Apareceram assim: de todos os tamanhos, de todas as cores, mas principalmente uns pequeninos, amarelos e azuis. Que poro! Que poro!
       Diziam:  "Pra que serviu tudo isto?". E olhava-se para eles, que no respondiam. Encheu-se uma mesa inteira, duas  mesas, e diziam que ainda havia mais, e continuavam a aparecer s mos-cheias, fechados, abertos, cheios, vazios, muitos s com algumas ltimas gotas no fundo. s vezes, partiam-se. Eram muito finos. E deixavam na pele um cheiro acre e uma; frescura de lcool evaporando-se. Ardiam na lngua. Tinham nomes to difceis que se desistia de aprender.
       Que iam fazer daquilo? Mesmo os que ainda estavam fechados, com um papelzinho pregueado por cima da rolha, mesmo aqueles  todos estavam convencidos  no serviam para nada. . . Que pena! Passavam de mo em mo...  e todos concordavam. Mas para onde atir-los todos? Procurando uma soluo, punham-se a separar os mais novos. "Quem sabe l. . .? hein?" E olhavam para a criana. "Deus no h de permitir que seja preciso!" E conversavam: "Ningum vai antes da sua hora! Quando ela tem de vir, vem mesmo..." "Cala-te da!", o rumor dos vidros entrechocados abafava o resto da conversa. Cortava-se algum dedo, s vezes. E s vezes aparecia, entre tantos frascos, alguma linda colherzinha redonda, to pequenina como as de brinquedo, ou mais. OLHINHOS DE GATO estendia a mo, procurando-a. Mas afastavam-na. "No seja teimosa! V-se embora! No ouviu dizer j que faz mal?" Fazia mal, muito mal. "Deus te livre!"
       E sobre os seus olhos ignorantes e tranqilos, deixavam cair um aviso srio, em voz surda: "A Morte!"
       
       Havia tambm as barricas. Primeiro, tiravam apenas palhas. Mas depois comeavam a aparecer coisas encantadoras: jarrinhas de tantos feitios, de tantas cores, to enfeitadas de ouro! Uma, s de amores-perfeitos! E os prncipes. . . E as princesas. . .
       Quem pousou no limiar da porta o imenso jarro azul, to liso, to igual, meu Deus! Caminhava-se, caminhava-se com os olhos e com as mos por cima dele e s se pisava cor, aquela cor uniforme, certa, densa: tudo cu, tudo cu! Nenhuma esperana de nada mais, naquela estranhamente serena superfcie, que dispensava todas as figuras, que altivamente dispensava todos os desenhos, todas as outras cores  que, entre todas as outras coisas, variadas e promscuas, se bastava com a sua harmoniosa concentrao.
       Diferente dela, a terrina, larga e acachapada, como uma barca, oferecia em seus flancos perspectivas para demoradas cismas: entre flores cinzentas, trs veados olhavam, inquietos. Era a margem de um lago. Do outro lado, um castelo retangular prometia surpresas. Para alm comeava a floresta, e perdia-se em nuvens tnues. Diante daquela superfcie, arqueada como uma saia sobre um ventre, a criana via o jogo confuso de suas lembranas, tranando-se e destranando-se: "O veado qu fugi! O cachorro qu pega!" Gritos estridentes saam de dentro da loua plcida. E entre o castelo e a floresta o rosto cego do eco tontamente clamava: "Oh!. . . Ah!..."
       E pousaram em redor as louas.
       O som dos cristais fazia o prprio gato franzir a testa, apreensivo. Os fios do bigode punham-se-lhe mais hirtos.
       E pousavam os quadros. . . OLHINHOS DE GATO debruava-se sobre eles. Figuras desconhecidas, cenas incompreensveis. O vidro era um muro transparente entre dois mundos. . . Mas, de tanto olhar para ele, o que ficava, pouco a pouco, meio revelada, meio encoberta, era apenas uma cara silenciosa de criana, de caracis alourados, e o princpio de um vestidinho preto e branco.. .
       
       O assoalho, que os outros pisam indiferentes, tem, no entanto, suas paisagens secretas.  porque ningum contempla muito as linhas e cores da madeira. Algumas, na verdade, so lisas, da mesma cor, em tons de pele humana  amareladas, rseas, morenas. Outras, porm, encerram desenhos tais que, olhando-se para dentro delas, poder-se-ia dispensar qualquer outro lugar do mundo. A princpio parecem apenas riscos, sem nenhuma significao. Mas pouco a pouco se observa que h ondulaes de guas, praias, montanhas, um estremecimento de pssaros, florestas densas, que escurecem  logo, um sbito jorro de estrelas e de luas, borboletas infinitas adelgaam as asas riqussimas, e santos de mos postas pairam por cima de encrespadas nuvens. . . H um outro mundo, no assoalho que se pisa indiferente. E os grossos ps ignorantes andam sobre essas maravilhosas coisas, sobre os palcios e as flores, sobre os peixes e os olhos dos santos. . .
       H outros mundos, tambm, noutras coisas esquecidas; nas cores do tapete, que ora se escondem ora reaparecem, caminhando por direes secretas. As pessoas de p, olhando de longe e de cima, pensam que tudo so flores, grinaldas de flores... flores... Mas OLHINHOS DE GATO bem sabe que ali h noites, dias, portas, jardins, colinas, plantas e gente encantada, indo e vindo, e virando o rosto para lhe responder, quando ela chama.. .
       Por isso  to bom andar pelo cho, como os gatos e as formigas. Por baixo das mesas e das cadeiras reina uma frescura que a madeira conserva como a sombra que projetou no tempo em que foi rvore. E desse lado  que se pode ver como certas coisas so feitas: recortes, parafusos, encaixes, pedaos de cola. . .  desse lado que as coisas so naturais e verdadeiras, como ns, quando nos despimos.
       O avesso dos panos  uma revelao: que estranhos caminhos tem de seguir cada fio para, em sentido contrrio, formar os desenhos que todos admiram!
       Nas noites de luar, olhando-se bem, vem-se princesas de vestido verde, passeando pelos jardins que h dentro da lua.
       E a terra, que ningum observa muito,  igualmente um espantoso mundo repleto de maravilhas aparentes e ocultas. Ningum d conta dos filamentos de erva que uma s gota de orvalho, s vezes, prostra. Ningum se lembra da solitria cintilao de um gro de areia. Ningum v que o mido caracol e a raiva formiga cumprem seu inexplicvel destino expostos miseramente ao risco dos imensos ps distrados que passam. . .
       Que gosto de longe  mas de um outro longe - h em cada objeto, em cada animal, em cada criatura! E que pacincia de obedecer a um secreto compromisso! To srias, as coisas! To srios, os animais e as plantas! Muito mais srios que as pessoas. Envoltos num sonho espesso. Andando, comendo, crescendo - mas sempre dormindo. Viajando como ns todos para a morte, mas ainda mais indefesos. E tudo morre!
       Tudo?
       
       O palhao branco fez uma cabriola, com a palma da mo na calada. Sua cara cor de cal dava-lhe um ar de fora do mundo. De cada lado, e no queixo e na testa, trazia pintado um naipe encarnado. A cabriola que fez no perturbou a cartolinha bicuda que trazia de banda. Tirou do bolso uma rosa vermelha, e estendeu-a para Dentinho de Arroz:
        O paiao o que ?  ladro de mui!. . .
       Oh! os ladres...  os ladres. . .
       Nesse tempo, o mundo era povoado de ladres: paravam pelas esquinas, rondavam as casas, vinham buscar de noite as crianas que choram e as que no querem ir dormir. . . Ladres. . . Certamente, por isso  que tudo ali dava aquela impresso deserta. Por baixo das rvores no passeava ningum. Ningum tirava das caixas nem as mantilhas nem os chapus de pluma, ningum usava mais anis, ningum calava os sapatinhos de bico fino, ningum vinha dormir naquelas sedas lindas, que esperavam, guardadas. . . Foram ladres que levaram tudo. . .  ah!
       Ladres. . . ? 
        No. . .
        A Morte.
        Dentinho de Arroz sorriu, abraando-a: Oh! o palhao no a levaria, no.
       Mas OLHINHOS DE GATO sentiu como se lhe puxassem o corao para fora do peito. Uma certeza sbita prendeu-a num crculo de sombra. Dentinho de Arroz iria tambm. Iria uma noite dessas, quando ela estivesse dormindo, talvez. Tudo vai. . . tudo vai. Aperta-se com o dedo a gua na pedra, e ela est fugindo, fugindo e continuando seu rumo... Consegue-se prender mansamente na mo um pssaro macio, e ele desliza para o seu vo, e s se sente a leveza que deixam, quando j no esto mais... De noite, misteriosamente, aparecem em nossos braos bonecas imensas, que falam e movem os olhos. . . e embaixo dos dedos acordam teclados to sensveis que basta pensar-se para que executem a msica pensada.. . Quando se vai prender cada coisa, tudo se converte em nvoa, muda de forma, some-se. . .
         O paiao que ?
       S lhe resta fechar os olhos e aceitar. Mas di, aceitar! Os olhos incham de lgrimas. No entanto, depois, por dentro delas, nasce um espao maior que o cu, mais alto que as montanhas, um espao que  sempre mais longe, mais fundo, mais imenso. L para dentro dos olhos, que lugar  aquele? Um lugar sem casas, sem ruas, sem ningum. To silencioso. To escuro. Mas onde tudo desponta. . .
         No te ponhas a pensar nessas coisas... Isso  sono. . . E sono. . . Encosta-se aqui... ... ... ...
       
       . . . Uma rosa. . . um palhao... pianos tocando em surdina, suavemente... E as figuras dos retratos sorrindo, abanando os leques, saindo dos seus lugares, pousando-lhe a mo nos cabelos: "OLHINHOS DE GATO!"
       Mas tambm a mo levantando um leno de seda. Um rosto, duro e frio, abrindo os olhos. Depois, flores. E as outras coisas sucedendo-se...
       Imenso, o guarda-vestidos: como uma casa. Quem pudesse morar ali! Quem pudesse ficar entre aqueles vestidos de seda que ningum veste, remexer naquelas caixas misteriosas, onde h plumas to mansas: um sopro, nada mais que um sopro  e aquele cheiro antigo de rosa seca e de cinza. . . Num canto, entre as sedas, sente-se a guitarra encostada. Dlom. . . dlem. . . H uma corda frouxa, burlando o toque: fl. . . Da ponta dos dedos sobe uma angstia pelo brao acima. Oh! aquele contato spero da corda frouxa. . . E era como a ressonncia do som, na madeira do instrumento, quando a corda tensa fazia: dlom. . .
         OLHINHOS DE GATO!
       A seda das roupas farfalhava e emudecia.
         OLHINHOS DE GATO!
       Farfalhava de novo a seda das roupas, rodava a porta, num gemido, e a carinha amarela aparecia, sorrindo.
         Quando vier o ladro, me escondo aqui dentro. .. Pulava para o cho, contando coisas atrapalhadas.
       O relgio apagava e acendia o relevo dourado da pndula. Santo Antnio, bordado a veludo sobre um suave cetim azul, sorria para o menino sentado em seu brao, sobre um livro, e com a outra mo sustentava uma palma de flores. ("To bem que bordava! Mos de prata!") O espelho vertical repetia a porcelana azul do jarro e pedaos de claridade da porta. Sobre o mrmore escuro, panos de renda desenhavam extraordinrias flores redondas.
       Entre os mveis havia umas zonas de sombra onde o silncio parecia ter folhas e flores. Alguma rstia de luz descia, obliquamente, a certas horas  mas no chegava at a. Via-se ento, nessa lmina de luz, acordar um pequenssimo e no entanto infinito universo, com astros bailando e brilhando, numa lei incomunicvel, e com habitantes invisveis.
       O prncipe de porcelana sorria eternamente para esses mistrios. E o prprio Santo Antnio se entretinha nessas contemplaes, dividido entre o cuidado de sustentar ao colo o menino e na mo a sua palma de flores, que o vento no desmanchava, que o sol no queimava, mas que alguma sinuosa traa mordia s vezes numa folha, numa ptala, num pistilo.
       H tantas coisas prodigiosas para ver e escutar! Aquele Santo Cristo que est ali de capinha amarela, cercado de flores de pena e de frutinhas de massa, mora em terra distante, numa igreja muito antiga, de onde, em certas ocasies, o levam a passeio, entre cnticos e luzes, sobre andores forrados de seda. Mora l, coberto de ouro, silencioso e quieto, mas vivo e atento ao destino dos homens. Ele  que livra de peste, fome, naufrgios, trovoadas e tentaes do Demnio. Suas unhas crescem, embora as mos estejam imveis. Se uma flor distrada o espeta com algum espinho, logo sua presena responde: sua vida vem  superfcie, sua carne sangra.
       H pessoas que sabem dessas histrias que parecem mentira. Por isso ela gosta tanto de ver as negrinhas que sentam com tamanha graa nos velhos bancos de ps em W, para comerem com a mo carne-seca assada na brasa e piro de mandioca. Passam por ali, lembram-se de entrar para o almoo, contam uma poro de coisas, e vo-se embora: "At outro dia!" Tm cabelo de carrapicho, brinquinhos de ouro, colarzinho de coral muito vermelho, no pescoo preto. Gostam de melado com farinha, de pamonha e de caldo de cana. Recortam com muito jeito os bicos de papel para as prateleiras dos armrios. Sabem assoviar e trepar nas rvores. Riem de maneira particular, desfranzindo uns lbios repolhudos e rodando os olhos, brancos e pretos, redondos e luzidios como bolas de gude. So um pouco pssaro, so um pouco gente. So mais bicho do que gente. V-se pelo cheiro. V-se tambm pelo modo por que falam dos outros bichos: dos macacos, das onas, dos tatus, dos gambs. E, alm disso, dos lobisomens e das mulas-sem-cabea.
       A prpria quantidade humana que possuem , por sua vez, encantada: vm surgir os mortos, ouvem almas de escravos arrastando correntes, encontram nas encruzilhadas a sombra do demnio, que costuma at espantar os cavalos. Entendem de agouros, de ces que uivam, de urubus que esvoaam, de corujas que grasnam, de arapongas que gemem. Sem falar nas borboletas douradas e pretas que querem dizer morte, nas moscas que zumbem e querem dizer visita, nos sapos mortos, que chamam chuva, nas aranhas que conforme a hora em que aparecem querem dizer uma coisa especial.
       Tudo tem um poder que  necessrio dominar. A orelha vermelha, conforme o lado, revela que falam bem ou mal de ns. A mo que comicha anuncia dinheiro. Se a faca se enterra de ponta no cho, se a comida nos escapa da boca.. .
       Por isso tudo  que se traz ao pescoo, alm do colarzinho vermelho, um fio de linha, que se esconde por dentro da roupa, e onde h breves amarrados, oraes medidas de santos, sementes, ps,  que vencem todas as surpresas do Mal espalhado neste mundo para desabar sobre os desprevenidos.
       A prpria C, muito menos preta do que essas negrinhas, sabe de coisas bem espantosas: "Naquela tarde que a menina chorava, chorava, j ningum sabia o que fazer com ela. E resolveram rezar. Pois foi nessa tarde que, depois da reza, quando ela se virou assim para o lado, viu...  com aqueles olhos que a terra h de comer!  viu o morto, com aquele seu ar de sempre, bondoso e simples, parado perto da menina, e por sinal com uma roupa velha com que gostava de andar em casa, e de que todos se riam, porque tinha os cotovelos furados."
        Boquinha de Doce ajunta, vagarosa, erguendo as fortes sobrancelhas ainda negras: "E eu? E eu no vi o Meu passar de repente de uma sala para a outra? E no soltei um grito. . .? E no fui atrs dele. . . ? E no vi diante de mim, ali perto, ali perto, desfazer-se o pedao de sua perna, com a cala azul-marinho, com o vinco e tudo. . .?" Vinha uma pausa, como quem empurra uma porta sobre uma sala onde se passam graves cenas. Depois, a mesma voz murmurava, incerta, abafada e sozinha: "No. . . ningum sabe nada. . . Tudo  assim uma sombra pela vista. . .  Talvez seja tudo sombra. . ."
       E at Maria Maruca, que no  preta, mas avermelhada e de cabelos ruivos, acredita em tudo isso. Faz uma cruz por cima da boca, ao bocejar, diz que no se deve rogar pragas, porque os anjinhos do cu esto sempre dizendo AMM  e se acertar o Amm com a praga, a desgraa acontece mesmo  e enquanto esfrega a roupa na tina, recita para OLHINHOS DE GATO, que a observa em silncio:
       "Padre Nosso pequenino,
       quando Deus era menino,
       sete anjinhos a rezar,
       sete demnios a tentar,
       o Senhor  meu padrinho,
       a Senhora  minha madrinha,
       que me ps a mo na testa,
       pra que o pecado no me empea."
       
        Aprendeste?  perguntava depois.
       Ela continuava escutando. . . Por detrs daquele firme azul do cu, andavam os anjos e os demnios, ocupados com os homens. Deus escrevia num livro enorme o que se fazia neste mundo. No dia da morte, abria-se uma pgina certeira. Punham-se o bem e o mal numa balana. Conforme o que pesasse mais, a alma seguia o seu destino: no cu, era s msica, anjos de asas brancas, santos com coroas de ouro. No inferno eram os demnios pulando no meio do fogo. E as chamas danavam sobre as almas sem nunca as consumir. "Para todo o sempre, por seculum seculorum, amm Jesus."
       Um beijo na ponta dos dedos selava a boca sobre as palavras santas. O mesmo beijo que ela depunha no po que lhe casse aos ps, apanhando-o pressurosa, e explicando, como ofendida: " a face de Deus! A FACE DIVINA!" E era como se algum  mas quem?  de um outro lugar, lhe ensinasse umas obscuras coisas.
       
       
    
    2
       
       NEM todas as visitas so como aquelas senhoras de luvas de pelica e chapus de plumas, que levantam o vu at a altura da boca e em pequeninos sorvos tomam uma pequenina xcara de caf.
       H, por exemplo, aquela velha  suja, pobre, mas bela  que no sabe entrar em casa, que no se sabe sentar em cadeiras  agacha-se nas pedras da escada, e enrodilha-se numas imensas saias, grossas e escuras. Pousa nos joelhos as grandes mos, de unhas foscas e espessas como as dos gaios, e fala, fala coisas tristes, meneando a cabea morena, por onde escorrega um leno preto sobre umas velhas trancas, grisalhas e gordurosas. E uns brincos longos, em forma de corao, balanam-se nas suas longas orelhas  mas no cintilam, porque o ouro e os aljofres esto muito forrados de p.
       Fala a pobre mulher. Mal se entende o que diz. Porque suas palavras, s ela as usa, e ainda vm afogadas em suspiros. Mas algumas se desenham solitrias no cho cinzento de cimento, no ar azulado do dia: desgraa, loucura, fome. Nesses momentos, procura por entre o franzido da saia a abertura de um bolso, de onde retira um leno sujo e enovelado, que passa pela cara, num gesto errante, virando para o cu uns grandes olhos nublados. Uns grandes olhos que algum lhe est arrancando, porque h risco de sangue por entre as suas lgrimas.
       OLHINHOS DE GATO perde a vontade de ouvir, e vai andando para longe, com os seus cacos de vidro e os seus pedaos de concha.
       E a mulher, vendo-a passar, interrompe sua dor, e murmura: "Como est crescidinha! Graas a Deus que escapou! Deus lhe d boa sorte!"  e pe-se de novo a chorar.
       Tambm costuma vir aquele homem risonho, de grandes olhos cor de folha, cuja mo, passando pela face de OLHINHOS DE GATO, deixa sobre ela, exatamente, a mesma aspereza e o mesmo cheiro dos tijolos, das pedras e dos troncos de rvore. De um misterioso lugar, que descreve sorrindo, traz macios cravos crespos, de sufocante perfume, e jasmins-do-cabo, que se cheiram de longe, para no murchar, e malvas veludosas, para guardar nos armrios de roupa; e gernios que magoam a vista, de to vermelhos, e uma poro de cravinas, florzinha -toa, que nem brilha nem cheira, parece coisa de papel ou de chita, mas tem sempre uma novidade nas ptalas multicores, sobre as quais descem as cismas da menina e os seus monlogos.
       Junto com tanta flor, vm os cachos de nsperas, e umas tangerinas muito pequeninas, muito amarelas, muito azedas; e frutas-de-conde que se esborracham todas dentro do embrulho...
       Ningum sabe por qu, o homem traz tambm folhas de laranja-da-terra, de guaco e erva-de-santa-maria. Ele, porm, explica: "A menina podia estar doente. Lembrei-me de trazer estas coisas, que so um santo remdio..." Mas antes assim, que no estava doente. Aquela parece que escapava, mesmo! Suas palavras vinham com laos de alegria. Depois, contava outras coisas: estrias de terras, escrituras, procuraes. Mas pelo meio dessas conversas difceis passavam raios coloridos, descries de flores e frutas, focinhos de bichos engraados  porcos, coelhos, cabritos  e os canteiros ficavam to vivos, e as guas to animadas, que se sentiam as couves abertas sob a chuva da rega, e, no fundo dos tanques, os cgados parados dentro da sua casca.
       
       Havia tambm a mulata gorda e lenta, de mantilha de renda e travessas nos bandos. Subia a escada gemendo, enxugando o suor da testa, e deixava-se cair sufocada na cadeira, com as mos papudas em cima da carteira, do leque e do leno.
         Uf! Se agora me pusessem a mo na boca, eu morria. Essa no falava de bichos nem de flores. Falava de gente.
       De D. Sinh, de D. Nenm, de D. Marocas. Falava de lugares: de Mata-Porcos, de Paquet, de Cachambi. E de doenas: varola, febre amarela, tsica e gangrena. Quando estava muito bem disposta, que dava gargalhadas, tapando a boca com a mo, ocupava-se de coisas mais insignificantes, como sarampo, coqueluche, catapora, enxaqueca. . .
         E a menina vai andando, hein?  perguntava, meio admirada de no haver notcias ruins.  Quem havia de dizer que se salvava!
          verdade...
       Com o ritmo da fala, moviam-se-lhe por baixo do queixo duas pelancas mais moles e finas que as orelhas dos gatos. Parecia impossvel que se pudesse estar vivo com aquele pescoo. OLHINHOS DE GATO pensava que era alguma doena, e mirava-a com muito medo e muita pena do seu observatrio, que era o prprio cho, onde se debruava como os bichos e as esfinges.
       Mas o seu medo e a sua pena aumentaram muito quando lhe disseram que aquilo no era doena nem defeito, mas velhice.
       Ah! Boquinha de Doce iria, ento, ficar tambm assim?
       No. Boquinha de Doce conta-lhe muitas estrias prodigiosas. Conta-lhe que, no tempo em que Deus andava no mundo, um moo, que perdera sua me, foi pedir-lhe, chorando, para a botar de novo viva. Ento, Deus disse-lhe: "Traze-me tua me." E meteu a morta na atafona, e deu-lhe uma volta, e ela ficou de novo no apenas viva, mas outra vez moa, e seu filho j no chorava  ria-se, ria-se de contentamento!
       Aconteceu, porm, que outro homem, que no queria saber de Deus, exclamou, zombando: "Grande milagre! Eu sei fazer a mesma coisa!" E meteu sua prpria me na atafona, para que ficasse outra vez moa, e deu-lhe uma volta, e ela morreu, e ningum a ressuscitou.
       Uma grande esperana pousa sobre a menina. Ela ir procurar Deus, quando for preciso. Se algum dia for preciso...
       
       Talvez Boquinha de Doce permanea para sempre assim. De um lado e de outro da testa, seu cabelo j est todo prateado. Mas na parte de trs,  negro como uma caixa de piano.
       As pessoas que chegam, dizem: "Est muito bem conservada!"
       E ela responde: "Ah! no sei como ainda tenho estes olhos na cara!" Os outros replicam: "Mas  mesmo! Quanta coisa! E tudo assim ao mesmo tempo!" Ela sacudia a cabea, com os olhos midos. "Ficar assim sem nada, de uma hora para a outra!" E suas mos abriam-se como no meio de um deserto. " verdade!  tornavam  E s a meninazinha ficou!"
       Olhavam para a criana, faziam-lhe festas. E murmuravam: "Benza-a Deus! Est bem gordinha! Ela no tem uma figuinha no cordo?"
       Depois, falavam outras coisas, OLHINHOS DE GATO sumia-se, andava para um lado e para o outro, com os bichos, as plantas, os desenhos das madeiras, as cores dos vidros.
       
       Talvez Boquinha de Doce permanea mesmo assim. Sua mo  um pouco rugosa, mas deve ser de trabalhar.
        janela, balana-se a gaiola redonda. O canrio vira o olhinho de mianga para o ar azul do dia. O enorme cu adere naquele pequenino ponto de luz. E canta, o canrio.  pequenino, magrinho como um brinquedo  do tamanho da flor da trepadeira. A rua inteira, porm, ouve o seu canto. Seu canto tem sinos, assovios, flautas, e perfura o silncio com parafusos de cristal. O canrio solta o seu canto gravemente, como os sapateiros pregando solas, e os amoladores afiando as facas. Depois, experimenta a vibrao que ficou em redor de si, e vai fazer outra coisa. Pula do poleiro, leve, leve. Parece que ainda no cantou. Debica o alpiste. Parece que no cantou nunca, em sua vida. Debica o alpiste, puxa os fios da couve. Vira a cabea para o lado. Observa. E de novo preludia. Incha as pluminhas do pescoo com o seu canto, maior do que ele, maior que a janela, e a casa, e a rua. V-se bem que s para cantar  que ele foi criado. Mas depois se distrai de novo, e brinca com o bico na gua.
       No entanto, um dia, aparece frio, seco, de lado na areia. Na cabecinha mole, nas asas rgidas, no hirto bico amarelo, no h um vestgio de som. E sabia-se que ele era s msica. Isso d uma certa melancolia.
       Os gatos sobem o muro: veludo frouxo, pluma, elstico. Um raio de sol queima-lhes os bigodes de vidro. Piscam de olhos ofuscados, arreganham a boca num miado untuoso. s vezes, levantam a pata hesitante para uma borboleta que se inclina. Depois, saltam cautelosos, sem se magoarem nas pedras, sem amassarem as flores, e reclinam-se numa sombra, e sonham com o tempo em que eram tigres.
       Dias depois, aparecem estendidos no fundo do quintal, com muitas moscas por cima, e formigas em volta. Seu plo no brilha mais como um fino veludo. Tudo porque a mo de um menino arrojou uma pedra: tm a cabea amassada, e um olho para fora.
       O balano range, mas o ramo no verga. O rosto passa, ora na sombra, ora no sol. Um cheiro de umidade e de luz. Orvalho por cima das violetas. Lesmas por baixo das folhas. Fogem lagartixas pelos tijolos. Uma cigarra desabrocha fogo, de repente, sobre a resina dos cajueiros. Passam borboletas brancas, em grupos: ramos de flores voando.
       E, de longe, cansadinho e calado, chega o burro do carvo, chega o burro da gua.. .
       O aguadeiro sopra na buzina de chifre. O animal espera. Ningum compra? Descem pela outra rua, com a pipa sacudida pelo declive do caminho.
       O carvoeiro grita umas duas vezes com a sua voz do mato: "Eh! carvo!... Carvoeiro?" As criadinhas chamam por ele, risonhas, das varandas. E o burro espera, amarrado numa rvore, mascando um capinzinho dali de perto, ou sacudindo a campainha do pescoo com um ar to discreto que no se sabe se ela lhe agrada ou desagrada. s vezes, pem-lhe flores de papel encarnado e cor-de-rosa nas orelhas. Talvez no dia de aniversrio. . . OLHINHOS DE GATO tem vontade de beij-lo, de passar-lhe a mo pelo focinho. Os olhos so mansos e bonitos. Mas os dentes so to grandes, to grandes, e a narina se move de um modo to singular!
       O cavalo do soldado tambm passa por ali de vez em quando, com a cauda amarrada, e o plo lustroso. Mas o burrinho  outra coisa. O burrinho v-se logo que  gente encantada. Mesmo assim como burro, parece-se imensamente com uma menina de trancinhas duras, com fitas vermelhas, que pula corda todas as tardes embaixo da mangueira. Parece-se com a Edwiges, que engoma roupa de noite, num poro vazio, com um candeeiro de querosene. Parece-se com a Paulina, que amassa os pastis, em dias de festa, e com a Lusa, que  quem sabe mais histrias de lobisomem e almas do outro mundo.
       Ah! o burrinho, mesmo sem as flores,  muito mais bonito que o cavalo, e mais bondoso. Se no fossem tantos arreios, certamente se sentaria para contar histrias. O cavalo  para voar para longe, por cima das casas e das montanhas. Para levar os noivos e os mortos. Os cascos dos cavalos quase no pousam no cho. E quando pousam, fazem fogo.
       E os burrinhos morrero tambm?
       
        tarde, o papagaio d para falar. "D c o p, meu louro?" Depois, entusiasma-se:     
                                                    
       "Papagaio real,
       para Portugal,
       quem passa, meu louro?
        o rei que vai  caa.
       Toca  a trombeta e  passa:
       T-t-r-t.....t-t!"
       
       Seus olhos encarnados alargam-se e encolhem-se. Vira para um lado, vira para o outro, morde as vasilhas de lata, sacode a corrente do p, roa o bico no poleiro, roda a cabea para mirar as pessoas, e faz-se de engraado:
         
       "Currupaco, papaco,     
       a   mulher   do   macaco 
       caiu no buraco!
       
        Papagaio?"
       Fica num p s. Fecha os olhos. Ensaia todas as variaes da sua pobre vida. Nem para dormir sai dali. Sempre naquele pedacinho de poleiro. Triste coisa. De repente, deve sentir-se aborrecido: grita para longe:
       
       Rrrrrrrr........!  
       Rrrrrrrr........! 
       
       Por quem  que ele chama, coitado? Que  que ele quer? Onde  que est?
       Do-lhe gua fresca. Engrola umas outras coisas. Mergulha o bico pontudo no comedouro. Corvoca, dentro do bico, a sua grossa lngua preta, como um bicho.
       Para distra-lo, a menina inventa lev-lo a passeio no dedo. Anda com ele a passeio at em cima do ombro. S ela. E todo o mundo se assombra daquilo. Parece que at o prprio papagaio. . . E ela, tambm.
       No jardim do doutor, os paves soltam longas exclamaes melanclicas, sopros de cinza nos lugares dourados da tarde.
       Depois, as pombas fartas voam com as lisas penas cheias de segredo e graa. Pousam na bola azul do telhado, murmuram, escondem-se. Vo para um mundo de ternura. Todos os beijos esto dentro de suas asas. Ouve-se de longe seu rumor de fonte veludosa: to morno, to manso!
       Um pouco de vento sobe tambm, para dormir nas rvores. As folhas deixam-no passar. As cigarras estremecem. Os passarinhos abrem ainda os olhos. Os grandes ces da chcara ladram para os muros, para os portes, para as janelas, para a lua. Estaro vendo os mortos? Sua voz  de pedra. De oco de pedra. De escurido.
       Os grilos sacodem campainhas de ouro por dentro das paredes.
        Esta cama j est ficando muito pequena. Faz mal dormir assim de pernas encolhidas. . .
       Puxam o filo do cortinado. Um mosquito fica zunindo, do lado de fora, rasgando fios de ar com as asas.
       Quase adormecido, o dedo da menina caminha pela parede assim:
        
       
       Ela mesma no sabe como foi:  ela descobriu com surpresa uma coisa que no acaba.
       E dorme tranqila, com esse descobrimento.
       
       A vida  pobre, o tempo  triste, mas a msica embala os dias, desde manh at a noite.
       Maria Maruca escorre o caf e ferve o leite no fogareiro de carvo. H um abano de palha, mas ela gosta  de soprar com a boca; incha as bochechas lustrosas e espalha cinza. Abre a torneira em cima da loua, arruma as colheres nos pires.
       Os passarinhos piam com fome. Piam os pintinhos. H um alvoroo no galinheiro. Boquinha de Doce cuida dessas coisas. E Maria Maruca, assim to cedo, j cantarola:
       "Eu tenho uma namorada 
       que  mesmo uma papa-fina, 
       l na praa do mercado 
       digo logo:  preta-mina!"
       
       E botando a mesa, requebra-se:
       
       "Laranja, banana, 
       ma, cambuc,
        eu tenho de graa, 
       que   a  preta  me   d!"
       
       Ameaa OLHINHOS DE GATO com um cabo de colher:
       
       "E Acugel! 
       E Acubab!"
       
       Depois diz sem msica:
         Minha rica brasileirinha, tu andas muito amarela. Queres po com queijo? Queres po com banana? Queres mingau de fosfatina? Precisas comer, se no bates a bota, como os outros! E adeus, minhas encomendas!
       Na verdade, a menina sentava-se  mesa com indiferena. Boquinha de Doce dizia-lhe:
         Vou fazer-te sopinhas de po!  to bom, to bom! To branquinho! Vem ver!
       Cortava o po, espalhava o acar, derramava o leite. To difcil que era comer aquilo, meu Deus! Maria Maruca j estava lavando roupa l fora, com outra cantiga:
       
       "Eu no sei o que te diga, 
       rapariga,
       quando vejo o teu olhar...
       Tua boca escancarada,                             
       perfumada, 
       tem perfumes de matar!
       
       Assim, como te adoro,
       como te choro,
       na minha dor,
       contigo viver quisera,
        primavera
       do meu amor!"
       
       E como a menina aparecia, perguntava-lhe:  Ento, j comeste? Comeste tudo? E em sinal de contentamento, bailava descala, com os ps vermelhos no cimento molhado:
       
       "Olha o bailarino, 
       baila quem quiser! 
       Quem no esfolha milho 
       nunca tem mulher!"
       
       Por entre essas msicas e cantigas, passam os gatos, os pintos, as galinhas, as bonecas quebradas, os tamancos, os pianos mudos, e a cara admirada de OLHINHOS DE GATO, mastigando um resto de po.
       Passam tambm outras msicas.
        Dentinho de Arroz, com voz baixinha, uma voz forrada de flanela, murmura limpando os mveis:
       "Si j vivamos todo' na 'pulncia, 
       temo' ago' a mais esta vantag'... 
       d'spera' no pont' da pacienc' 
        paga' 's trezento' da passag'...
       
       Duzento' rs  quanto cust' uma passag'...
       
        A portinhola dos bilhete' semp' aberta..."
       
       Quanto a Boquinha de Doce, sua tesoura range o dia inteiro por cima da mesa, cortando corpinhos, blusas, aventais. Os olhos da menina ficam rentinhos ao pano. O cheiro do morim, as figuras coloridas que vm coladas s peas, andam pertinho do seu rosto. Boquinha de Doce est sempre com medo de espet-la com a tesoura. "Tira-me esses olhinhos da!" E continua a cantar, mas baixinho e triste:
       
       "Quisera amar-te, mas no posso, Elvira,
       porque gelado sinto o peito meu,
       no me crimines, que no sou culpado,
       amor no mundo para mim morreu."     
                       
       Com uma outra msica tambm vagarosa e melanclica  costumava cantar, cosendo:
       
       "Meu arvoredo sombrio, 
       no digas que eu aqui vim, 
       no quero que o meu bem saiba 
       partes nem novas de mim..."
       
       A agulha entra e sai do pano, e faz um tlic-tlic no dedal. Se a mquina roda, ento o rumor do pedal amassa a msica e as palavras da cantiga.
       Assim se passam os dias. Amanhece. Entardece. A vida  pobre, o tempo  triste. . .
       Conforme a lua, deitam-se galinhas, e num dia previsto e infalvel, nascem pintos que Boquinha de Doce ajuda a retirar das cascas, formas midas e moles, enroladas em si mesmas, e que ela facilmente desenrola e anima, falando num sorriso: "Vamos nascer que j  hora!" E eles dizem que sim, com um claro biquinho novo, cor de milho tenro, e da a dias povoam a rea, querem descer pela escada, piam de medo, fazem intervir a galinha raivosa que ameaa as folhas duras, as formigas, os caracis... O galo marcha de perneiras e chapu de galo. As outras galinhas passeiam distradas, cantarolando tambm suas cantigas. . .
       
       Escurece. Dentinho de Arroz senta-se na esteira, conta histrias  menina, outras vezes canta:
       
       " sombra frondosa de enorme mangueira, 
       coberta de flores, da tarde ao cair. . ."
       
        to bonito, meu Deus! Vem-se os vaga-lumes passar pelas rvores. Todos esto muito cansados. Deitam-se cedo.     
       Alta noite, porm, acontece passarem cantores que acordam a rua toda. Abrem-se janelas. Gente apressada vem para o luar ver a serenata. Ouvem-se rir as negrinhas, mal acordadas. Dentinho de Arroz tambm vai ver. E sossega a menina, que desperta inquieta:
        So os violes!
       Embrulha-a no lenol, e tira-a da cama.
       Os violes descem a rua, misturando a msica e os passos nas pedras. As janelas fecham-se. O mundo inteiro encanta-se de novo no sono. Mas a menina descobre, maravilhada, que se pode estar acordado no meio da noite, que o mundo no se acaba, enquanto se dorme! V a lua boiando por cima das rvores. Sorri para a frescura do ar. E torna a inclinar-se sobre o geral esquecimento.
       Numa noite assim, descobrir nuvens brancas partindo em largas e tnues caravanas de um lado para o outro do cu. Vo apressadas: sente-se o vento bater nelas como um fino, mudo, invisvel chicote. Para onde? Para onde? Multido area, multido de gigantes envoltos em seus brancos vestidos cheios de curvas, atravessando as alturas da noite, por cima das ruas desertas, das casas fechadas, das rvores cujos braos levantados nada podem fazer, para aquela distncia  duros braos, frios, tristes, todos cobertos de flores, e sem poderem socorrer. . .
       Ah! mas ento nem as nuvens descansam! H uma continuidade de vida por dentro da noite, quando se est de olhos fechados e de corpo insensvel! H fugas, suspiros. . . pode haver lgrimas. Pode haver mortes!
       
       Nos dias de chuva, tudo se rene numa intimidade comovente. Recolhe-se a gaiola do pssaro, muda-se o papagaio de lugar. A galinha fica num canto da cozinha, amarrada pelo p, e os pintinhos sobem-lhe e descem-lhe pelas costas. Os gatos deitam-se nas cadeiras, embaixo da mesa, escondem-se por perto do fogo, na sombra e no morno. Todos esses bichos olham-se entre si, olham para as pessoas, como uma s famlia. H uma tal naturalidade no encontro dessas vidas que todos parecem compreendidos e tranqilos. Certamente,  por isso que no falam. Quer dizer, o papagaio fala  mas s para brincar. O que ele gostaria mesmo de dizer, ah! no, isso ele no diz. Isso ele engrola baixinho, na lngua, curvando na pata preta a sua cabea verde, com uma luazinha amarela, e outra encarnada.
       A estrelinha ruiva dos seus olhos palpita docemente, longe, longe  meu Deus!  nessa lonjura por onde passam todas as estrelas. . .
       Tambm por essa lonjura zune o vento, frio e triste. Ali perto, apenas estremece a franja de uma toalha, algum pano estendido. A chuva contnua sussurra nos telheiros de zinco.
       Roda a mquina de costura. A coisa mais linda do mundo  ver encher a bobina de linha: fffffff.....  vai-se enrolando o fio no longo carretel, docemente, docemente. De sbito, os metais resvalam, ouve-se um fino silvo: zzz.   est pronto. A mo recolhe-o com ternura. Parece uma cigarra, um inseto sonoro, de asas fechadas.
       Maria Maruca anda na cozinha e fala com os pintos. Ouve-se o gluglu da sopa, que ferve, pesada de legumes. Gritam cheiros de alho e cebola. Em cima da mesa esfria o tacho de doce de goiaba. E o vidro das compoteiras brilha e rebrilha, muito lavado, posto a escorrer sobre um pano muito branco.
       E escurece to cedo! At o papagaio j tem sono, e fecha os olhos, encolhido. O vento d nas luzes, e quase que as apaga, a cada instante. As sombras movem-se pelas paredes, e enchem a casa de muita gente.
       OLHINHOS DE GATO tem um copinho dourado. Tem um talher pequenino. Tem uma cadeira alta.
        Devagar com o andoire, que o santo  de bidro!  Maria Maruca entra com o jantar.
        Dentinho de Arroz d-lhe a sopa, corta-lhe a carne. Espalha a comida no prato, para esfriar mais depressa. E conta-lhe histrias, para ela comer com mais vontade. Quando os prncipes chegam e os anes danam, a menina pra de mastigar.  bonito, mesmo! Depois continua a comer. Os cavalos de casco de ouro esto parados  porta. O rei com a sua coroa vem saindo do corredor. . .
       Depois do jantar, distraem-na para que no adormea. Continuam a andar em redor dela personagens extraordinrios: Boquinha de Doce fala-lhe da menina que tinha uma estrela de prata na testa. (Ela passa a mo pela sua. . . No, no  ela.) Bate-lhe as mozinhas, uma na outra, murmurando:
       
       "Palminhas, meu bem, palminhas, 
       para quando Papai vier. 
       Papai h de dar beijinhos, 
       Mame, sopinhas de mel. ..."
       
       Mas, s vezes, h uns silncios que nada enchem. Que se alargam pela casa toda. Boquinha de Doce fica de olhos muito perdidos. Muito longe. Mais longe que a parede. Que a escada. Que o quintal. Para onde olha Boquinha de Doce? A menina se levanta, e pe-se diante dela, procurando os seus olhos. Ento, ela os enxuga mansamente na ponta da blusa. E continuam a brincar.
       Vem Dentinho de Arroz, leva-a para a esteira. Uma esteira onde h figuras de santos, costuras, bruxas de pano. . . E que o gato arranha com suas unhas de lua crescente. Brotam as histrias de lobisomem, de saci-perer,de mulas-sem-cabea, de palcios mergulhados no mar.
       OLHINHOS DE GATO pergunta, a cada instante: "Mas isso  verdade mesmo?"
        , sim. Mas foi h muito tempo. . . Agora, no h mais... Os macacos falavam. . . Todos os animais falavam. . . Eram gente. Nosso Senhor pediu um copo d'gua ao gato, o gato foi, e cuspiu dentro. Pediu ao cachorro, e o cachorro veio e lavou o copo bem lavadinho, com gua e sabo. . . Por isso o cachorro e o gato ficaram inimigos. Nosso Senhor brigou com o gato, e ele ficou com sete flegos. Para custar mais a morrer!
        Dentinho de Arroz conhece todos os bichos e as suas histrias. O que eles foram antes, e o que vo ser depois. Viu a Arca de No. Era muito grande. Maior que aquela sala? Maior. Maior que o quintal? Maior. Do tamanho da rua? Devia ser do tamanho da rua. Que grande!
       OLHINHOS DE GATO sente de verdade os animais sarem da palma da sua mo, quando Dentinho de Arroz pergunta: "Cad o toucinho que estava aqui?" e que ela mesma responde com outra voz: "O gato comeu." "E cad o gato?. . ." "E cad o boi?..." "E cad a galinha?..."
       OLHINHOS DE GATO sente os bichos correrem dentro dos seus olhos, quando Dentinho de Arroz lhe pergunta: "Teu pai foi  caa?  Diga: Foi." (Foi.) "Que foi que ele caou?  Diga: Um veado." (Um veado. . .) "Teve medo?  Diga: No." (No...) "fffffff. . ." Haveria algum que no piscasse com aquele sopro nas pestanas? OLHINHOS DE GATO dava uma gargalhada que fazia Boquinha de Doce dizer, l de dentro: "Benza-te Deus!"
        Dentinho de Arroz fazia-lhe ccegas pelas costelas. . .
       E a est: suas mos eram brinquedo, seus olhos eram brinquedo, seus ps eram brinquedo, tambm:
       "P de pilo, 
       carne-seca com feijo!
       
       Uma, duas angolinhas, 
       finca o p  na pampolinha.
        O rapaz que jogo faz?
       ............................ "
       
       E depois:
       
       "P de pilo!..."
       
       O calcanhar batia na esteira: pum, pum. . . Que coisa engraada, meu Deus! O ouro dos santos brilhava. . . A chuva era doce. A luz triste. . .  "P de pilo!" A criana ria-se, no meio do mundo. . . E Boquinha de Doce, ao longe, interrompia as oraes, para rir tambm. Porque nesse tempo era assim: seu riso repercutia pela casa toda!
       
       Por muito, porm, que haja cantigas, por muito que s vezes se ria, h coisas que esto ali, coisas tristes de ver.
       Na beira do tanque, pousam vasos de barro, com alecrim, manjerico, tinhores. Orvalham-se diariamente. "De manh e de tarde!" Mas no passam daquilo. "Eu no sei si  do sol. . ." resmunga Maria Maruca. "Ser algum bicho que pisa em cima?" Revira o beio e acrescenta: "Ser o mafarrico?"
       Na mesma beira de tanque est pousado o vaso com o craveiro. Vaso de folhas hirtas, onde sempre se espera e nunca vem uma flor. A menina olha, pensativa. H brilhos de ouro, no barro de ardente cor. Formigas raivas. E as folhas hirtas. Mais nada.
       L embaixo despontam, de vez em quando, algumas violetas, num resto duro de canteiro. Mas to pequeninas, to plidas, como se j nascessem murchas.
       H uma espcie de nvoa sobre o manac, pequeno e ressequido, cujos galhos tortos no aumentam, cuja folhagem no se colore de folhas.
        Plantado pelo teu av. . .
       H roseiras. Mas s com espinhos. At as folhas vo minguando, crespas e velhas.
       Uma videira sobe enlatada, forma um toldo de folhas, moles e largas. Mas no quer frutificar.
       A casca das goiabeiras desprega-se em lminas, como de papel tostado. As abelhas e os besouros danam ao sol, por cima dela. As formigas percorrem-na em fileiras interminveis. Mas as flores so raras. Desmancham-se  toa, com o balanar de um ramo, com a passagem do vento. . . Uma vez ou outra, descobre-se uma fruta, que custa a crescer. Quando amadurece, enche-se toda de bichos.
       Os mamoeiros desprendem folhas amarelas e enormes, que caem do alto, inesperadamente, como guarda-sis.
       Olham para o abacateiro, j bem grande, e dizem: "Tem a sua idade!" Mostram o cajueiro, cuja flor se desfaz nos dedos, cuja resina escorre em lgrimas de mel: "Aqui embaixo, teu av morreu."
       Os abios rolam podres, franzidos e pardos, do alto dos galhos.
       E as laranjeiras  quem as queimou? Tm uma folhagem dura e cinzenta, uma folhagem de zinco. S os espinhos prosperam: enormes, pontiagudos, e aduncos como os espores dos gaios. Se uma flor, porm, se aventura, branca e perfumosa, por essa rvore triste   uma festa em redor: abelhas, besouros e borboletas danam com delcia no meio da devastao.
       Debruam-se na cerca, rubros e oscilantes, os brincos-de-rainha. Mas a cerca  to velha! Vm as enxurradas, levam os paus. Conserta-se. Tornam a ir. Sempre assim.
         Havia ali um pessegueiro  murmuram. Olha-se, e apenas se vem pedras, uma roda de pedras segurando a terra em declive.
       Por que tudo  to triste? Por que  mais triste, tudo, de repente? Esto passando nuvens pelo alto do cu? No. O cu  azul, e brilha o sol.
         Havia aqui uma horta. . .
       E agora s se encontra algum p de couve, para o passarinho, ou um tomateiro manchado de ferragem, e amarrado nuns espeques. Gordas lagartas rastejam pelos caules. midos caracis deslizam.  quase sem esperana que a gua do regador borrifa essas pequenas coisas. . .
       
       Tudo isso lembra, por contraste, um outro tempo, de que se fala em voz baixa. As mos do Av andavam por ali, entre folhas e flores. As mos do Av andavam rente  terra, dentro das paredes, por cima dos muros. As mos do Avo pousavam no corrimo da escada, enrolavam as trepadeiras nas cercas. Os pssaros comiam nessas mos. Os ces lambiam-nas. Das mos do Av saam casas, saam rvores. As mos do Av andavam no ar, em toda a roda, tomando conta de tudo. Elas sabiam fazer msica, tambm, nas cordas daquela guitarra,  sombra fresca do quintal, perto do tanque verde onde as liblulas beijam os musgos. Recorda-se disso aquela tremura redonda da gua?
       Os ps do Av tinham pisado longamente aquela terra. E atrs dele, o grande co, silencioso, parava ou seguia, continuando o seu dono.
       Um dia, o corpo inteiro do Av deixou-se cair para ali, debaixo do imenso cajueiro, de onde o vento desprendia doces frutos, cheirosos e moles, e onde as cigarras afiavam seu canto nas cordas de ouro da resina.
       J no existia mais o co, seu companheiro, que o tocasse, que o sentisse, que anunciasse para longe o sbito acabamento do seu dono.
       Era um homem sozinho, entre as rvores. E ali ficou. Sozinhos, seus olhos se fecharam rente s pedras. Suas mos esfriaram, sem ningum, no barro, sobre as folhas secas, perto dos caroos de fruta, das conchas quebradas, das formigas andarilhas que, apenas, talvez, mudaram um pouco o itinerrio.
       Seu corpo caiu sobre a terra, como rvore dentre as rvores. Sua boca morreu no cho, como fruto dentre os frutos.
        Como era o rosto dele?  a menina perguntava.
       Mas disseram-lhe que nunca tirara o retrato. (PARA NO MORRER.)
       
       Um dia, porm, tudo comeou a mudar.
       Vinham pessoas. Conversavam por baixo das rvores: "Por aqui, pode passar um rego-d'gua. Ali, pem-se umas pedras. . . A terra  como a gente  precisa de trato e de amor."
       Serraram galhos, pintaram troncos. Cavaram o cho. Revolveram a terra.
       O homem risonho, de olhos cor de folha e mos grossas de tijolo, chegou sobraando plantas novas. Com que graa ela o via manejar o seu canivete, prender galhos postios nas rvores, e dizer-lhe com umas palavras que cheiravam muito a fumo: "Daqui  que vai nascer uma laranjinha doce para voc chupar!"
       As crianas da rua queriam ver, tambm. Metiam os olhos por entre a cerca, agarradas s outras... Os vizinhos perguntavam o que havia. Davam idias. "Eu, se fosse a senhora..." Alguns diziam para os homens: "Se eu fosse vossemec..." E contemplavam. Nessa contemplao, o que havia era, principalmente, expectativa. "Nasceria mesmo alguma coisa? Seria possvel?"
       Maria Maruca, diante de uma cova aberta, teve uma brusca inspirao. Agarrou a menina, levantou-a nos ares para met-la dentro. " agora! Vou-te enterrar!" Boquinha de Doce abriu os braos, desesperada. Maria Maruca ria-se: "Ora, eu estava brincando!" Mas a voz de Boquinha de Doce tremia, no quintal aberto: "Fazer isso com a criancinha! Que lembrana! Tanto trabalho para a criar!  e,  de repente..."
       Mas a menina, na verdade, achara graa, e, puxando-lhe a saia, pedia a Maria Maruca: "Me planta. . . Me planta de novo..." Devia ser bom ser plantada naquela terra morna e cheirosa, e ir crescendo, toda verde. . . cheia de flores. . .
       O cho ficou mais escuro e fofo. Parecia um outro lugar. Como quem estivesse viajando, e encontrasse stios diferentes. . . Andava um cheiro bom, de barro molhado, at dentro de casa. Era como depois das tempestades, quando aparece o arco-ris.
       Naquela quadra de fervor agrcola, a menina semeou tambm caroos de feijo e de milho. E como tinha pressa de verificar o milagre, desenterrava-os todos os dias, com o maior carinho. "Olhando, no nasce"  diziam-lhe. "Essas coisas so segredo." Ento, ela percebeu que havia foras  ocultas, inviolveis. Era como acontecia com ela, quando se punha a chupar frutas. Maria Maruca exclamava: "Ests te regalando, hein?" E logo Boquinha de Doce murmurava: "No se deve olhar, nem falar, em certas ocasies. Mesmo sem querer, se d quebranto." E acrescentava-lhe baixinho: "Come, para ficares grande."
       
       E os dias passaram. E os caroos enterrados pela menina tomaram estranhas formas debaixo do cho. E ela acreditou no mistrio da terra, e deixou-os sozinhos, e viu aparecer, afinal, o corpo sinuoso das plantas, verde e limpo, sado do barro e da gua. E tambm, de certo modo, da sua mo. . . Ficou muito tempo de joelhos, mirando pensativa as folhas  to leves que at a sua respirao as abanava. . .
       E esse pequeno milagre se reproduziu largamente: dos troncos rugosos e tristes, de rvores escuras e secas, brotaram galhos viosos, que causavam estranheza, como braos novos nascendo em ombros de velhos.
       Com uma grande atividade, subiam e desciam as formigas pelos muros; e as abelhas rondavam, procurando, perguntando, chamando pelas flores. At que as flores vieram, afinal, entre as folhas envernizadas, que o sol fazia brilhar na sua cor de pintura fresca.
       Longamente cantaram as cigarras. Os passarinhos instalaram-se nos ramos altos. E at morcegos apareceram, ao entardecer.
       Os vizinhos paravam, de novo, e convenciam-se, admirados.
       O homem risonho, de olhos de folha, ainda esfarelava, s vezes, a casca de um galho, soprava algum bichinho da ponta de um ramo, calcava a terra com o p, em certos lugares. E ria-se, apontando uma flor que desabrochava. Era de tal espcie, o seu riso, que os seus olhos se enchiam de orvalho.
       Ento, a menina sentia brisa e sol por dentro de si. Saltava pelas pedras, abraava-se s rvores. Tudo renascera! Tudo renascia! Boquinha de Doce, de mos postas, parava no alto da sacada, olhando. A menina considerava-a de longe, com pensamentos indeterminados, mas que exprimiam esta emoo: "Ela  imortal!"
       Tiraram o balano, para concertar a goiabeira. E a goiabeira transformou-se toda. Como era torta, sustentaram-na com paus. Como tinha pedaos podres, cortaram-lhe muitos galhos. Como estava com as razes de fora, chegaram-lhe mais terra. E quando as flores surgiram com duras ptalas de mrmore, e no meio uma fina penugem cheia de plen. . . ah!  Boquinha de Doce passava a mo pela casca do tronco, alisava alguma folha mais grossa, e amorosamente falava: "Estavas to velhinha. . . to maltratada. . . Pobre de ti! Mas agora vai ser melhor. Sofreste um pouco, mas vai ser melhor!" E falava para o abacateiro novo: "E tu, quando  que dars flor, tambm?" Virava-se para a menina, e acrescentava:  " da tua idade." E, embora ela no a fizesse, a menina ouvia o resto da pergunta: "Quando  que dars flor, tambm?"
       
       Pois at a parreira, com suas hastes ressequidas e suas preguiosas folhas, desenrolou pmpanos verdes e cidos; e esqueletos de cachos armaram um frgil desenho de prolas verdes por cima da sebe.
       Maria Maruca descobriu as primeiras goiabas. "Ah! estas, sim..." Descobria os cajus nascentes. Descobria os mames, amontoando-se.
       Os vizinhos queriam comprar frutas. Vinha gente de longe, para busc-las. Batiam palmas. Ia-se ver, e mulheres desconhecidas falavam com Maria Maruca:
         Queria saber se a moa dava uns cajus daqueles. . . ou vendia. . . Minha irm passou por aqui, e ficou com um tamanho desejo. Coitada, ela est para cada hora. ..
       Maria Maruca ia dar, mas voltava de mau humor, e resmungava consigo, toda suada: "Para cada hora. . . Para cada hora. . . No podem  ver nada dos outros! Cruzes! Credo! Que esganao!"
       Vinha mesmo um velhote de barbicha, vinha de longe, de longe, com um saco embaixo do brao, para comprar abios. Trepava na rvore, enchia-se de fruta, depois descia farto, e com o saco cheio. Enrolava um cigarro de palha. Punha-se a contar, formando montes. Contava de dez em dez. Jogava para o lado a fruta estragada. Depois perguntava: "Cad s dona?  pr'ela vim conta. . ." Os garotos da rua ficavam pedindo fruta. Metiam por baixo do porto as mos sujas, pretas, mulatas, com unhas lascadas, com perebas nos dedos. "Dou?" perguntava Maria Maruca. Mas perguntava sem carinho. Para acabar com aquela choradeira. E Boquinha de Doce respondia paciente: "So crianas, coitadinhos... E so pobres. .. Nunca se recusa a quem pede. .-." Maria Maruca ia-se embora, apanhava a fruta, resmungava: "A mim, nunca me deram nada..."
       
       Por fim, a rua toda entendia de abastecer-se ali.
         Faz favor de me dizer se aquele mamoeiro  macho ou fmea?
       L ia Maria Maruca perguntar.
         No  macho, no.
         Ah! que pena. . .  que eu precisava fazer um xarope. . .
       Quando a velha se retirava, ela abria numa risada:
         Graas a Deus, que no  macho!
       A qualquer hora da noite ou do dia, batiam palmas, com a maior naturalidade:
         Faz favor de me dar umas raspas de cajueiro?
         Faz favor de me dar umas folhinhas de abacate?
         A senhora tem sabugueiro? tem pitanga?
         Faz favor de me dar umas folhinhas de laranja-da-terra?
       A turca do bazar descobriu a parreira viosa, e veio buscar umas folhas para fazer trouxinhas de arroz.
         Esses carcamanos tm cada comida!  exclamava Maria Maruca.
       No, na turca ela achava graa. Quando a via subir a rua, dizia assim: "Olha s a perninha torta que ela tem!"
       Uns vieram procurar tansagem para feridas, outros, erva-de-santa-maria para doenas do peito, galhinhos de arruda para benzer espinhela cada.
       L num canto, Dentinho de Arroz descobriu caruru. Deu para nascer tambm beldroega. E, pela sombra, havia trevos, muitos trevos, de to linda cor, de to fina seda. . . "Os de quatro folhas do felicidade"  dizia Maria Maruca, dizia Dentinho de Arroz, dizia a velha Quinca, parando na subida, com o seu livro de missa na mo. A menina, ajoelhada, procurava o trevo miraculoso, folha por folha, descobrindo as formigas que viajavam sob aquele toldo to suave. Mas, de quatro folhas, nunca encontrou nenhum.
       
       Depois de descobrir o nascimento de cada fruta, Maria Maruca fez um mais sensacional descobrimento: a terra estava dando ouro. "Esto pensando que  mentira?" Ela foi cavar na barreira, para encher as latas dos craveiros, e encontrou o ouro, saindo  toa. Primeiro, nem acreditou. Mas olhou, viu  era ouro mesmo!
       Todos se riam. Ela alargava os olhos, deslumbrada e triste. "Mas era ouro! Se ela at ficara com medo de bulir! Estava tudo brilhando, l embaixo. . . No queriam acreditar! Pois ia buscar uns torres!" E desceu a escada a correr. Os outros continuavam rindo-se. OLHINHOS DE GATO, no.
       OLHINHOS DE GATO foi atrs dela, convencida. Tudo podia ser. OLHINHOS DE GATO tambm no tinha dvida de que a terra pudesse estar dando ouro.  to misteriosa, a terra! Deviam ser os tesouros dos Reis e dos Feiticeiros de que Dentinho de Arroz tanto falava. Ningum sabia que estavam ali to perto! E, de repente  tal qual nas histrias  Maria Maruca, sem querer, o encontrou. . .
       Foi atrs de Maria Maruca, e estacou diante da barreira de ouro. De ouro, sim. Ouro meio cor-de-rosa,  certo. Mas ainda mais maravilhoso. Ouro encantado. Ah! ela mesma ajudou a destacar, tambm, do duro barro, aquelas palhetas, com a ponta da unha  embora machucassem um pouco, finas e cortantes como vidro.. .
        verdade que, na mo, aquele ouro desfalecia logo: tinha a transparncia das asas das liblulas, das asas dos cupins, que caam, de noite, em redor da luz. Mas a barreira continuava a faiscar com suas paredes preciosas. . .
       Maria Maruca foi buscar uma colher de pedreiro: no queria quebrar aquelas lascas muito miudinho. Poderiam duvidar ainda. "Esto rindo  dizia. Mas vo ver, s!..." Para convencer absolutamente, foi mesmo buscar uma enxada. Ela queria arranjar um grande bloco brilhante. Mas o ouro quebrava-se facilmente. Ouro prodigioso! Quanto mais se cavava, mais aparecia!
       Subiram a escada com as mos cheias daquelas palhetas cintilantes. OLHINHOS DE GATO sentia sua existncia ligada s histrias de fadas. No compreendia a estranheza causada por aquele encontro. Pois no era to natural que o ouro surgisse ali? No compreendia, principalmente, que Dentinho de Arroz pudesse tambm ter dvidas. Ela, que sabia muito bem como um cavalo vira um prncipe, e sai um palcio do fundo do mar. . .
        
        Boquinha de Doce olhou para aquilo com um ar que era, ao mesmo tempo, de pena, de graa, de complacncia: "Isso  malacacheta..."
        Como  o nome?  "Malacacheta..."
       OLHINHOS DE GATO olhou para as fascas que estavam na sua mo. "La-ma-ca-che-ta!" Nome bonito, mas difcil. Difcil mesmo.
       "E  bota-se   fora?"      insistia   Maria   Maruca.   "Pois ento.. .     responderam. "Ah!" Seu aspecto era uma coisa sem descrio.
       
       Foi por aqueles dias que apareceu a tia Totinha. Foi dessa vez que lhe levou um pratinho novo para o mingau: pratinho amarelo, com um prncipe de casaca roxa e uma princesa de vestido decotado. OLHINHOS DE GATO quis mostrar-lhe a montanha de ouro para saber a sua opinio. Tia Totinha era muito sbia. Tocava piano e fazia po-de-l. Ela pegou naquelas fascas com muito cuidado, e disse: "Vou levar, para os meninos brincarem."
       Ela era muito magra, muito branca, e parecia um pssaro. Em redor de seus olhos, a pele ficava muito fina, e tornava-se azul. Usava uma gola alta, de barbatanas. Viam-se todos os ossos de suas mos. Mas OLHINHOS DE GATO gostava dela, do seu nariz, que parecia porcelana, do suave movimento do seu corpo muito fino.
       Levou s uns pedacinhos de malacacheta, mas falou com as raparigas que precisava de um bocado grande de barro, para tirar manchas de querosene no assoalho. Depois, foi-se embora. Quando chegou  esquina, voltou-se, para dizer adeus. Os babados da sua saia arregaada desapareceram.
       E Boquinha de Doce murmurava como quem reza: "E esta senhora est to magra... to magra... Ir morrer, tambm? Ir tambm atrs dos outros?..."
       Maria Maruca observava: "Eu no sei por que : os prosas acabam sempre assim  s em esqueleto. Acho que  porque eles no comem, no ?"
       OLHINHOS DE GATO escutava uma e outra, olhando o prncipe dentro do prato. E via em redor aquelas mos to brancas e lustrosas, parecidas com as velas e com as teclas dos pianos. Assim polidas. Daquela cor.
       
       Maria Maruca no se desencantava do seu descobrimento. Parava diante da barreira, e achava impossvel.. . Queria, mesmo, chamar o homem do chumbo velho, para lhe vender todo aquele ouro. "Ningum acredita...  dizia ela  ... um dia ho de se arrepender. . ."
       O mundo era o terrao que a parreira enfeitava de sombras mveis  o quintal que descia por ali abaixo, carregando suas rvores  a rua que passava defronte, sem casas, reduzida a um muro esboroado e as espessas frondes de mangueiras cor de bronze  era o fundo das outras casas, com cordas de roupa, gatos andando  e as outras ruas mais longe  telhados, vermelhos ou pretos, com chamins, clarabias, janelas de stos  torres das igrejas  trens  gasmetros  palmeiras  pedreiras  morros  e as montanhas: primeiro, verdes; depois, roxas; por fim, azuis... E as nuvens... E os pssaros... E a luz nascente... E aquele rumor humano que se ouvia, de alto a baixo...  E o cu.
       Para alm de tudo isso, era Deus. Mas no era mais o mundo...
        Boquinha de Doce estava na sua janela. (As campainhas dos bondes tilintavam, ao longe. . . Batia um sino, grave. Batia um outro, mais juvenil. . . Ia-se acabando, o sol...)
       Ora, as nuvenzinhas chegavam-se umas s outras, leves e brancas, franzindo-se numa espuma frgil. Depois, coloriam-se de ouro e de rosa. Depois desmanchavam-se. Boquinha de Doce olhava-as e sorria. "As invenes de Deus!"  dizia com ternura. Mas no era s das nuvens que falava: as plantas, as pessoas, as estrelas  tudo eram invenes, tambm; outras invenes... Deus inventava, escondia-se. E a gente dava para gostar de suas invenes e esquecia-se dele. Ah! mas s ele valia a pena. . . Iam procur-lo nos livros, nos altares. . . como se ele pudesse estar num lugar certo.. . E falavam por ele! Como se por ele algum pudesse falar. . .
       Parava um pouco, ratificando-se: "A no ser, talvez, Jesus..."
       " Seus olhos cinzentos boiavam no tempo. . . "H quantos anos... Aquelas coisas... Ningum sabe..."
       Mas, se a lua surgia, considerava-lhe o aspecto e, caso fosse oportuno, parava no caminho, ou detinha-se no sair da janela, para "salv-la".
       
       "Deus te salve, lua nova, 
       no te vi sino agora. 
       Deus te d boa clausura, 
       a mim, boa formosura:
       que me cresa o meu cabelo 
       at baixo da cintura."
       
       E a menina olhava, encantada. Encantada, porque ela dizia "luna".
       Maria Maruca ajuntava: "Ai quem me dera tambm uma trana bem comprida." E repetia com o nariz vermelho empinado para o cu:
       
       "Deus te salve, lua nova. "
       
       Mas nem sempre era assim. Vinham dias sem essas nuvens infantis. Sem essa transparente luz, como um partido aro de vidro. Grandes nuvens grossas subiam, subiam, em torno do mundo, e iam fechando-o. "As nuvens bebem gua no mar"  explicava Maria Maruca. "Depois, vm regar a terra." E a menina olhava aqueles estranhos animais cinzentos, imensos, enchendo, enchendo seus ventres de numerosas curvas num mar que as casas no deixavam ver.
       E agora l vinham elas, to cheias que se fundiam umas nas outras, e ocupavam todo o cu, e faziam a escurido. Todos os pssaros voltavam, assustados. E at os pintinhos corriam, piando,  procura de asa em que se escondessem. Um enorme susto parava a respirao de tudo. Depois, l longe, uma onda ruiva se elevava, alta e esparsa, afogando rapidamente as torres. Dobravam-se as palmeiras, molemente, de um lado para o outro. Esfriava. A onda ruiva alastrava-se, acercava-se. J vinha chiando nas folhas secas do cho e nos ltimos ramos das rvores.
       Batiam portas, voavam latas, caam coisas. As negrinhas corriam a recolher a roupa da corda. E um grosso trovo principiava, enchia-se, rolava como uma pedra num precipcio, abalava o mundo, a casa, estremecia o corpo da gente por dentro. E ficava no ar um tremor de pssaro, um vibrar finssimo de grilos.
       Era um espetculo tal que a menina no resistia ao desejo de v-lo. Mas o vento lanava-lhe terra nos olhos e na boca. O vento enchia-lhe os ouvidos de um tumulto imenso  casas carregadas pelos ares, navios virados, rvores arrancadas  ELA MESMA levada por entre essas coisas perdidas  para onde? para onde?  e sem se poder agarrar a nada, sem que ningum a puxasse  cada para fora do mundo, pela fora do vento.
       Ento, vinha-lhe um pnico, uma necessidade de no ver, de no ouvir, de no saber que o vento estava ali  e de gritar, de gritar muito, pedindo que o detivessem, que o parassem, que o mandassem embora.
       Criana nem homem, nunca ningum sofreu tanto, nunca ningum chorou to convulsamente, por coisa perdida, por vida acabada  como a menina aterrorizada com o poder destruidor do vento.
       E entre lgrimas, maiores que os seus olhos, viam-se os raios cair, velozes e claros  ao longe, sobre as montanhas afogadas na sombra.
         Por que o cu fica assim preto.. . ? Edwiges interrompeu a reza:
         Num diga preto, menina. Um home que falo essa palavra, num dia assim, veio o curisco, pego nele e deixo que nem carvo. (Pruqu preto  "ele"  o Canhoto. . .) A gente deve de diz: escuro.
       Outra rajada de vento matava perguntas e respostas.
       Nem Boquinha de Doce podia nada, no meio daquela estranha desordem? "L se vo as flores das rvores!" murmurou baixinho. "A laranjeirinha nova  capaz de quebrar-se, com este vento..." "Os pintinhos recolheram-se todos?"
       OLHINHOS DE GATO sentia-a vigilante sobre as coisas l fora. S o seu pensamento parecia ainda coisa firme e segura, no meio daquela confuso. "Pobrezinho de quem anda em guas do mar..."  e a menina sentia que ela no caminhava apenas pelo seu quintal, em pensamento, mas por cima de todas as vidas, como estendendo muitas mos para tudo que se encontrasse em perigo.
       E abraando a menina, Boquinha de Doce dizia, gravemente:  "No chores, ouve:
       
       San Jernimo, Santa Brbara Virgem,  
       l no cu est escrito, entre a cruz e a gua benta: 
       Livrai-nos, Senhor, desta tormenta!"    
                                 
       Maria Maruca aparecia desgrenhada: "Desta vez, vem o mundo abaixo!"
       Seria?   A menina  olhava   para  Boquinha   de   Doce.   E Boquinha de Doce segredava-lhe:  "No  nada! Isto passa! No tenhas medo..."
       
       Um pingo d'gua no telheiro da cozinha.
       Outro pingo.
       Muitos pingos, ntidos, flores, como moedas tinindo.
       No telheiro da cozinha. No cimento. Nos tijolos do muro. Nos vidros. Na folhagem.
       Muitos pingos. Tantos, que j nem se ouvem separadamente. Um cheiro acre de barro novo, de cho regado, de terra mida. Ah! um cheiro de alegria. O ar atravessado de grossas linhas d'gua, entortadas com o vento.
       Ainda alguma lufada. O cu clareando.
       "San Jernimo, Santa Brbara Virgem..."
       
        Eu no te dizia?
       Os troves afastando-se, viajando para outros lugares. . .
       J se ouviam chiar as panelas de Maria Maruca. Edwiges dizia: "T bom, minha gente, eu j vou indo. . . O vento passo... Eu tinha medo  que ele me levasse pelos ares; ou me virasse o guarda-chuva. . . T bom, gente, t tro dia. Cad a nenm? Adeusinho, nenm. Benza-te Deus!"
       s vezes, ainda havia tempo para se formar o arco-ris, com todas as suas cores. Maria Maruca chamava-o de "Arco-da-Velha" e perguntava sempre consigo: "De que ser aquilo?"
       Seu nariz empinado no ar, no conseguia entender nada. Apenas, ela ainda acrescentava: "Na minha terra tambm havia um, igualzinho, que aparecia de vez em quando..."
       Os grilos, nas noites de chuva, enchem o quarto de uma festa de guizos. O filo do cortinado fica to friozinho!
       E a gua rola pelas pedras to docemente que, navegando-se pelo seu rumor, chega-se ao pas do sono sem medo nem dificuldade.
       
        Dentinho de Arroz, Dentinho de Arroz. Gente, mesmo? Ou boneca de pano? To macia. . . To silenciosa. . . Seus olhos negros  olhos ou miangas?  mornos, levemente vesgos, destilando uma luz oleosa. Nvoa tnue de buo, pelo sorriso. Nvoa menos tnue de mgoa, no olhar.
       Diante do pequeno espelho, enganchado num prego, seu cabelo se alarga numa densa fronte, eriada e negra. Suas mos finas, da cor do jacarand, vo submetendo, em calmos movimentos de trana, a espessa massa que o leo de coco ilumina de frisos metlicos.
       E quando o penteado termina, ento aparecem as pequenas orelhas, muito redondas, transpassadas por uma sutil argolinha de ouro.
       Seu sorriso forma duas covinhas na face. E sobre o lbio estremece um sinalzinho preto.
       Subir a ladeira sentada no seu ombro  uma aventura como um passeio por cima do vento, sentindo as pedras diminurem, e as estrelas e as nuvens aproximarem-se. Descobre-se, pela janela gradeada dos pores, um mundo secreto, agitando-se. (Um mundo velhssimo, que ficou esquecido ali.) Descobre-se, na varanda, a ponta dos chinelos do general, na sua cadeira de balano. . .
       Brincar ao seu lado  sair invisvel, e viajar por pases azuis e dourados, onde os peixes conversam com as princesas, os pssaros puxam carros festivos, e as palavras, ditas trs vezes, formam e desfazem as pessoas e as coisas mais impossveis.
       Ela conhece (pessoalmente) o Rei, a Rainha, a Fada, a Bruxa, o Gigante e o Ano. Conhece mesmo muitssimas outras coisas, de que os outros no falam nem parecem ter notcia. Alm disso, sabe para onde voam os palcios, de que lado vm as feras, e em que lugar enterraram os tesouros. ( estranho que no acredite na barreira mgica de Maria Maruca.)
       Tambm sabe do Saci-Perer, do Lobisomem e da Mula-sem-cabea. Mas disso quem sabe melhor, na verdade,  a negrinha Lusa, que gosta de carne-seca com farofa, e costuma trazer do subrbio cana-crioula, melado, "mariola de capote", pamonha e, s vezes, moringuinhas de barro vermelho.
       Se OLHINHOS DE GATO lhe estende a mo para que lhe corte as unhas, revira os olhos, e declara: "Hoje, no, que  sexta-feira."
       Todas essas coisas pertencem a um mundo diferente. Mas mesmo neste mundo h coisas que s ela sabe ver e sabe contar. O trenzinho que vai passando ao longe, por exemplo: ela o acompanha com uma voz baixinha: "Tira terra, bota terra, tira terra, bota terra..." ( isso que o trem vai falando. . .) "Quer ver como ele agora vai apitar? :  piuim!"  E apitava mesmo. Sem estar vendo o trem, ela sabe por onde ele passa: "Agora chegou a So Francisco Xavier. . ." "Agora, parou..." "Agora, tornou a andar..." "Agora, a moa chegou  janela. . ." "A moa disse adeus. . ." "A moa gosta do foguista." "Tira terra, bota terra...  l vai ele. . ." "Quer ver como vai apitar de novo?"  E apitava mesmo, outra vez. Algum mais sabia essas coisas, alm de Dentinho de Arroz! Ningum. O sino, por exemplo. Os outros pensam que o sino bate. Pois no  no. O sino canta uma cantiguinha. O sino diz assim:
       
       "Quem
       tem,
       d.                                                            
       Quem no tem
       no  tem  nada  que  d!"
       
       Na noite estrelada, embaixo da laranjeira florida, quando os vaga-lumes caem na sombra como florezinhas de vidro, balbucia uma cantiga doce e triste:
       
       "Senhora SantAna, 
       Senhor So Joaquim, 
       na hora da morte, 
       lembrai-vos de mim!"
       
       Como ficam bonitos seus olhos! Parece que esto cheios de flores de laranjeira. Ela veio de um lugar longe. De um lugar com igrejas e procisses. "Os boizinhos vo todos cobertos de rosas de papel. . . As criancinhas vestem-se de anjos: anjinhos pretos, com asas brancas..." Dentro dela h muitos sonhos claros: luas, velas, vus, toalhas de renda.. .
       Mas a sua alegria  tambm a banda de msica da praa, e os botes reluzentes das fardas. Arrumando a casa, pergunta de repente: "Sabe como  mazurca?  assim." E comea a rodar num passinho mido, agarrada  vassoura. "E sabe como  chotis? " Pega na mo da menina para trs e para a frente, e modula: "tar-rar-rar. . ."
        bom dormir sobre o seu peito, diferente dos outros. Uma curva diferente. E um outro cheiro. Encostada a ela, a menina pensa viajar para longe, para a roa, pelo mato, onde moram animais engraados, de nomes esquisitos: gambs, cangurus, caxinguels  que surgem dentre folhas densas, speras e de cheiro acre.
       Seus dedos tm uma doura boa. Quase no pousam: e a gente fica sentindo-os para sempre!
       H o licoreiro azul, da boneca; h o pianinho de dez teclas; h muitas bonecas de celulide, de massa, de pano. Pois aqueles dedos passam por esse mundo como uns finos cavalinhos escuros, levantando as patas com graa, e pisando as flores pintadas nos vidros e nos panos, sem quebrar uma ptala.
       O quadrado branco do luar  como um papel estendido no cho. Sobre esse territrio claro e frio, ela inventa as histrias das fadas. As tbuas dissolvem-se, pelo seu poder. O quadrado de luar muda-se em lago, muda-se em jardim, muda-se em paraso. O sono inclina para ele suas plantas, solta sobre ele seus barcos, mergulha nele seus peixes vagarosos. . .
       
       "Pisei na pedra, 
       a pedra balance  ou. .. 
       O mundo estava torto, 
       Rainha endireito      ou..."
       
       
    3
       
       E EXISTIA aquela rua! Antiga rua, larga e pobre, escancarada ao sol e s tempestades.
       As guas da chuva cortavam-na de regos irregulares. Vinha o sol e arrancava  misria daqueles sulcos profundos  cheios de latas, papis, vidros, coisas perdidas  um manso crescimento cintilante de ervas rasteiras. Alastrava-se o verde pelo barro acima. As lavadeiras estendiam ali lenis anilados, roupas numerosas de criana, saias brancas de babado e cadaros. As ceroulas, de pernas abertas, pareciam ainda homens dormindo ao sol.
       Conversavam vizinhas   pelas   varandas   e   pelas   janelas.
       Desciam criadinhas para as compras  danantes, nas perninhas finas, com um pano pela cabea e uma cesta no brao.
       Chegava o verdureiro, cheirando a plantas e a terra, com as mos e os ps grossos e vermelhos, da mesma dura substncia das cenouras e beterrabas. Por entre as couves e as bananas, surgiam molhos de dlias brancas e amarelas e rseas e vermelhas, dlias fortes, carnudas, de onde caa uma sbita chuva de grande orvalho.
       O peixeiro trazia uma lata de gua para ir molhando os peixes, pelo caminho. (A menina pensava: "Ser que os peixes assim continuam vivos?") Ele era feio, spero, escuro, e usava um brinco. Maria Maruca chamava-o "carcamano", com uma risada de desprezo. Mas o filho, ainda menino, que o acompanhava, tinha uns olhos to bonitos e uma boca to sria! Parecia uma figura dos livros. A pele do seu rosto era a de um pssego: dourada, com manchas incertas de carmim. E uma fina penugem, contra o sol. Cheirava, porm, de tal modo a maresia. . .
       Os gatos da rua miavam lamentosamente em redor dos cestos. H quanto tempo andariam aqueles gatos sem comer, meu Deus? Com uma grande faca na mo, o homem insistia nos preos. Iria matar algum? s vezes saa sem vender nada. Boquinha de Doce murmurava atrs dele, franzindo um pouco as sobrancelhas: "Que grandissssimo teimoso! Tem palavra de rei!"
       Quanto ao comprador de ferro velho, usava palet de veludo, meio verde, meio amarelo. Vinha de saco s costas, as pernas arqueadas, e gemia de vez em quando: "Tchumbo, metale, cama velha. . ." Parava, para gemer. Esgaravatava no cho, pensando que tinha encontrado alguma coisa. Mas no tinha encontrado nada. Olhava para os ramos das rvores, para o vo dos pssaros. E continuava a subir. Suspirava entre os dentes uma cantiguinha. Nunca soube do ouro de Maria Maruca. Desaparecia no cu azul.
       Todos esses  e o lixeiro, e o garrafeiro, e o laranjeira  pareciam trabalhar duramente. Subiam a custo com a sua mercadoria ou o seu servio, e soltavam um grito longo, anunciando-se. Pesado grito. O do amolador vinha da prpria roda de pedra. Que silvo to alto! To alto, to duro, to veloz e to triste!
       Outros, porm, cortavam a calma da rua com uma graa arisca de cores e de vozes, e corria-se  para v-los mesmo sem se comprar nada, tanto a sua presena era rica e alegria. Certamente, no andavam por ali para vender o que traziam  mas simplesmente para enfeitar a vida: para que as crianas parassem de chorar; e os doentes, de sofrer; e os que estivessem cansados descansassem, e os que estivessem amargurados pudessem, talvez, sorrir.
       O mascate batia com dois paus na mo. Dizia brandamente: " renda de linho!" e logo se via tremer no ar colorido o fio trmulo das rendas esgarando-se em arabescos. Mas o dizer ainda no era nada. Trazia s costas, uns sobre os outros, vrios bas azuis, com flores cor-de-rosa. E punha-se a abri-los, pelas portas. Havia "sapanetes" em caixas excessivamente cheirosas, fitas brilhantes, de todas as cores, alfinetes com cabea de vidro azul, em forma de passarinho; gaitas, assovios, flautas de lata lustrosa, to lustrosa como o prprio som que desprendiam, e que fazia aparecer todos os garotos da rua. As cartas de alfinete deixavam desdobrar-se lentamente o seu longo papel amarelo: parecia uma escala, cujos degraus fossem caindo. As negrinhas aspiravam com delcia o vidrinho de extrato; miravam extasiadas os espelhinhos de encostar, com rosas e jasmins pintados no vidro, e enterravam na carapinha  s pra expriment  as travessas de celulide, com pinturinhas de ouro e de prata.
        Boquinha de Doce verificava gravemente os metros de cadaro para as saias e calas; e o nmero de botes para os corpinhos. Escolhia, calada, rendas e bordados, meditando sobre os desenhos. E mostrava a OLHINHOS DE GATO: "Olha a florzinha bonita!" "Olha o elefante com a sua tromba!"
       Os bordados, as rendas, o ponto russo tinham, para a menina, uma secreta magia. Podiam repetir-se interminavelmente, figura sobre figura. No acabavam nunca. Sempre, depois de uma flor, podia vir outra flor. Sempre, depois de um elefante, outro elefante... E ela pensava no nmero com uma intraduzvel esperana. H coisas, ento, que no acabam? H coisas que no morrem. . . Pode ser?  o nmero que mata a morte. Sempre que se acrescenta mais um, o que no tinha parado continua. Na verdade, assim no h fim.
       Oh! isso j estava no desenho inventado pela sua mo, e que ela repetia com os lpis nos papis, e a ponta do dedo nas paredes:
        
        
       O moleque da cana e o do puxa-puxa, decididamente, brincavam apenas de vender. Um parava na esquina: reco-reco-reco. . . Outro descia a ladeira, saltitando duas varinhas no ba do doce: tirique-tique, tique-tique, tique-tique. . .
       Muito longe, o da pamonha gritava molemente, fanhosamente, como um pssaro esquisito: "Eeeeeh. . . pamonha ..." "Oi o pamonheir!..."
       Mas o moleque das balas, carregado de cartuchos cnicos, com uma etiqueta de papel lustroso que, pela cor, indicava a natureza do contedo  esse, segurando a armao redonda em que os cartuchos se apinhavam, concntricos, ainda cantava, com a outra mo em concha sobre a boca, requebrando o corpo, por um cruzar e descruzar dos  ps:
       
       "Bala de ovo, altia, chocolate,
        hortel-pimenta, iai. . .!"
       
       Em certos dias  aos domingos, talvez  trazia imensas redes de papel fino, vivamente colorido, cheias de balas enfeitadas de franjas, de crespos trabalhados a tesoura, e com pedacinhos de papel dourado. Que riqueza! As crianas andavam em redor, de mos para trs, deslumbradas com aquele esplendor.
       Com uma roupa to branca que doa na vista, chegava o angueiro, de cavalete embaixo do brao, com um surdo anncio muito grave: "Ongu!" (Trs ou quatro passos, de chinelo arrastado.) "Oi u ongro?"
       A mercadoria vinha atrs, num tabuleiro, em grandes paneles enrolados em panos brancos, transportada por um pretinho de olhos msticos, que no dizia nada: destapava, servia, fechava, ia andando. O outro recebia o dinheiro. Metia-o devagar na bolsa de couro. Sua mo preta, de unhas brancas, desafivelava, fazia o troco, afivelava  independente do seu olhar, que vagava ao longe, e apenas baixava uma ou outra vez, para conferir.
       Maria Maruca quis provar aquela comida de pretos. "Olhe l. . .  Tome cuidado...   dizia Dentinho de Arroz.
       Essa gente sabe muita coisa. .. Podem botar dentro alguma 'porcaria'..."
       Maria Maruca desdenhava: "Eu l tenho medo de feitios!"  Sua cara vermelha brilhava ao sol.
       Amontoaram-lhe no prato o piro de milho, e viraram-lhe, ao lado, umas colheradas do ensopado de bofe e corao. O gato lambia-se. "Bem cheiroso que est!" Disse e passou a lngua pela colher, numa experincia. Provou, provou  e animou-se a uma colher cheia. (A cara de nojo que Dentinho de Arroz fazia, com o seu olhinho estrbico e o sinalzinho suspenso no sorriso!) "Arre!" Largou o prato em cima da mesa, e saiu soprando, com a boca toda encarnada. "Tem fogo!" E, como se houvesse mesmo um incndio, abriu a boca embaixo da bica.
        Dentinho de Arroz sacudia a cabea e ria-se baixinho.
         preciso tomar uma coisa! Vou ficar com as tripas queimadas!
       E abanava a boca com o avental.
       E o dia continuava.
       Por fim, j tinham passado todos os vendedores. J se tinha comprado. J se tinha vivido. Escurecia. Embora acendessem os bicos de gs, a rua ficava numa sombra densa de fuligem. Apenas  uma sombra balouante, pelo palpitar das estrelas, dos vaga-lumes e dos cacos de vidro.
       Ento, uma voz risonha, leve, uma voz ainda sem tormento, vinha cantando, cada vez mais perto:
       
       "Sorvetinho, sorveto, 
       sorvetinho de iluso, 
       quem no tem duzentos ris 
       no toma sorvete, no."
       
       Uma pausa de uns trs ou quatro passos. Depois:
       
       "Sorrrrrrrvete, iai!
       Olha a fama do bom sorvete,
       sinh!"
       
       As negrinhas caam na gargalhada. Jogavam a gargalhada para dentro do avental. "Arre, sorveteiro prosa!" Mas o dono da voz no via nem ouvia. No sabia de nada. Estava ainda na outra rua. E sentia-se que sua boca ia sempre sorrindo, pela maneira por que cantava:
       
       "Sorvetinho, sorveto..."
       
       As pessoas bocejavam, no meio da conversa. "Sbado,  o casamento da Leonor.. ." OLHINHOS DE GATO comeava a sentir o corpo mole. "Casamento e mortalha..." Levavam-na para a cama e despiam-na. Cama de pauzinhos torneados: vinha um pauzinho de um lado, encontrava-se com o outro, depois com o outro. . . com o outro. . . certinhos, todos. E, do alto, o cortinado caindo,, desfranzido... A cama grande era para as doenas, com seu cobertor peludo, com tantos travesseiros, com a colcha franjada, por onde as rosas se alastravam, num brando relevo. Aquela, a pequenina. . . a de todos os irmozinhos.. . Filo do cortinado... O mosquito do outro lado, zunindo... o brilho do espelho enevoando-se... A luz mor-
       E, justamente nessa hora do sono, se escutava um arrastar de passos, l fora, l em cima, pela calada irregular. Um bater de tamancos nos degraus tortos. E uma voz de preto velho, voz escura e calma, resmungando  dolente, quebrada, triste, triste:
            
       "Balangandim    t    to'adinho. . .                    
       t quentinho                                                  
       balangandim..."    
                                              
       Sempre com um passo igual, os ps iam-se arrastando, como se no esperassem que jamais algum os mandasse parar. Vender  seria uma casualidade, no uma esperana, nem um propsito. Para muito longe ia andando aquela voz. Para alm dos muros. Para os confins da terra. OLHINHOS DE GATO pensava mesmo que aquilo que ia passando no devia ser gente. Era uma sombra, talvez. A Sombra que trazia o sono. Sua voz montona  uma cano de embalo, perdida, sem destinatrio certo. . . E escutava-se o bater dos tamancos. Ningum comprava, no. E esse ltimo passante era o que mais impressionava. No parecia trabalhar nem divertir-se. Parecia cumprir, somente, aquela pena de andar e de apregoar.
       
       Quanto mais subia, mais a rua se tornava interessante. Ali perto, a casa do doutor, e a de D. Sinh.
       D. Sinh tinha cachorrinhos peludos, sabis e micos. Depois, arranjou tambm um papagaio, que parecia causar certa curiosidade ao da casa de OLHINHOS DE GATO. D. Sinh vivia o dia inteiro de bata com babados na gola e nas mangas. D. Sinh dormia a sesta na varanda, numa rede listrada. Via-se, s vezes, subir a fumaa azul do seu cachimbo. A latada de maracuj desabrochava sobre o seu sono flores roxas e frutas amarelas. D. Sinh balanava-se na rede. Que bom! Abanava-se com uma ventarola. Que frescura! Comia bolinhos, e tomava goles de caf. Quando D. Sinh se ria, todo o mundo interrompia o que estava fazendo. O gato abria os olhos; o passarinho virava a cabea. D. Sinh era to gorda que, para subir uma escada, parava em cada degrau. Como era grossa, a perna de D. Sinh! D. Sinh usava almofadinhas na janela, para no machucar os cotovelos. Tinha muitos anis nos dedos, uns por cima dos outros, e muitas pulseiras nos braos. Da sua casa estava sempre vindo um tlec-tlec de ovos batidos e cheiros adormecedores de erva-doce, canela e cravo.
       A casa do doutor tinha cortinas de renda, e l dentro via-se um grande piano. Em certas noites, moas de voz muito longa cantavam diante das visitas, cerrando os olhos, e estremecendo a cabea carregada de cachos. Mas todos os dias, por um terrao com plantas cor de vinho, o afilhado do doutor caminhava de um lado para o outro, perguntando de repente: "Por que  que o profeta Jeremias andava sempre chorando?" A menina, de longe, debruada nas pedras, olhava para ele e pensava em cavalos brancos. Maria Maruca resmungava: "Aquele prosa anda mas  estudando para maluco..."
       Na casa seguinte, havia um sabugueiro muito grande. No meio do jardim, um canteiro oval.  noite, quando a sala estava acesa, via-se, pela janela aberta, resplandecer o grande espelho da parede, e sobre ele passarem, obliquamente, os moradores.
       Depois, vinha um terreno vazio. Depois, uma casa com muitas crianas pequenas, dessas que ontem estiveram com catapora, hoje com coqueluche, amanh com caxumba. As mes olhavam para longe, tristes, com elas ao colo. Diziam assim: "Fui leva as criana na botica. Eu trato elas com aginha 1. Desta vez t custando muito. Parece que percisa percur a cumadre Zefa  pra fumigao."
       E mais uma casa. E mais um jardim. E uma figueira alargando-se sobre os passantes. L no alto, uma ltima grade: e a rua acabava. Acabava rente ao cu. As estrelas, de noite, estavam perto da cabea de quem ia l em cima. Perto das mos. Perto mesmo dos ps.
       Numa tarde muito lmpida, escalando pedras e saltando valas, ela chegou tambm l no alto, e um grande porto verde se abriu para a deixar passar. Dentinho de Arroz segurava-lhe a mo. Afastaram os ces para longe. Grandes ces, de voz grossa, e olhos de gente. E havia um terreiro, muito varrido, muito liso, com rvores em roda. No centro, estava sentada
       D.  Erotides, com os seus cabelos armados, e, em redor, todas as suas filhas, j moas, de saia comprida, laos nas trancas e travessas nos bandos.
       D. Erotides tinha os cabelos completamente brancos. Brilhavam como vidro. Seu rosto redondo era acetinado e cor-de-rosa  todo cor-de-rosa: na testa, no nariz, no queixo. Estava de vestido preto, e pousava as duas mos no regao. O espaldar da cadeira subia acima dos seus ombros. As moas, sentadas em banquinhos, inclinavam-se para a frente, com os braos sobre os joelhos, conversando. Talvez estivessem apenas ouvindo. Naturalmente D. Erotides ficava ali contando histrias.
       Ao longe, avistavam-se os telhados das casas situadas na outra vertente,  copas de rvores,  pessoas,  escadas,  tanques.
       E,   envolvendo tudo, o cu claro, de um azul meigo, quase branco.
       O terreiro parecia um grande tapete redondo, e D. Erotides uma rainha, com suas damas. Tudo igual s figuras dos livros de histrias.
        Dentinho de Arroz chegou perto dela, sorriu timidamente, e entregou-lhe uma grande bandeja, cheia de belos abacates. Ela ergueu o guardanapo, sorriu tambm, depois, levantou os olhos dos grandes frutos, verdes e lustrosos, e disse coisas de agradecer. Uma das moas tomou-lhe a bandeja das mos. E ela falou para outra: "V buscar umas flores para a menina." Chamou a menina para perto; bateu-lhe na face levemente, com as pontas dos dedos; perguntou-lhe com carinho: "Est boazinha, hein?"
       A moa chegou com as flores, a outra voltou com a bandeja vazia, o grupo retomou seus lugares, todas as moas sorriam, e a menina saiu com o ramo de muitas cores, onde havia rosas, monsenhores, cravinas e amores-perfeitos.
       E vieram descendo. E diante da larga paisagem que descortinava, a menina pensava que seria possvel erguer-se no ar, pisar os telhados, caminhar pelos ramos, atingir as altas montanhas, estendidas ao longe. O cu era puro, a brisa, leve. Silncio e amplido. Entre as flores, a menina trazia aquela imagem do terreiro: D. Erotides e suas filhas. E acordava em seus ouvidos a cantiga de Boquinha de Doce, quando, pela manh, lhe enrolava os cachinhos:
       
       "Estava a bela Infanta 
       no seu jardim  assentada, 
       penteando trancas de ouro
       com   seu   pente  de  marfim..."
       
       C de baixo, virou-se para ver a casa, que ficara pequenina, com o telhado quase rente ao cho.
        Dentinho de Arroz apontou: "Depois daquela,  a casa do Sotero."
       O Sotero tinha uma barbicha branca e no falava com ningum. s vezes, descia com um saco s costas e um fuzil. Ia caar. De noitinha, voltava com as costas vergadas, e umas formas misteriosas dentro do saco. Estava escuro, no se podia descobrir o que era. Subia nas pontas dos ps e em ziguezague. Porque assim a subida cansava menos. Era a explicao que os outros davam.
       Ah! mas o lado de l da rua! Aquele lado. . .! Diziam que era muito mais difcil de subir, de to empinado e sulcado de regos. Diziam que ainda era mais pobre: "Tirando a casa do Joo, a da Quinca... a da..." E deviam passar-se por l estranhas coisas.
       Dele surgia, como brotando do cho, enrodilhada nas suas roupas que, elas mesmas, pareciam uma continuao do barro e das ervas, a pobre Mariana, de leno preto, de olhos gastos de choro, de orelhas sujas, com suas bichas de ouro carregadas de estrume e aljfar. Dali vinha a Mariana, que se sentava na escada para conversar e enxugava os olhos de vez em quando, ou no leno ou na blusa.
       Foi de l que veio, num tristssimo dia, com os cabelos esfiapados, o vestido em pedaos, os ps descalos e as pernas de fora, a boca cheia de gritos, e de olhos sados do lugar, a Laurinda, sua filha, que enlouquecera de repente. "Tudo por causa de um homem!"
       Houve um grande estardalhao, em toda a rua. Apareceram pelas portas as mes com os filhos ao colo. E as negrinhas. As criadas velhas, pitando cachimbo. Os velhos de palet de alpaca, arrastando os ps. Todo aquele mundo de que a gente no se lembrava h tanto tempo. As senhoras espiavam pelas venezianas, pelas frestas das janelas. O afilhado do doutor estendeu, na ponta do pescoo fino, a sua cara de cavalo branco, com os dentes de fora. Os garotos, circunspectos, enrolavam os fios dos papagaios, e assistiam, encostados aos muros... Os cachorros pulavam por cima da sua sombra, abanando a cauda e latindo. As galinhas corriam, cheias de pintos. . .
       O carro do Hospcio parou na esquina, para levar a doida. E os homens cercavam-na, correndo de uma calada para a outra.
       Foi quando despontou do cho, l em cima, a velha Mariana, com os seus cabelos cinzentos muito mal enrolados, andando sem pressa, entre aquele tumulto  uma ponta do avental em cima dos olhos, enxugando as lgrimas, sem movimento. Assim de cara coberta, humilhada e trgica, ela descia a rua, atrs da filha doida  sem olhar, entregue ao instinto de seus ps escuros e fortes, que assentavam vigorosos nas pedras e na terra. As ervas agarravam-se aos panos da sua saia, e, por entre as pregas sem fim da sua roupa suja e grossa  mas que caa como a das esttuas  no se viam seno suas duas mos, suas mos grandes, direitas, como as de um homem, queimadas do sol, gastas pelo trabalho, escondendo, com aquela chita, a face e a dor. Como se andasse dormindo. Como se andasse j morta. S quando passava bem perto  que se sabia que, dentro daqueles panos, sua voz, grave e dolorosa, repetia apenas sobre duas notas: "Ai Je-s! Ai Je-s!"
       Oh! l do alto, l do alto, descia de vez em quando, um caixozinho branco e dourado, com muitas flores cor-de-rosa e azuis. "So os anjinhos!" exclamava Maria Maruca. " o melhor tempo para morrer: no se sabe nada, no se sente nada. No se faz falta a ningum. . . Antes eu tivesse ido daquela idade!" Ficava pensativa, a sua cara vermelha.
       E os garotos da rua, todos lavados e de sapatos, o cabelo espichado para o lado, caminhavam pausadamente, com raminhos duros de flores. Um deles trouxe, mesmo, uma vez, um corao todo feito de miostis. Parecia mentira que soubesse pegar naquelas flores o pequeno que, habitualmente, no fazia seno matar sapos e passarinhos. Pois trazia o corao azul hirto, nas duas mos, com uma fita que ia batendo e levava letras de prata. Enfim, Maria Maruca muitas vezes dizia: "A morte ensina a gente." Coisa estranha, a morte. Maria Maruca estacava  entrada da porta. "Ahn! pensei que estavas dormindo! Vinha acordar-te. Porque dizem que no  bom a gente estar deitada, quando passa um enterro." Explicava: "A alma do defunto pode levar a da gente, tambm."
       Oh! l em cima. . . Oh! do outro lado da rua passava-se cada coisa! Havia at negros feiticeiros, bruxas, lobisomens, pessoas que falavam com as almas. . .
        Quem me leva a passear do outro lado do morro?
       Mas Dentinho de Arroz dizia: "Eu no sou. Do outro lado do morro. . .  xi! moram os ladres." Maria Maruca prometia: "Deixa estar, que um dia te levo." Ajuntava, porm: "Mas tens que ir com o calcanhar para a frente."
       Essa condio  ela bem que a experimentava  no se pode dizer que fosse fcil. . . Assim, muda e sozinha, a menina olhava melancolicamente l para cima... O Sotero subia, subia, com o saco s costas, e o fuzil. . . D. Erotides devia estar embaixo da rvore, com seus cabelos de vidro. . . O cavalo do soldado ia sumindo, sumindo, e acabava-se. E os outros... Os outros. . .
       
       Quando se ouvia aquele tremor no cho, aquele "Eia! Eia!" bravio, depois aquele estalar de chicotes, aquele sacudir de rodas, aquele tilintar de campainhas  eram as "andorinhas". A menina sentava-se na soleira, para ver os mveis passarem.
       As outras crianas j estavam na esquina esperando-as. Ela, no: o limite da sua liberdade parava ali. Olhava-as quase distraidamente, sem nenhuma inveja: umas, limpavam o ranho com as costas das mos; outras, concertavam minuciosamente os barbantes dos suspensrios; algumas, mordiam o beio, a fim de puxarem com mais fora uma lasca teimosa da unha do p.
       E as "andorinhas" rodavam, pesadas e barulhentas, no cho de pedras irregulares. Difcil, fazer as mulas pararem num lugar certo. Umas puxavam para c outras para l, e os homens, descendo da bolia, falavam com os animais, comandavam, convenciam ou lutavam peito a peito com eles, at conseguirem colocar as carroas em boa posio. Que caras vermelhas!  como a de Maria Maruca. Que negros bigodes retorcidos!
       Os garotos recuavam um pouco, e observavam, assombrados, entre os seus barbantes, as suas feridas, os seus trapos. Uns eram brancos, muitos eram mulatos, alguns, pretos. De vez em quando mostravam uns aos outros os seus descobrimentos: "A mula mais forte  aquela!" Os companheiros examinavam, com respeito.
       Os carroceiros comeavam a enrolar as cordas. Apanhavam o suor da testa e atiravam-no para o cho em gotas como pedras. Depois, desprendiam as mesas, que vinham amarradas pelo lado de fora, e colocavam-nas na calada. Abriam as portas da "andorinha", e comeavam a retirar pedaos de coisas: gavetas, cheias de roupa; camas desarmadas; portas de espelho; tbuas irreconhecveis. Sobre mveis escuros desabrochavam flores douradas; em portas de vidro, havia desenhos brancos de pssaros e flores. E apareciam os mrmores. Os mrmores que so feitos de nuvens de muitas cores, sumidas umas nas outras, esquecendo-se e recordando-se. Mas a coisa mais bela eram os espelhos. Espelhos de porta, espelhos de paredes, e estes com molduras to extraordinrias que nem se podia compreender como fossem feitas. Ento, as crianas da rua punham-se de ccoras, mirando-se. Achavam muita graa em aparecerem todas juntas, ali no vidro liso e luminoso: riam-se umas para as outras, como enlouquecidas, e discutiam sobre o nariz e sobre os olhos, e abriam a boca, para ver seus prprios dentes. Os gatos recuavam, um pouco pensativos e constrangidos, dando de cara consigo, naquele vidro. E os carregadores comeavam a subir com os mveis. E os espelhos, quando passavam, reproduziam rvores, portes, telhados, e naquele ritmo iam sendo levadas dos seus lugares, num incerto passeio, as coisas que estavam presas sempre: e ao deslizarem por perto da menina diziam-lhe docemente: "At logo! At logo!" E ela no ia. No, ela ficava ali, sria e sozinha, olhando aquela partida festiva.
       De repente, os espelhos refletiam o sol. E jorravam pela rua, de alto a baixo, grandes luzes quebradas e vivssimas, que feriam duramente os olhos. Os garotos exclamavam: "Olha o relmpago!" Os pretinhos, porm, que sempre sabem muitas coisas, diziam com um ar mais grave: "Num  relampo, seu. . .  holofote!"
       Os donos da mudana chegavam com ares importantes e altivos, como proprietrios da rua inteira e das paisagens. As crianas, com bengalinhas, bons, chapus de pluma, tinham caras estpidas. Os meninos, sardentos, assim to bem vestidos, ficavam olhando para os vizinhos, ou contemplando a vista, com metade do dedo dentro do nariz. Retiravam-na para apontar qualquer coisa ao longe, murmurando melosamente: "O trem!" "A palmeira!" "A igreja!"
       Maria Maruca dizia para a menina: "Ests vendo os cacarecos, hein?" E ia cuidar de outra coisa.
       Mas a menina, na verdade, estava vendo muito mais: esvaziava-se a ltima carroa: a que trazia a mesa da cozinha, a mquina de caf, as plantas enterradas em latas de banha, a gaiola do papagaio, arrepiado e desbotado; os bas da criada, com pinturas azuis e cor-de-rosa; os colches com pedaos de palha saindo; as esteiras enroladas, os regadores, os bancos de ps em forma de W. . . E a menina singularmente se transportava para a casa ao longe vazia, com o jardim triste de onde deviam ter vindo aquelas plantas, e a parede em que ficara sozinho o prego onde dependuravam a gaiola do pssaro.
       ... Tudo isso porque a lembrana mais remota da sua vida era tambm um quarto de onde saam e entravam homens como aquele, com toalhas enroladas na cintura, e bigodes espessos, levando nos braos os pedaos dos mveis desarmados. S uma cama ainda restava inteira, e um banquinho baixo, como aqueles em forma de W. O banquinho estava encostado  parede, perto talvez de uma janela. E na cama estava deitada a moa, que de repente se sentou, passando as pernas para o lado de fora. Nesse momento, eram s duas pessoas: ela e a menina. Depois, no havia nada. Que se passou? Para onde foram? Como desapareceram as duas figuras? A moa tinha cabelos pretos, e estava toda de branco.
       Todas as vezes que ela pedia que lhe explicassem onde era, quem era, Boquinha de Doce ficava impressionada e triste. Mas, um dia, fez um esforo, e declarou, em voz baixa: "Tua me." To baixinho que falou! Quase no entreabriu os lbios. Quase no descerrou os dentes.
       Mais tarde, esteve comentando essas lembranas com outras pessoas. "To pequenina, meu Deus! To pequenina! Como  que pode ter guardado aquilo?"
       Ento, OLHINHOS DE GATO, ali perto, recompunha dentro de si aquela viso. E sofria por no sentir a figura com mais clareza: via o movimento, a cor da roupa, o desenho sumrio das pernas e dos braos. O cabelo preto contornava um rosto vago.
       Maria Maruca insistia em perguntar-lhe: "E de que mais ainda te lembras?" Mas pensavam que era inveno quando ela se punha a explicar com desespero que, antes de ser assim como era, tinha sido uma bola vermelha que girava, girava, girava. . . "Essa agora!" "As mentiras que 'isto' j vai contando!" E, no entanto, a sua grande angstia era precisamente no saber em que momento passara da antiga condio quela atual. Havia uma espcie de vala de silncio, de sombra, de sono.
       "No se ponham a esgaravatar muito na cabea da criana!" observava Boquinha de Doce. Mas tambm Dentinho de Arroz e C lhe perguntavam por suas lembranas. E gostavam que ela contasse a cena da mulatinha brigando com um quitandeiro por causa de uma bandeja de quingombs! As gargalhadas que davam, diante da sua descrio, com atrapalhadas frases!
         E isso  ainda era no Rio Comprido!   exclamava Boquinha de Doce.
       Os outros diziam: "Que memria! Mas que memria! Benza-te Deus!"
       Sentando-a no colo, Boquinha de Doce ia dizendo: "Estes olhinhos de gato  que no se esquecem.. . no se esquecem. . ." E apertando-lhe o queixo ainda tornava: "Parecem mesmo uns olhinhos de gato!"
        
        Dentinho de Arroz sopra no ferro de engomar. 
       Desenrola-se o gorjeio do canrio:  uma nuvem branca se ergue por cima dos telhados.
        Dentinho de Arroz ensaia a temperatura do ferro, aplicando-lhe o dedo molhado de cuspo. Chiou. Est bom.
       Maria Maruca  tira roupas  do  cabide  e  estende-as  em cima da cama. A capa de Boquinha de Doce  como a do Santo Cristo dos Milagres: toda brilhante de vidrilhos e com babados de gaze.
        Dentinho  de  Arroz  esquenta  o  ferro  de   tuyauter.  E, cantarolando baixinho: "No s tu quem eu amo, no s..." enrola e desenrola naquelas hastes compridas e quentes os inmeros babadinhos do vestido branco.
         Toda faceira...  diz para a menina  toda faceira, com seu vestido de tiot. . .
       Dos sapatos brancos vinha um cheiro peculiar, um cheiro felpudo, veludoso e suave. A menina, em calcinhas, estava sentada em cima da mesa, e alisava as meias com as mos.
       Agora, Dentinho de Arroz tira-a para o cho. Veste-a, de joelhos. E seus dedos escuros pulam, como cavalinhos, por cima dos babados, rpidos e leves.
         Cad a faixa?
       Passa-lhe a faixa pela cintura.  Sabe quem lhe deu aquela fita to bonita? Orelhinha Peluda.  Arma-lhe um grande laarote.
         Cad o cordozinho de ouro?
       Passa-lhe pelo pescoo a correntinha, onde tinem as tetias. A menina, de cabea baixa, mira o calunga de casaca e cartola; os olhos de Santa Luzia; Nossa Senhora da Conceio, pintada de azul; a F, a Esperana e a Caridade penduradas na mesma argolinha; a figa de coral, a de azeviche; o signo-de-salomo; a moeda de ouro, com uma cabea de moa; e uma linda coisa de esmalte azul, com um aljfar no meio  que ningum sabe mais o que teria sido, porque est quebrada: e a gente contempla, contempla, no se cansa de contemplar. ..
       E Dentinho de Arroz sempre ajoelhada.
       Pela janela, v-se a nuvem, cada vez maior. Toda redonda. Branca, branca. O gorjeio do canrio enrosca-se como a ponta das trepadeiras. Em si mesmo. No ar.
       Os cachos do seu cabelo tambm so enrolados assim: sobre si mesmos. Para qu?
       Fica bonitinha, assim.
       Desce-lhe pelo rosto uma onda sufocante de p-de-arroz. "Agora vamos soprar as pestanas. Quando  que voc cria sobrancelha, hein, menina?" E j no alto da cabea est o chapu de babados, cujo elstico passa por baixo do queixo.
       Pela rua afora, Boquinha de Doce murmura: "Est fazendo calor. . . Tem cuidado com as pedras. . . No sujes os sapatos. . . No olhes para trs..."
       Coisa difcil, andar na rua!
         Aonde  que ns vamos?  arrisca-se a menina a perguntar.
         L em casa do teu padrinho. . . Muito< longe... L para o Largo dos Lees.
       LARGO DOS LEES...
        Ah!
       OLHINHOS DE GATO anda, anda. . . Do lado, no peito, ficou uma pequena mancha esverdeada, do perfume que lhe puseram, e ainda no acabou de secar. Cheirinho bom, que vem dali! A capa de Boquinha de Doce brilha ao sol. Os salpicos de veludo do vu atrapalham a expresso do seu rosto. A mo, que a vai levando, est quente, escondida numa luva de seda, cheia de botes. E no cho, por baixo da saia, aparecem e desaparecem os bicos pretos das botinas de Boquinha de Doce.
       
       LARGO DOS LEES...
       
       Extenses imensas abrem-se na imaginao da menina. Um terreiro maior que o de D. Erotides. Oh! muito maior. E os lees em volta, sentados, rugindo. Naturalmente, aqueles lees enormes que Dentinho de Arroz lhe mostra no alto dos portes. Rugindo com aquelas vozes muito grossas, vozes de oco de pedra, que se ouvem s de noite, ao adormecer,  hora em que os lees descem das pilastras, se desencantam, viram animais vivos. . .
       L vo, l vo os burrinhos do bonde, com suas lindas campainhas ao pescoo. A viagem  toda por dentro dessa msica. . .  ligue-ligue, ligue-ligue, ligue-ligue. . .
       O homem do bonde d um assovio estridente, que estremece a criana e os burros. Saltam baleiros pelo estribo, com seus cartuchos de confeitos e pra-quedas de papel rendado. "Artia? Ovo? Chiculate?
       E as patas dos animais batem nas pedras  to direi-tinhas!  plec, plec, plec. . . Mas de vez em quando o chicote d uma volta pelo ar, e estala em cima deles. Que dor!
       A criana, com medo e pena, refugia-se na capa de Boquinha de Doce, Cheira a calor, a malva seca, a madeira do armrio. A outras pessoas. A outras casas. Coisas guardadas. Perdidas. Tempo,
       Entra pelo bonde um ventinho bom, leve e atual.
       Os burrinhos apressam o passo: plec, plec, plec. . . E as campainhas cantam.
       Para esquecer-se do chicote, a menina fecha os olhos.
       Esquece-se   da   viagem,   de   si   mesma,   vai-se   esquecendo, esquecendo...
       Talvez dormisse.
       ............................................................................................
       Uma vez, porm, no se cuidou do vestido de tiots. Havia pressa. Precipitao. E "ohs!" e "ahs!" abafados. "Apanha-me as luvas! Valha-me Deus! Valha-me Deus!"
       Talvez o tempo estivesse encoberto: as nuvens andavam por dentro de casa, iam de um lado para outro, com as pessoas, pousavam em cima dos mveis, boiavam, dilatavam sua tnue cinza.
       Depois, foi uma descida pelas pedras midas, rente aos muros limosos. Caam das rvores flores molhadas e pegajosas. Uma, ainda oscilava no ar, num fio de baba. E andava-se, andava-se. . .
       A menina levava no brao o casaquinho vermelho, enfeitado de fitas pretas. "Esta fazenda  muito boa. Aquece muito. Desta fazenda  que se fazem as roupas dos soldados." "Ah! ?" (A menina tinha uma raiva daquele casaquinho!)
       Ficou-lhe a lembrana de um alto porto de ferro, que rangia. De um homem de mangas arregaadas, movendo-se entre flores. Muitas flores molhadas. Molhos de flores. Rodas de flores. E uma longa escada de mrmore, onde a chuva fazia poas. E uma varanda fria.
       Ficou-lhe aquela impresso de um cheiro de fogo e de rosas moles. Uma impresso, tambm, de olhos vermelhos, de lenos torcidos,  de cabelos desmanchados.
       Chegava gente. Limpavam os ps  entrada da porta. As pessoas caam nos braos umas das outras, e falavam baixinho, nos ouvidos. . . Algum dizia, de uma cadeira: "To de repente. . .  To de repente..."
       E ela andava por ali, no meio daquilo.
       . . . Um dia, num canto de uma casa, perto de uma parede. . . Tambm assim muita gente. . . Mas agora j sem rosto, sem corpo. . . Um cheiro diverso...  este cheiro. . . Um ar diverso sobre as coisas...  este ar.. . Levantaram-na nos braos, como tirando-a de dentro do cho. Desviaram um lencinho de seda enfeitado de raminhos roxos. Oh! os raminhos ela est vendo: durinhos, na seda, com folhinhas e flores. . . "Beije a mame." O rosto era duro e frio. Brilhava. Perto, havia uma porta.
       O menino soluava tanto que ela queria tambm chorar.
       Ficou-lhe uma impresso de mveis desarrumados, de grande desordem. De sala vazia, no meio da tarde. De restos de flores. E o cheiro morno do ar perdendo-se.
       Uma criada escura, nos intervalos daquela pressa triste, puxava-lhe os cachinhos  que esticavam, esticavam, e, de sbito, se enrolavam sozinhos  e batia-lhe no lbio, fazendo biro-biro-biro. . .
       Por fim, parece que escureceu. As ltimas figuras partiam. Ouvia-se falar: "J  to tarde! Como iremos, agora, para to longe..." Ouvia-se responder: "No... No vo. Fiquem hoje conosco. . ." Era muito grave, porque a voz chorava.
       E dormiram muitas pessoas no mesmo quarto. Por baixo dos travesseiros, puseram uns livros muito grandes...
       
       
       
    4
    
        _ C!                             
       Ela era pequenina. Ainda nem tinha sobrancelhas! Parava nessas duas letras. Mas sabia que no estava dizendo tudo. Como , porm, que se pode dizer mais? E deixava-se estar sorrindo e olhando de longe.
         Cad ela, xente?
         C... 
        U-u?
          C...
       Deixava cair das mos os brinquedos, e vagarosamente ia surgindo por entre os mveis. E levava o seu sorriso com um cuidado, que parecia carregar um copo de vidro... - Mas cad ela?
         C... Voltavam-se, esperando-a.
       C animava-a, seduzia-a com olhares e sorrisos, e fingia que a procurava por outros lugares:
          Mas cad essa menina, xente? Cad ela que eu no estou vendo?        
       Ento, OLHINHOS DE GATO, s gargalhadas, projetava-se nos braos que lhe estendiam, e deixava que lhe fizessem ccegas e festas. E ficava ali abraada, ouvindo a conversa. Perguntas, respostas. Sempre a mesma coisa. Ela mirava o rosto de C.
       No rosto de C se misturavam, como numa paisagem, elementos confusos de sua alegria: o olhar de certos animais familiares  cores do cho, douras de cu  uma presena de sombra de rvore  lembranas de guas e flores.
       A voz, cheia de viagens e visitas, mostrava e apagava logo pessoas e coisas, transportando tempos, explicando coisas extremamente antigas, que ela estava talvez dizendo pela ltima vez.
       Voltando-se para a menina, e apontando para o embrulho em cima da mesa, C arregalava os olhos, prometendo surpresas.
        Camisolinha!. . . Vestidinho de renda!. . . Calcinha nova!. . . Despregava do embrulho os alfinetes, que ia juntando nos dentes. Depois, espetava-os na blusa e, abrindo o papel, tirava e mostrava  menina encantada a roupinha com bordados e ponto russo, que Boquinha de Doce analisava miudamente. Conversavam sobre pregas, babados, colchetes  e com saudade e alvio recordavam entretelas e barbatanas.
       Assim falando, iam metendo a criana nas calcinhas novas. "Est barrigudinha! Cad o umbiguinho dela?" Viravam-na para um lado e para o outro.
       Pois no  que C sabia fazer pela beira das calcinhas aquele desenho com linha vermelha que no acabava nunca?
       
        
       
       Depois, experimentavam as camisolinhas e os vestidos de babado e cabeo. Ela corria para mostrar a Dentinho de Arroz. Maria Maruca vinha ver. O papagaio ficava contente: "Currupaco, papaco!" E o gato esticava-se, bocejava, e roava pelas pernas dela desde o bigode at a ponta da cauda.  Cad ela?
       O cheiro do pano, das rendas, dos bordados, a sensao dos tecidos novos, de que s vezes se esfarelava um pouco de goma, causavam-lhe uma inexprimvel felicidade. Tudo aquilo, vestido pela primeira vez, era como um anncio de renascimento. Parecia a terra do quintal, quando as rvores foram tratadas. . .
       No entanto, Boquinha de Doce murmurou esta coisa to estranha: "J no tenho pacincia para essas coisas miudinhas. . . J estou ficando velha: olha para esta cabea! Se Deus no me desse coragem... De uma hora para outra a gente acaba. . . No viste a Nenenzinha. . . ?"
       Ficou um silncio. Pousou a mosca na renda. C dobrou o papel.
       Por cima da mesa as palavras continuavam, como pedras, como pregos: "Estou ficando velha. . . a gente acaba. . . Se Deus no me desse coragem..."
       Ningum tirava aquelas palavras dali?
       "Nem diga isso. . . Ainda est muito moa. . . Ainda est muito forte! Nem pense numa coisa dessas... A Nenenzinha sempre sofreu do corao..."
       Por cima da mesa, as palavras novas saam como plantinhas do cho. Com certa dificuldade. . . Havia tanta pedra, tanto prego. . .
       E a menina suspirava.
       C brincava de dar palmadas. Depois, levantava-se. "Bom, vamos andando..."
        C!
       Enternecida, mirava-a descer a escada, deixando-se ir atrs dela, convertida em rastejante olhar. Acompanhava o movimento de sua saia de dois babados, que a mo direita arregaava do lado. Sumia-se. E no se sumia. Continuava guardada a imagem, num sereno lugar sem janelas nem terremotos, de onde ressuscitava de vez em quando, mesmo sem estar presente.
       Mas naquela noite ela estava to mal! Doa-lhe tudo. Que tinha? Por que lhe deram a beber tantos remdios diferentes. . .? Por que, diante dos seus olhos cansados, insistiam em flutuar aqueles imensos bales vermelhos que mudavam de forma, quando se fitavam, e nessas metamorfoses se iam sucedendo e fugindo, saindo de umas paredes, entrando noutras paredes, sem que ningum mais os visse, ningum mais. . . ? Ah!...
       E por que lhe aplicaram aquelas coisas chamadas sinapismos, que no dia seguinte lhe deixavam tamanha bolha um pouco acima dos calcanhares?
       E por que no adiantava nada a ternurinha ciciosa de Dentinho de Arroz, que lhe mostrava figuras muito coloridas, muito cheirosas de tinta, figuras lustrosas de moas de olhos pretos, sadas das caixas de passas?
       Por que era tambm intil a voz grossa de Maria Maruca: "Trata de ficares boa! Anda, fica boa depressa, que te do uma boneca! Fica boa, para chupares bala de coco: chegou agora mesmo um cartucho!"?
       Por que era v, completamente, a presena de Boquinha de Doce, pensativa e serena, acendendo uma vela diante do Senhor Santo Cristo?
       E por que veio C, e lhe falou baixinho, e lhe levantou da testa o cabelo to suado, e lhe consertou o travesseiro, e lhe apalpou por baixo das cobertas o corpinho mole, magro e ardente, e lhe sorriu com a sua boca muito sinuosa, de lbios largos, e girando os olhos para o lado lhe perguntou quase sem voz: "Mas cad ela?"
       E por que a fez sorrir doridamente, naquele abatimento triste, longe dos bichos, das plantas, do sol... ?
       E por que lhe pediu que dormisse, com to bom modo, e diminuiu a luz, e sentou-se  beira da cama, e tomou nas suas a mozinha sem fora, gasta de tanto calor. . .?
       Os grilos cantavam tremulamente. A chama da vela crepitava, leve e longa: a capa do santo brilhava e escurecia. E o tic-tac do relgio na sombra. . . E num cabide uma blusa com um ar muito triste.. .
       . . .E por que lhe disse, num sorriso cheio de confiana: "Dorme, que eu fico."?
         Toda a noite?
       "Ah! Graas a Deus. . . Parece que j est melhorzinha..."
         Toda a noite.
       E por que ela dormiu, naquela segurana, levando dentro dos olhos Boquinha de Doce rezando, Dentinho de Arroz guardando as figuras inteis, e C, sentada pertinho, sorrindo-lhe e conservando nas suas, como para sempre, a sua mo?
       E por que, num momento invisvel, essas mos se desprenderam da sua, que ficou sozinha sobre o lenol  e se foram nas pontas dos ps... e abriram a porta sem rumos. . . ?
       E por que, no dia seguinte,  primeira luz da manh, ela abriu os olhos to fatigados, to nutridos s de esperana, e recordou-se, e deu por falta da imagem no lugar em que a deixara, e balbuciou: "Co!"  e disseram-lhe: "Ela volta. . . Teve de ir em casa, mas volta. . ."?
       E por que uma estranha coisa se passou dentro dela, como se um pssaro preto e grande pousasse no seu peito e em silncio a apertasse nas garras, para sempre, e cada vez mais?
       O mesmo peso e a mesma sombra estiveram, anteriormente, sobre o corao.
       Ela andava entre as folhas secas, e as pedras, e as razes das plantas, sozinha, falando sozinha, abaixando-se para apanhar uma concha misturada com a terra, ou perguntando coisas a algum caco de vidro. Os espinhos puxavam-lhe o vestido. As pombas fugiam dos seus sapatos. Nos quintais sossegados, cachorrinhos latiam. Era doce o ar, e deitavam-se cores atrs das montanhas. Um papagaio de papel balanava-se muito alto, no caminho dos pssaros.
       Ento seu ouvido percebeu como um gemido baixinho.
       Parou entre as rvores, para descobri-lo.
       Ouviu o zunir de um inseto, o suspiro da tarde nas folhas, o pingo de gua no tanque, um pio de pssaro muito longe. . .  as coisas mais mnimas. At o frufru do papel de seda do papagaio l no cu.
       Pedras. Buracos. Razes entrelaadas. Sombra das frondes...
       E o gemido continuava.
       Correu para a moita dos "brincos-de-rainha", afastou os galhos, debruou-se para dentro, sustida numa folha com os ps a fugirem do barranco  e na sombra dois olhinhos mal abertos se levantaram para os seus, com o tnue gemido, numa expresso to compreensvel de medo e queixa como se ali estivesse uma outra criana igual a ela: e sofresse.
       Tropeando nas pedras, rasgando-se nos espinhos, subiu a correr, com o corao rpido, metendo-se por entre coisas velhas  regadores, panelas, ancinhos   procura de qualquer coisa que aumentasse  os  seus braos, que  a fizessem chegar at o fundo daquele  para ela imenso  abismo, e de l retirar aquela vida que gemia.
       E com uma ala de barbante, sozinha, a trouxe do fundo da sombra, e a levou pelo quintal acima, pela escada acima, com as pernas j moles do esforo e da emoo, para espanto de todos, que lhe perguntavam: "Mas onde arranjaste esse bicho to feio! E no tiveste medo? E que vamos fazer agora desse cachorrinho?"
       E o bicho movia-se pelo cho, pretinho e encaracolado, e a menina, de ccoras, ria-se e tinha medo, ao mesmo tempo. Maria Maruca resmungava: "B muito engraadinho, sim, para me sujar a cozinha toda." Dentinho de Arroz no lhe queria tocar: "Eu sei l de onde veio isso! Essa gente sabe muita coisa. . . Pode ser alguma 'porcaria'."
       Mas Boquinha de Doce dizia: "A criana tambm h de brincar com alguma coisa. Contanto que no se machuque. . . Deixem o pobre bichinho. Uma coisinha to pequenina! Que trabalho  que isto d!" Mas Maria Maruca implicava: " mais uma coisa para atrapalhar os ps da gente. . ."
       OLHINHQS DE GATO estava brincando com ele, mas estava tambm escutando. E Boquinha de Doce perguntou-lhe: "Como  que se vai chamar?" Discutiu-se o nome. A criana queria que fosse "Jasmim". "Ai, um jasmim preto!  ria Maria Maruca  nunca na minha vida vi!" E troando chamava-o: "Jasmim, Jasminzinho, anda c, meu cheiroso Jasmim!..."
       E a casa encheu-se daquela nova alegria. Patinhas negras pulando os degraus da escada, corpinho negro encolhendo-se por debaixo dos mveis, . . Focinho negro, de olhinhos estufados, diante do qual o gato surpreendido e contrariado fazia "ffff...!" como a corda frouxa da guitarra. . .
       Mas um dentinho branco e pontudo pode passar de raspo, como um espinho, e uma gota de sangue despontar, como um pingo de orvalho. Corre-se com o vidro de iodo. "Eu, por mim, punha-lhe acar em cima, e depois uma teia de aranha. . ."
       E, alta noite, ela mesma no sabe que a mo, robusta e morna, pousa-lhe na testa, no pescoo, nos braos. Que se examina o dedo ferido, que se torna a apagar a luz. Que talvez se reze.. .
       O que sabe, porm, no dia seguinte,  que no anda mais nem pela casa nem pelo quintal aquele brinquedo peludo de olhinhos to redondos e dentinhos to finos.
       L vai ela, calada e sozinha, mais com apreenso do que com esperanas. Por baixo dos mveis, j viu; por dentro das barricas e dos cestos, tambm; e atrs das portas no est. . . E no caminha para mais longe. Procura por entre as pedras, afasta de novo a moita de "brincos-de-rainha"  como naquela tarde. . . Mas no est. No se ouve mesmo nenhum gemido. No o encontra e no pergunta. E no pergunta s pelo medo da resposta.
       E deixaram-na procurar tanto! E deviam ter visto que estava sofrendo. . . E seu corao doa como se o tivessem pisado duramente e sem socorro.
       Maria Maruca veio implicar: "No achaste o Jasminzinho? Foi-se embora, o maroto! Fugiu. . ."
       E ela, ento, chorou alto, convulsamente, sob muitos tormentos reunidos e confusos, e as pessoas se desfizeram diante dela, como esttuas de cinza, e a casa ficou vazia, sem mais braos, sem mais rostos, sem mais vozes certas. Sozinha ela existia entre as coisas imveis, que talvez lhe falassem, se pudessem, e a abraassem, se no estivessem presas na sua forma. Sozinha ela existia  com as cadeiras, os espelhos, as paredes, as rvores, as nuvens, o sol. . .
       Era assim.
       
       
    5
    
       SOLIDO, solido. . . Acumulam os dias solido.
       No entanto, as pessoas passam, param, entram, falam. . . Mas h valas, grades, muros. . .
       As prprias crianas desencantam: ou porque tm sardas, ou os olhos sujos, ou porque metem os dedos no nariz, ou porque andam com a cara toda melosa de calda de balas ou de visgo de frutas.
       As crianas chamam por ela: "Coisinha! vem c, coisinha!" Ela, porm, no pode ir. No a deixam ir  e mesmo no tem muita vontade. "Coisinha, me d aquela flor?" "Coisinha!, qu me d a tua boneca?" Falam de longe, de longe, e nem adianta responder. Custam tanto a ouvir! "Coisinha, qu troca a tua boneca por uma bala?"
       No a deixam ir porque h sarampos, coqueluches, perobas ... " a morte certa! Esticas a canela que nem se tem tempo de chamar o doutor-da-mula-rua!"
       "Coisinha, sabe?  eu vou a Niteri!"
       E h ruas! H ruas, sim, por onde passam cavalinhos, puxando tlburis. . . H ruas, onde os doceiros se sentam embaixo das rvores. . . H ruas com grandes casas de escadarias de mrmore, em que, de cada lado, pajens de pedra seguram lampies de vidro, em forma de archote. H jardins com grutas onde uma gua esverdeada esfria, silenciosa, sob estalactites de cimento. . . H cascatas com muitas conchinhas frisadas ... H canteiros cheios de flores, por perto dos quais parecem mesmo ir passando anes de carapua, gordos e corcundinhas, com uma risonha cara vermelha e barbada. . . No alto dos portes os lees de pedra meditam. Pelos telhados das casas, fileiras de moas, brilhantes e brancas, soerguem seus mantos de loua, de pregas imveis, no vento. . .
       Em certos domingos, pode-se passear por alguma dessas ruas.
       Vem-se os quadros com molduras de veludo, e os bronzes e as jarras, por entre as cortinas das janelas. Vem-se as famlias nas varandas, conversando com as visitas. E as crianas, com cara de quem est de castigo, ouvem sem dizer nada, hirtas nos seus laarotes e bengalinhas, como plantas presas em estacas.
       Tudo isso  e as palmeiras enegrecendo contra as cores violentas do crepsculo. E ento de uma sala distanciada no fundo de um jardim, algum piano derramando uma chuva de ouro sobre um telhado de cristal e um secreto vento levando-a e trazendo-a, ora leve, ora intensa, ora copiosa, ora to lenta que se esperava cada gota, que se podiam contar uma a uma. E depois, nada mais. Silncio. Nada mais? No: uma espcie de melancolia que modifica todas as coisas que se vo encontrando. . .
       Solido, solido. . .
       O homem de bigodes retorcidos pega os peixinhos de chocolate carinhosamente: "Quere o azul? Quere o dourado?" E depois de receber o tosto faz uma festinha no queixo da menina.
       Mais tarde, estende-se a toalha, com alguns furinhos, sobre a mesa, e pousa-se a travessa dos pastis, a da carne assada, a do arroz-doce. "Ainda temos doce de goiaba?" A compoteira chega, com uma formiguinha no p. "Precisamos dar cabo destas formigas."  "J fiz trs cruzes de carvo: no adiantou nada."
       E como ainda no escureceu, e no  hora de ter sono, abre-se o lbum de retratos, em cuja pesada capa de couro voam anjinhos de bronze com asas de borboleta.
       Dias e dias sobre o pano de croch, aquela casa encantada no deixa entrar dentro de si um raio de sol, um sopro de ar, para os seus silenciosos habitantes. No h um protesto, no h uma lgrima: cada figura continua no seu lugar, olhando para coisas invisveis, indiferente ao que tinha sido antes, e ao que viesse tambm a ser depois.
       Uma traa corre entre os cartes dourados, anda sobre as imagens um brilho plido de marfim.
       Passa a moa de caracis e broche redondo. Passa o jovem de plastrom e roupa contornada de seda. "J no me lembro quem eram estes. E tu, te lembras?" "No  a D. Estefnia?"  "No, a D. Estefnia  a do leque."  "Ento, no sei."
       ...........................................................................................
       Apareciam gordas senhoras, com camafeus e corais.
        Boquinha de Doce vinha tambm, mas com uma expresso muito diferente. "To bonito que era este vestido! De gorgoro francs, cor de ouro velho, com o peitilho de surah cor-de-rosa! Ainda foi comprado no Nicolau! As mangas daquele tempo! E tantas barbatanas! Para qu? Para qu?"
       Todos os outros retratos, de barbatanas e mangas de presunto, passavam diante da pergunta: "Para qu? Para qu?" E no respondiam nada. Com certeza nenhum deles sabia, tambm. E era um pouco triste.
       Depois, vinha a menina pequenina, de lindos pezinhos nus, com as mozinhas gordas amarrotando a camisola. Boquinha de Doce no deixava de se lamentar: "To linda! To linda! E j a buscar o jornal para dar ao pai. E apontava para as letras, e dizia: O Pas!. . . Ah! Morte malvada. . ."
       O outro irmozinho ainda parecia mais bonito, sentado numa poltrona imensa de veludo, e com a boquinha aberta, como dizendo alguma coisa que o papel no conservava, e que seria extremamente interessante de ouvir... 
       Por fim, aparecia uma criancinha despida, aninhada num mvel estofado, com os dedos dos ps encolhidos e as mos puxando os berloques do colar. "Estes olhinhos. . . Estes olhinhos de gato..."
       Aquela era ela. Era ela, e no se lembrava. Ainda no tinha cachos. A bem dizer, no tinha mesmo cabelo. E, em toda a coleo de retratos, dos senhores de casaca e das senhoras de cauda aos meninos de bengalinha, e s crianas de laarote, era a nica a aparecer assim to nua, limitada a um paninho branco, que nem lhe tapava o umbigo.
       No virava depressa essa pgina. Ficava pensando muito tempo sobre muitas coisas e comparando-se aos dois outros retratos, dos irmozinhos to bem sentados nos seus vestidos com franzidos e laos.
       Finalmente, vinha C. Boquinha de Doce, C e ela eram, na verdade, as nicas sobreviventes naquela imensa casa dos retratos, de habitantes mortos, e parados entre mveis complicados, vasos de bronze e cestas de flores.
       Nenhuma das trs, porm, se parecia mais com o que era.
       De modo que, na verdade, no sendo mais o que tinham sido, estavam tambm mortas em parte. Ela mesma, a princpio, ficara admirada de saber que estava diante de si mesma. Pensava que era tambm uma criana j morta, como as outras. E continuava a olhar com certa aflio para essa que tinha sido  sem poder saber mais daqueles pezinhos gordos, daquela boquinha mole, daquele corpo pequenino que ainda nem se podia sentar.
       E como a do retrato estava morta, e no entanto sobrevivia, quem sabe se andaria por alguma parte alguma coisa de todos os outros mortos, que, por isso, estavam ali to tranqilos na mesma posio?
       "Por onde andaro eles, coitadinhos?" "Destes eu no me lembro nada, nada..." "Ah! Pois eu,  como se os estivesse ouvindo falar..."
       
       Alm das figuras do lbum, existem as dos quadros e as dos livros.
       Sobre o cetim azul, o rosto moreno do santo sorri, sem sofrimento. Se a menina fica triste, senta-se perto dele. Assim moreno, com aquelas feies, era um pouco seu parente. E, embora ningum a acreditasse, se isto fosse contado, o certo  que freqentemente o santo movia a cabea do lugar, virava o rosto para v-la. Nessas ocasies, ela ficava extremamente feliz.
       E havia um pequeno quadro com muitas, muitas pessoas reunidas: como um retrato de numerosa famlia. O papel envernizado, oleoso, revelava cores inacreditveis de ver sobre um papel. Vermelhos sem crueza, verdes com sugestes douradas, profundos azuis riqussimos, azuis de pedra de anel. "Ai, este  S. Pedro  dizia Maria Maruca. Aqui est ele com as chavinhas da porta do cu!" Depois acrescentava: "E ali est o galo. Aquele foi o que cantou o cocoric!"
       Todas aquelas figuras tinham nomes escritos em letra miudinha, e a menina pedia: "Me l! Me l!" Maria Maruca respondia: "Ai, no enxergo bem. . . L-e-Le. . . No sei no. . . So os papas. Eu sempre ouvi dizer que isto eram os papas..."
       E a menina olhava para os papas, e os papas olhavam para a menina.
       Mas Dentinho de Arroz lembrou-se um dia de folhear um velho livro. Passaram palcios, figuras de homem, figuras de mulher. De repente, porm, apareceu um touro de asas. E a mo da menina pousou na pgina, para que no a virassem logo. E o touro tinha rosto humano, com barbas frisadas, e via-se que estava caminhando, porque uma das patas avanava, grave e forte. E a menina quis saber se era mesmo verdade. "Haveria gente com corpo de bicho? Ou bichos com cara de gente?" Dentinho de Arroz achava que sim  uma vez que estava nos livros. . . Mas nunca tinha visto assim com barbas e asas. . . Assim com corpo de touro, no. O que ela conhecia era lobisomem. Disso havia muito, muito. Principalmente na roa. . . Mas ali mesmo naquela rua, ela cismava com o "seu" Frederico, que tinha uns dentes to compridos e uma cara to amarela. . .
       Seu Frederico morava do outro lado da rua. O outro lado da rua era "cheio de coisas..." S s vezes seu Frederico descia pelo lado de c. Por qu? Ah! E quando descia, todo o mundo sentia que ele era diferente das demais pessoas. Mesmo a sombra dele tinha um feitio esquisito. Via-se mais a sombra dele do que ele mesmo.
       Quando ele passava, as vizinhas cochichavam umas com as outras. Algumas diziam: "Qual! Coitado. . .  mais um que no tarda a bater a bota. . ." E apontava para o peito:
       "Entisicou... Foi a oficina..."Dentinho de Arroz ia-se embora, e sussurrava: "Deus me perdoe, se ele no  lobisomem.. ."
       E a menina via passar, entre as duas opinies, a pobre criatura amarela, magra, curvada, silenciosa, que passava com uma roupa esverdeada, gasta nos punhos e na gola, e lustrosa nas costas onde os ossos marcavam incios de asas. Que passava sem tirar o chapu, subia, subia, parava de vez em quando, e afinal sumia-se entre o cu e a terra.
       Nunca ningum reparou quando deixou de passar para sempre. No se soube se mudou de rua, se morreu. Ningum nunca deu grande ateno a ele. Era apenas uma sombra, uma espcie de sombra que ia bater a bota qualquer dia. . . Ele mesmo, alis, parecia j no saber tambm de si. . . Mas OLHINHOS DE GATO preferia que ele fosse lobisomem a cadver.
       E  possvel que Dentinho de Arroz tivesse razo: do outro lado da rua devia haver um mundo sobrenatural. De noite, desde o escurecer, ouvia-se um bater de tambores que impressionava. Vozes de mulher erguiam um tino coro de angstias; e entre elas perpassava uma voz sria e grossa de homem como uma rvore que andasse e falasse dentro de temporal enorme.
       Os tambores batiam um ritmo certo. E incansvel.
       Havia um outro gemido insistente, e dentro da msica. Dentinho de Arroz, falava: "So as cucas." E acrescentava: "Essa negrada no se d ao respeito." Maria Maruca olhava para ela. "Coitado do negro que no se preza", murmurava ainda.
       Maria Maruca dava de ombros: "Feitiarias. . . feitia-rias! Eu l fao caso disso! Eu l vou ter medo dessas porcarias!"
       No entanto, Boquinha de Doce, erguendo as sobrancelhas e baixando as plpebras, falava de um modo muito especial: "No me quero meter nisso. . . Esses pretos antigos sabem muita coisa. . . H muita coisa neste mundo que no se sabe explicar..." Parava, levantava as duas mos, concluindo, e de olhos abertos dizia: "Eu sei, porque j vi."
       Ningum sabia se tinha relao com a batucada: mas em certas manhs, apareciam na esquina da rua estranhas coisas: farofas, velas espetadas de alfinetes, embrulhos grandes de jornal, panelas de barro com vintns, pedaos de fita, frangos mortos ou vivos. . .
        Dentinho de Arroz, se tinha de sair, dava uma grande volta: "No v que eu passo por perto dessas porcarias! Quem pe em cima fica com o mal que era para os outros. . ."
       Maria Maruca ria-se a valer. Seu nariz ficava extremamente vermelho.
       Os garotos da rua vinham-se chegando, com paus nas mos. Apontavam uns para os outros o que iam descobrindo: "Olha ali um pedao de cabelo! Xi, no bole, seu!  feitiaria! Olha s quanto charuto!" Vinham outros: "Que , hein? Tem muamba?" E um dia puxaram o dinheiro com a ponta dos paus, e foram comprar balas na venda...
        Boquinha de Doce considerava aquilo de longe, com imenso respeito. Mas no dia em que viu a galinha branca amarrada por uma perna ao caco de panela, e debatendo-se ali horas seguidas, sem milho, sem gua, em pleno sol, disse para Maria Maruca: "Vai buscar o pobre bichinho!" E colocou-a num canto de sombra, deu-lhe de comer e beber, conversando com ela: "Pobrezinha! Andaram fazendo contigo uma grande judiaria, hein?"
       A galinha estava to cansada, que nem fechava as asas, e completamente derreada, de olhos sonolentos, mergulhava o bico lentamente na panela de gua fresca. Nem parecia engolir. Ficava-lhe uma gota de gua suspensa ali na ponta do bico. Mais para a tarde, levantou-se e ensaiou uns passos mirando as coisas. "J ests mais descansadinha? Vai, vai brincar com as outras..." Era a "galinha dos feiticeiros". Dentinho de Arroz, olhava-a sempre com certa repugnncia. Quando passava por ela, desviava a saia.
       Do outro lado do morro, a batucada continuava.
        Dentinho de Arroz repetia: "Negrada suja." E cantarolava:  
           
       "Batuque na cozinha, 
       sinh num qu,                    
       por causa do batuque,
       queimei meu p..."
       
       A  colcha da ndia,  com  suas  copiosas primaveras, jaz na cadeira de ps arqueados, na imensa cadeira onde umas trs ou quatro crianas poderiam brincar ao mesmo tempo: azul de cu, azul de anil, azul de louas guardadas, de esmaltes de santos, de vidros achados entre as pedras. . . E as curvas folhas amarelas semeadas de grozinhos redondos, e logo as flores cortadas ao meio, com um corao de prolas. . .
       Nos puxadores das gavetas as flores de metal cravam as ptalas na madeira. A luz do dia toca s nos relevos, e a flor aparece. Mas que sucederia se a lua entrasse apenas pelos sulcos? "Esta criana s vezes pe-se com umas perguntas muito, muito esquisitas."
       As madeiras e os mrmores so como a terra e o mar; tm caminhos, tm pedras e plantas por dentro. Tm animais passando e pessoas e santos. Mas as porcelanas e os cristais so como o cu: profundos, lisos, cada vez mais vazios, mesmo quando h um jorro de estrelas na intimidade gloriosa da luz.
       Mas quem havia de dizer que o verde se vestia? O verde era apenas o rosto oculto dos vidros, das guas limosas, da folhagem. E a moa de verde apareceu: "Esta menina tem umas mos para aprender piano. Por que no vai estudar? Muito pequenina? Ah! mas quanto mais cedo, melhor." E o vestido verde da moa mostrava bem que era sonho... As cores de vestir so: o branco, o azul, o cor-de-rosa e o preto. Principalmente o preto. Tambm h o vermelho: mas  s das negrinhas. "S das negrinhas."
       Os objetos deixam-se mover para qualquer lado: alguns deixavam-se mesmo desconjuntar facilmente  sem parafusos, desarmados, postos em pedaos sobre a mesa, falavam calmamente: "Aqui estamos. Faze o que quiseres de ns. . ." Esses, tinha-se vontade de beijar longamente, e fazia-se o possvel para os fazer voltar  antiga forma. E ento eram eles que ouviam: "No te fiz mal nenhum. . . Queria s ver como eras por dentro... s to bonzinho. . . Gosto de ti, sabes?" E sorria-se, e via-se o objeto sorrir tambm, mesmo quando estava com as peas fora do lugar.
       Outros, porm, resistem muito. Resistem tanto que se pede socorro: "Me tira, me tira isto aqui! Me puxa esta tampinha! Me abre, me abre, que eu quero ver!" Todos dizem que no. "Onde  que j se viu desarmar as coisas que esto direi-tinhas, quebrar o que est inteiro s para ver o que h por dentro?" A menina olha para esses duros mistrios, tristemente. E afasta-se com desamor.
       H tambm os animais que consentem, e os que fogem: os gatos permitem que se veja at o lado de dentro de suas orelhas, e se procurem as pulgas no plo fofo de seus flancos. Mas os pombos, to lindos nas suas curvas de flor polpuda, escapam sempre. Apenas escapam com uma tal beleza, uma tal inocncia, que o olhar os acompanha com tristeza mas com saudade.
       Depois, h as criaturas humanas. As criaturas vestidas e penteadas, que acordam, falam, andam, riem-se, choram, trabalham, divertem-se, e nunca se mostram inteiramente, em nenhum desses momentos. Isso  particularmente amargo.
       Os animais e as plantas jazem, simples, sem vesturio, com uma expresso to sincera de si mesmos que sempre se pode saber o que esto querendo ou esto sentindo. E as pessoas, no. Falam, falam, falam, e entre suas palavras e seus olhos h uma incoerncia to grande que logo se sabe que esto mentindo. Elas mesmas no o percebem, muitas vezes. Muitas vezes esto s dizendo uma coisa e pensando outra. Para se ver tudo isso,  preciso ainda no se saber falar direito, e estar-se num profundo silncio, olhando incessantemente esse mundo que se sucede dia a dia, com vizinhos, fornecedores, visitantes, transeuntes fortuitos.
       "Venha dar um abrao na moa!" Naquela moa? No. Naquela, nunca. . . "Um abrao, venha, que a moa est esperando!" Os brincos de pedras cintilam. A boca sorri. Mas por dentro dos olhos h uns inexplicveis raios... " assim. . . s vezes, foge das pessoas! Que se h de fazer? Talvez, crescendo, passe. . ."
       Tudo no mundo  duplo: visvel e invisvel.
       O visvel, de resto, interessa sempre muito menos.
       
       
    6
    
        E VOC tambm vai ficar de orelhas peludas?
         No. Ele,  porque  homem. . .
       Na verdade, os dedos eram peludos, tambm. E o queixo acabava em cavanhaque. A prpria voz era peluda. De vez em quando, afastando os plos, ouvia-se o pigarro: "Gqran, gqran. . ." Mas nada disso impressionava tanto como aquele plo das orelhas, que vinha l de dentro da cabea, l de dentro da vida, num tufo cerrado, como restos de uma estranha vegetao. . .
         Voc tambm vai ter papo como D. Aninha? Seus dentes tambm vo cair como os de D. Berta?
         No, no. S muito tarde! Muito tarde. . . Quando se fica muito velho. . . j para morrer. . .
         E voc tambm vai morrer?
        Olha os pombos! Olha os pombos! Olha o pardalzinho, olha, que bonito!                                                               
         Hein? Voc tambm vai morrer? Diz!  	                       	 Maria Maruca vai passando com uma braada de roupa:
         Arre, que raa de perguntadeira! Ningum vai morrer aqui, no. Aqui, todos vo ficar para semente!                       
         Olha o pardalzinho. . . E olha os pombos de novo... olha os pombos!                                                                      
Fala! Voc tambm vai morrer? 	                                Dentinho de Arroz vem busc-la:                                    
         Est na hora de irmos!
       Concertam-lhe a fita de cabelo, e passam-lhe p-de-arroz. Orelhinha Peluda agora no est l longe. Agora no se vai mais no bondinho de burro: dlem, dlem, dlem. . .
       A porta j est mesmo aberta, esperando-a. E perto do piano, duas moas altas e lindas, paradas num degrau de madeira preta, arregaam seus vestidos brancos, do mesmo mrmore do seu corpo. No h nada to branco como o corpo dessas moas. S, s vezes, alguma nuvem. No, nem as nuvens.
       Sobre o piano, h um pedao de menina dormindo com o rosto pousado no brao, e o brao dobrado sobre um livro. Entre os seus cabelos abre-se uma flor. Que teriam feito do resto do corpo dela? Talvez no fosse bonito perguntar. . .
       Dentro de um armrio de vidro surgem coisas assim: uma pedra azul, transparente, como essas dos anis, mas grande, grande: maior que a mo da criana que a mira acocorada. Parece um navio. Est cheia de luz e de gua. No se sabe se  o sol, no se sabe se  a lua. . . Um sapatinho de vidro dourado, um s. Com bico fino e salto alto. No, nem o seu p cabe ali. Ou  de boneca ou de fada. Um leque todo de ouro e de seda, com prncipes danando embaixo de rvores. . . Oh! os vestidos coloridos e os chapus de bicos! Caixas com pinturas lustrosas de moas muito rosadas, despindo mantos verdes e vermelhos. . . Tantas coisas de prata. . .  E conchas. E bzios. . .
       A mocinha dava uma volta na chave. "Est achando bonito?" e tirava l de dentro o bzio grande, e botava-o no ouvido da menina. "Est ouvindo?  o mar. . . Est-se ouvindo daqui o mar..." E a menina fechava os olhos e sorria. To bom! E via de perto as caixas com figuras luminosas. Passava o dedo devagarinho pela extraordinria pedra azul. . . Abanavam-na com o leque de prncipes. . .
       A mocinha tornava a dar a volta  chave: "Gostou?  bonito?" A porta de vidro fechava-se.
       Iam pisando tapetes macios, afastavam cortinas, e numa sala um passarinho abria sozinho a porta de sua casa, e cantava para anunciar as horas. E em cima de um mvel um negrinho de bronze  do tamanho dela!  punha na boca uma cometa de chifre. Iria tocar? Parecia o aguadeiro: mas estava despido.
        Orelhinha Peluda brincava com os dedinhos dela: "Cad o toucinho que estava aqui?"
       Depois, lavaram-lhe as mos com um sabonete muito cheiroso. "O gato comeu..." E o gato, e o mato, e o fogo tudo ia descendo com a gua da torneira, pela pia branca. E era to bom deixar que as mos fossem lavadas nessa gua to fresca, com tanta espuma cheirosa, e enxugadas numa toalha to macia. . .
       Sentaram-na numa almofada, puseram-lhe um guardanapo pelo peito, e trouxeram para a mesa o prato de ovos, que nadavam em manteiga. Toda a sala se encheu daquele cheiro de manteiga fervente. . . E chamaram: "Eva!" Ento, ela estremeceu. Estremeceu, e perguntou para a mocinha: " a Eva do Ado?" Todos se riram: risos frescos, risos discretos, riso pegajoso de Orelhinha Peluda, com seu pigarro, "Gqra. . .". A mocinha passou-lhe a mo pelo rosto, alegremente. E a Eva chegou  porta, "Olha ali a Eva!" Era gorda, mole, mulata, risonha, e limpava as mos no avental.
       Como ali era um reino encantado, a mocinha disse-lhe: "Feche os olhos!" E ela fechou. Passaram-lhe um vidrinho frio pelo pescoo. E um imenso perfume encheu o quarto, saiu pela varanda, pairou pela rua, partiu pelo mundo. E a menina ia levada dentro dele, como as nuvens. As casas, as pessoas, eram densas, pesadas. Ela, no. Ela voava por cima de tudo. Ia para onde o vento mandava. Nem se movia. Era o prprio ar que a tomava ao colo e a transportava.
       A moa dava-lhe frascos pequeninos cheios desses perfumes inacreditveis. " verdade que h gente de asas?  verdade que h bichos com cara de gente?" "Quem foi que disse isso?" "Eu j vi! Eu j vi um lobisomem. . . eu j vi um saci-perer... Eu j voei..." "Voc j voou? Voc j andou de balo?" "No, eu vo sem balo. . ." "Ah!"
       De dentro das gavetas saam coisas para ela: luvinhas de renda, faixas de franja, leques pequeninos com flores e borboletas...
       Naquela casa mgica, uma noite, dentro de um armrio, comearam a cantar criaturas secretas. Orelhinha Peluda disse-lhe baixinho: "Vai procurar quem est cantando!" Ela estava sentada no tapete: foi andando de joelhos, para espiar por baixo do mvel. No viu nada. Mas no achou muito espantoso. Aquela casa era assim mesmo. Dava-se corda no armrio e ele falava e cantava sozinho.
        noite, Orelhinha Peluda pegou-lhe a mo, e enrolou-lhe um barbante em torno do dedo. Ela compreendeu logo que o barbante ia virar qualquer coisa surpreendente. E virou mesmo. Dias depois, mandaram-lhe numa caixinha, sobre um tapetezinho de algodo azul, um anelzinho de ouro tranado, com uma correntinha pendente, e um coraozinho na ponta. No meio do corao havia uma pedrinha encarnada que nem uma gotinha de sangue.
       A menina resolveu socar milho para os pintos. Um pintinho beliscou a pedrinha e levou-a. Abriram o papo do bichinho, para tir-la. E ele tremia  pri, pri, pri, pri ... e fechava os olhinhos pretos. Como as plpebras eram muito finas, ficavam azuladas, sobre as miangas dos olhos. E o coraozinho dele batia pum, pum, pum. . .
       
       "Oh! logo sobre a mesa! No sei o que me parece!" Levaram-na para cima da cama. Custaram a desatar o barbante! E, quando tiraram a tampa,  a menina viu aquela criatura de loua, quase do seu tamanho, que sorria com suas redondas bochechas, mostrando midos dentes de vidro. Ah! Orelhinha Peluda, o mgico!
       De um chapu de plumas cor-de-rosa, saia-lhe o cabelo em cachos dourados, e pousava nas rendas engomadas do vestido, salpicado de seda. Tinha as unhas desenhadas por um trao vermelho, e em cada dedo uma covinha. Os ps estavam em sapatinhos de cetim bicudo, que seria bom que tambm se vendessem para as meninas.
       Desprenderam os barbantes do fundo da caixa. E a menina quis v-la pelas costas. Ento, descobriu, tristemente, que atrs o seu cabelo j no era mais em cachos sedosos, mas apenas de um plo spero e escorrido, como um pedao de l. As rendas do vestido terminavam na costura do ombro. Os entremeios da saia acabavam na costura dos lados. . . Ah!. . . Por que uma noite C se sentou pertinho dela, e lhe disse com to bom modo: "Dorme, que eu fico. . ." "Toda a noite?" "Toda a noite." E no dia seguinte, quando abriu os olhos, responderam-lhe: "Ela teve de ir  casa. . . Mas volta. . ." Ah! E Maria Maruca, rindo-se com os seus largos dentes: "Fugiu, o maroto. . . O maroto do Jasminzinho cheiroso ..." A. mesma sombra, descendo. O mesmo peso.  um pssaro, no ?  um pssaro que vem e bebe o corao da gente?
       
       Mas um dia, na sua velha mquina, cansada e rouquenha, Boquinha de Doce comeou, por brincadeira, um enxovalzinho. E houve um outro vestido, branco, pobre, correto. No era de seda, no tinha aqueles laos nem aqueles fios dourados: apenas uma renda estreita, e umas preguinhas. Mas era honestamente acabado. A renda fazia uma volta completa at s costas, e at, como os vestidos de verdade, fechava atrs, com casas e botes. Nesse dia, a criana teve uma grande felicidade. E olhou para Boquinha de Doce com uns olhos ternos. Mas ningum viu.
       E vestiu-se a grande boneca. E andava-se com ela, e dizia-se: "Mas  tal qual uma criana. Abre e fecha os olhos, fala - s lhe falta andar." Qual  a diferena que h entre as bonecas to perfeitas e as crianas? Andou alguns dias assim, procurando o sentido da diferena. O sentido devia estar por dentro, no mundo invisvel. O sentido devia andar por detrs, naquele outro lado das coisas que  tambm o outro lado das pessoas  o lado de que se fica triste, sem que os outros vejam, e onde se pensam coisas que os outros no sabem.
       Na verdade, a menina s lhe empurrou um olho. Mas caram os dois. Depois soube que foi por causa do arame que os prendia. Caram os dois l para dentro e deixaram dois buracos vazios. Por esses buracos, ela espiou para ver se avistava a alma da boneca. Mas no se avistava. E para puxarem os olhos para o lugar mexeram em tanta estopa, em tanto elstico, em tanto arame que a menina passou a gostar mais dos simples bonecos de celulide, que se vendem nuzinhos, que se vem logo inteiros e bonitos, dos ps  cabea, e alguns mesmo podem sentar-se e levantar os braos, e tm o sorriso dos meninos bonitos que as mes mostram do alto das janelas, quando ela passa.
       Mas as bonecas no lhe interessam extremamente, e os meninos absolutamente nada. Tem mesmo um certo medo deles. So assim moles, andam to embrulhados em coisas difceis! E de repente comeam num berreiro interminvel.
       No, ela gosta mais do relgio.
       O relgio vive ali no quarto, ao p dela. Adormece-a com o seu tic-tac. Tem uma forma de casa, mas o mostrador parece uma cara de bicho com dois olhos redondos nos buracos de dar corda, sobre o 8 e sobre o 4. A pndula  dourada, e sobe e desce, com um parafusinho que h por baixo. Bate o sol, e chispa ouro pela casa.
       Dentro do relgio esto duas coisas preciosas: a chave com que o fazem andar, e o nvel com que lhe regulam a posio.
        Boquinha de Doce tambm fala com eles: "Ento, ests cansadinho? No andas? Tens falta de corda? Ah! meu filho, espera um bocadinho, tem pacincia, que agora estou ocupada..."
        "T-t-t-t, t-t-t-t, t-t-t-t, trrrr." A corda vai sendo enrolada lentamente. Depois, rodam-se os ponteiros, move-se a pndula, e as horas comeam a cantar: 1, 2, 3, 4 ... Acerta-se o nvel, fecha-se a portinhola, e est pronto. "Aqui no se toca!" No, ali no se tocava. Mas uma vez consentiram que sua mo movesse os ponteiros, suavemente. E a menina sentiu a imensa frescura que havia dentro daquela pequena casa, sentiu a sombra macia, sentiu o doce segredo daquela harmoniosa obedincia do mecanismo escondido. Gostaria de parecer-se com aquilo.
       E ento, se parasse, viria Boquinha de Doce com a chave e o sorriso, e a palavra amorosa: "Que foi? No andas? Cansaste? Tem pacincia..." E de novo  acordariam  as horas. E o sol chisparia ouro na pndula. E o tempo recomearia.
       
         Acho-a to amarelinha!  As mos da tia Chica andavam entre os craveiros.
       "Estar suada?"
         Isso, para mim, so bichas. Mas no seja alguma fraqueza. . .
       Vestiram-lhe camisetas de l: no se fosse resfriar. Maria Maruca puxava-lhe as mangas desabridamente, e esfregava-lhe as costas at ficarem vermelhas: "Cautela e caldo de galinha no fazem mal a ningum."
         Eu comeava a dar-lhe leo de fgado de bacalhau. Aquilo toma-se to bem! H crianas que at o tomam com po!
       Levantam-lhe os cachos. Miram-lhe com desolao as orelhas, que no se colorem.
         Talvez fosse bom lev-la ao mdico! Depois, aqui-del-rei, e adeus, minhas encomendas! O seguro morreu de velho.
       "Ora! os mdicos l sabem nada! Tanto mdico, tanto mdico..."
        Dentinho de Arroz perguntava-lhe: "Que diferena h entre o mdico e a gua?" E ela se lembrava do afilhado do doutor: "Por que  que o profeta Jeremias andava sempre chorando?"
       Reforaram os mingaus e as papinhas de leite. Ela preferia andar l fora com os bichos e as plantas. Mas era difcil. Consentiram em suavizar-lhe as refeies: enchiam-lhe a boca e deixavam-na ir dar uma voltinha: at o tanque, at a grade, at o pote de tinhoro. . . Entre uma garfada e outra, davam-lhe a chupar um gomo de laranja. Ela ia facilmente, mas voltava a custo: porque sempre h uma borboleta que pousa-no-pousa na beira de um ramo, e alguma formiga querendo atravessar um fio de gua, ou algum caracol viajando com sua bagagem s costas e sondando o caminho com sua estranha testa. . .
         Anda, menina!
       Tantas vezes a chamavam que no havia remdio seno voltar. Vinha entretida com os movimentos de seus prprios ps. Os sapatos tinham cara de gente e olhavam para ela, com suas bochechas redondas.  Quando a punham na cama, rezavam-na:
       
       "Menina, si tens quebranto,
       aqui to tiro,
       em nome do Padre, do Filho e do Esprito Santo."
       
       Uns disseram que seria bom usar figuinhas de azeviche. Outros opinaram que as de coral eram melhores. Tia Tota preferia um remdio de frasquinho azul, com uma tampa de vidro parecida com a cabea do caracol, e a particularidade de deixar cair uma gota de cada vez, quando colocada em certa posio. Depois de quebrado, o vidro fornecia cacos muito lindos, por onde se via o dia de um modo diferente.
       A cada instante lhe examinavam as solas dos sapatos: no acontecesse andar com os ps molhados. Mas tambm com o sol tinham cuidados especiais: podia morrer de insolao. . . Se comeava a escurecer, traziam-na depressa para casa: porque h o sereno, que infiltra doenas mansamente, pela cabea. Se faz luar grande, fecha-se a janela, porque essa fria luz estraga a vida. "Tudo faz bem, mas s at certo ponto."
       Andam vidros novos por cima dos mveis.
       Debaixo das rvores que se cobrem de flores, que sacodem sobre ela um orvalho mido de flores, a menina se entretm sozinha, esperando que o tempo passe. "Quando fores grande...  se chegares at l..." Os outros, que j so grandes, que fazem eles? Quis ensaiar essa vida em expectativa: mas Maria Maruca ouviu seus monlogos, em que imitava todos os conhecidos: "O diabo aparece, quando se fala sozinha!" O Diabo, esse vago personagem de que ouvia falar s vezes.
       
       
    7
    
       O CHO florido tinha um perfume delicioso. Todo o seu corpo parecia absorv-lo pela pele, entranh-lo profundamente em si. No era apenas o cheiro habitual da terra, confuso,   spero,   interminvel. Nem o cheiro das horas de rega e dos dias de chuva, ardente e exacerbado. Era tudo isso, mas ao longe, mas debaixo de uma alegria, de uma frescura, de um modo flutuante e envolvente, como a atmosfera dos sonhos.
       Ps-se a fazer "caminhas-de-gato" nos dedos dos ps. Dentinho de Arroz no chegava. Maria Maruca no se ocupava dela. Boquinha de Doce tinha tanta mas tanta coisa que fazer, e chegava to triste: "Que dor no corao, ver tudo aquilo em ossinhos. . . em ossinhos. . . No meio da terra, ainda apareceram os botes dos punhos. Eram de ouro, e o coveiro veio com aquilo nas mos. . . Ah!" E a menina viu seus olhos dilatando-se espelhantes, partindo seus cristais pelo rosto abaixo. Todos se perturbaram com a sua chegada. Mas, antes de aparecer, ela j tinha ouvido. . . Tranqilizaram-se: "No entende nada. . . Isto ainda no entende nada!"  e pousavam as mos no seu cabelo.
       Ela, porm, ficava triste, porque no o sabia dizer: mas entendia tudo, tudo.
       
       Um dia, eram os gatos pretos: chegavam tranqilamente, sem estranheza, como visitas antigas. Subiam as escadas, miravam a cozinha, moviam a cabea com ares de quem recorda: "Por onde andar Fulana? Ser esta?" Pareciam convencer-se de que haviam acertado: instalavam-se onde entendiam, lambiam-se com a lngua rsea e mole, e fina, e longa, semicerravam os olhos, mergulhavam em pensamentos, em sonhos, em mundos ou em nada.
       Mais tarde, despontavam finos miados, tmidos e inquietos surgiam gatinhos novos amontoados pelos cantos. Depois, j arranhavam com as unhas os ps das cadeiras, j corriam s cambalhotas, uns com os outros, j se enfeitavam, pela manh, sentados no alto do muro  e iam desaparecendo, e vinham outros gatos  e eram os malhados, e eram os amarelos  e vinham novos gatinhos. . . e assim por diante.
       "Sempre fazem falta: no h como os gatos para se acertar o relgio. Ao meio-dia em ponto, os olhos dos gatos acabam-se. Ento voc nunca reparou? Pois olhe,  uma coisa que eu sei desde pequena. Os olhos dos gatos so como a lua: crescem e diminuem."
       A mesma coisa com os pssaros, a mesma coisa com as plantas. . . Folhas, flores, frutas, chegavam, estavam, partiam, voltavam. . .
       "Para saber as horas certas, o melhor  olhar para o sol: conforme o lugar por onde ele passa. Est vendo aquela sombra no muro? So nove horas."
       O mesmo com os vestidos, com os sapatos, com as pessoas. . .   Com as pessoas? Sim, com as pessoas.
       Um dia, os meninos botavam calas compridas. "Est ficando um homenzinho, hein? At j tem buo!"                       Dunduca ficou de repente to grande que j diziam:  "Oxal no seja tambm como os outros!  crescem assim, no comem, no se tratam, s querem gulodices, o corpo no agenta. . .  e l se vo eles. . ." L SE VO ELES. . .
       C alisava a fazenda: "Aqui j no h mais nada que  desmanchar: no h mais prega que descer. . . O remdio  ... mesmo fazer outro. . ." E sorria com os seus largos lbios... . Em cima da mesa desenrolavam-se os figurinos coloridos: as moas de cintura to fina, com o peito to arredondado, com , as golas de renda de tia Xota, e chapus de plumas frisadas vertendo-se pela aba. . .                                                               
       Buliam-lhe nos cachos ou na covinha do queixo: "Cad ela, xente, cad o queixinho de rabeca?"
       "Quando veio para c  lembras-te?  os olhinhos ficavam-lhe rente  mesa. . . Aqui pela beirinha. . . Estava sempre com medo de espet-los com a tesoura...Estes olhinhos de gato.. ."
       E desciam-na da cadeira: "Pe-te de p, pe-te de p. Vs? O que isto cresceu! Como j est ficando grande!"          
       Havia um luminoso pasmo. O   silncio   dizia:   "Parece  mentira que no tenha morrido! COMO OS OUTROS." Depois, o silncio acabava:   "Muito   trabalho   me   tem   dado! Sempre pensando no que lhe hei de dar de comer, sempre cuidando de a agasalhar. . ." parava um pouco. E mais baixo: "Sempre rezando por ela. . ."
       Quem vinha, parava para v-la, levantava-lhe o queixo para analis-la melhor. Depois de muitas coisas, sempre concluam: "Tem mesmo uns olhinhos de gato."
       "... No h nada como os olhos de gato, para acertar os relgios. . .  So como a lua: crescem e diminuem. Nunca ... tinha reparado, no?"
       E todos queriam dar-lhe uma coisa. Mas quase todos eram to pobres. . .  A pobreza tem presentes to singulares:  um ovo, uma golinha de croch, um pezinho de tinhoro, uma tigelinha de doce de abbora. As negrinhas traziam rapadura e mariola de capote. Traziam pedaos de cana. E tocavam msica para diverti-la, com um pedao de papel fino num pente. . .
       O mata-mosquitos oferecia-lhe com encanto tiras interminveis do seu papel de calafetao, para ela fazer bonecos: "Quando voltar aqui, quero encontrar: uma menina, uma casa, um cachorrinho, e o balo do Santos Dumont!"
       E ela fazia os seus bonecos, gravemente, na soleira da porta. Quando os gatos queriam passar, pulavam por cima dela. Maria Maruca insistia: "Levanta-te. Vai para outro lugar! Olha que a gente no cresce deixando algum pular por cima de si, quando est deitado..."
       A menina riscava o papel, gravemente. Apareciam flores e rostos humanos. As pessoas olhavam para o papel, olhavam para ela, e ficavam pensativas. "Ora essa!"
       Embora Maria Maruca lhe assegurasse que o Diabo aparecia, embrulhou-se em cortinados, enfeitou a cabea com penas de espanador, e representou grandes dramas, diante do espelho. Santo Antnio olhava e sorria.
       E para separar-se definitivamente do mundo de todos, construiu um muro de livros, e declarou: "Eu agora moro ali dentro."
       "J sabe. . . j sabe o A e o B. J sabe o W e o pissilone..."
       ". . . mas to amarelinha..."
       "As crianas muito espertas, Deus vem buscar: leva para seus anjinhos..."
       
       Maria Maruca virava as rabanadas na frigideira.
       O carteiro entregava postais coloridos, com flores estufadas. Chegavam folhinhas novas, com vapores e retratos de reis.
       As vizinhas diziam umas para as outras "Boas-festas!" E os criados espanavam as salas de visitas.
        Dentinho de Arroz como ficava contente! O sinalzinho do seu lbio movia-se rapidamente, com o sorriso.
       A colherzinha luzia entre suas mos escuras: o acar e a canela misturavam-se docemente.
       O dia inteiro cuidava-se de doces, e ouvia-se o estalar das nozes, das amndoas, das avels.
       Depois, quando arrumavam a mesa, Boquinha de Doce entristecia. "Os outros, coitadinhos, se estivessem ali. . ." E a menina escutava, muito longe: "S em ossinhos... tudo em ossinhos. . . No d uma dor no corao?" Vinha um suspiro, que tinha viajado nos olhos, por aqueles lugares: "L se foi tudo!"
       E um aroma clido de cravo e canela subia dos pratos e das compoteiras. Maria Maruca dissipava as nuvens! "No se pensa nessas coisas! A gente tambm h de ir!" E bailava:
       
       " minha caninha verde,
       anda  roda do vapor,
       ainda est para nascer
       quem h de ser o meu amor!"
       
       E recordava a seu modo: "Hoje, l na minha terra, minha madrinha me dava dez ris para comprar uma cavaca."
       Chegavam pessoas. Servia-se um vinho louro em copinhos iguais a flores.
       As negrinhas da rua comeavam a passar, sorridentes, dando "Boa-tarde" e "Boas-festas!" Tinham vestidos novos, azuis e cor-de-rosa, seus olhos resplandeciam e as pedrinhas-d'gua de suas travessas, tambm.
       O afilhado do doutor mastigava figos e perguntava: "Por que  que o profeta Jeremias andava sempre chorando?" E a gargalhada de D. Sinh saa de dentro da rede como um pssaro batendo as asas.
        "Currupaco-papaco"  o louro saboreava o acar da rabanada. Pelas pastinhas molhadas, via-se que os garotos da rua tinham tomado banho. E sentavam-se nas beiras dos muros, com os ps apertados nos sapates.
       "O doce de laranja tem o seu preceito." "Cad ela, xente?" O pano novo do vestido cheirava a farinha de trigo.
       "Coisinha! Tu t de vestido novo! pronde que tu vai?"
       O cartaz dizia: "ENTRADA FRANCA". Havia uma tal claridade que os olhos se assustavam. E na claridade boiavam panos azuis e papis prateados. Em fios de arame pairavam estrelas, luas e sis. Anjinhos cor-de-rosa, anjinhos muito redondos voavam com fitas escritas   na   mo.   Dentinho de Arroz soletrava: "Gl-ria-a-Deus. . ." Da estrela maior de todas caa uma faixa de prata cada vez mais larga, que vinha dar num casebre coberto de palha. A estavam a santa e o santo, com a cabea virada para o ombro, o menino nuzinho e, de um lado e de outro, o burro e o boi com suas largas ventas soprando. . .
       Naquela confuso de dia e noite, com estrelas e sol ao mesmo tempo, as galinhas de crista vermelha andavam por ali com os pintinhos. Havia homens a cavalo, passando, e trens de ferro correndo.
       Num regato com gua de verdade, nadavam patos e barquinhos, quase do mesmo tamanho: mas achava-se muito natural. As lavadeiras lavavam ajoelhadas, os peixes boiavam perto delas, e, ao longe, numa curva, estava uma rvore com ninhos, ovos, passarinhos, levantava-se uma ponte, com a locomotiva, e as asas dos moinhos esperavam pelo vento.
       Vinha muita gente de longe, com carneirinhos pelo cho e tambm aos ombros. Todos tinham roupas muito brilhantes: encarnadas, azuis, verdes, e com barras douradas. No entanto, pareciam to velhinhos e to pobrezinhos, e to tristes!
       Ainda de mais longe, vinham os camelos dos trs reis, com suas coroas, seus olhos levantados para o cu, seus mantos salpicados de flores, e suas caixas de presentes nas mos. . .
       Os meninos sardentos, com dentua amarela, gaguejavam coisas: "Xi. . . o carneiro no quer andar..." "Aquilo no  rio. . . Aquilo  vidro..." E queriam meter o dedo, para verificar.
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       ............................................................................................
       Mas quando o procuraram tinha desaparecido. Dizem que subiu para o cu.
       A msica ao longe esgarava-se. "Eu acho que vo passar por aqui."
       E a menina indagava: "Que , hein?"
        Dentinho de Arroz vinha para perto dela. Seu sinalzinho tremia no sorriso: "So as pastorinhas:  escuta s!"
       E repetia, ali perto, as palavras que a msica levava, ao longe:
       
       "Oh de casa,  nobre  gente, 
       escutai, e ouvireis,
       
       que das bandas do Oriente 
       j chegaram os trs Reis!"
       
       Parava um pouco, ensaiava um passo de dana e mudava de ritmo:
       
       "Se eu soubesse 
       que havia funo,
        trazia a mulata do meu corao!"
       
       O coro ao longe continuava, ora mais perto, ora mais longe. Sentia-se, pela voz, o caminhar das pessoas:
       
       "Se eu soubesse
       que havia funo..."
       
       
    8
       
       DEPOIS de a vestirem e enfeitarem, disseram: "Benza-te Deus!" E Maria Maruca ainda acrescentou, enxugando as mos no avental: "Quando olharem para as tuas pernas, faz uma figa, por causa do quebranto!" A menina abaixou a cabea para ver as pernas. E saiu fazendo figas com as duas mos.
       As figuras de mrmore continuavam arregaando o vestido junto ao piano. Mas o piano estava aberto, e de dentro dele vinha um cheiro muito forte de madeira, verniz, metal.
       A mocinha tomou-a nos braos: "Oh! mas est ficando muito pesada! No pode mais andar de colo!" e levou-a pela mo para mostr-la a todas as pessoas.
       Ouviam-se as vozes dos meninos: "Puxa! Puxa mais! Agora solta! Puxa de novo!" E, pela janela aberta viu-se passar um deles, caminhando com cuidado por cima do muro, com barbantes e arames na mo.
       As pessoas falavam umas com as outras, com vozes fanhosas. E o pigarrinho de Orelhinha Peluda tropeava no meio delas! "O gr. . ."
       A mocinha levou-a de novo, encostada a si  seus ps perdiam a memria, pisando aqueles tapetes, sua vida flutuava como uma penugem dentro daquela casa.
       A mocinha tomou-lhe a mo gorda, mole, passiva, e comeou a bater com os seus dedinhos nas teclas:
       
       "Vem c, Bitu,
       Vem c, Bitu,
       Vem c, vem c, vem c..."
       
       Mas o moo tirou-a dali, levantou-a nos ares, sentou-a diante de uma mquina, meteu-se embaixo de um pano preto, e disse: "Olhe aqui para a ponta do meu dedo: vai sair um passarinho daqui!" Podia ser que sasse, mesmo: naquela casa, era tudo encantado! E ela deixava-se estar, num sorriso apreensivo... E os meninos gritavam por cima do muro: "Solta! Agora pode puxar! Puxa mais! Est bem!"
       Mas ao escurecer  que tudo se tornou bonito, porque os meninos armaram no jardim uma casa de papel, que tinha nos cantos da cobertura bolas douradas, vermelhas e azuis, lindas e lustrosas como bolhas de sabo monumentais.
       Em longos fios estendidos em vrias direes, acenderam-se lanternas coloridas. A luz artificial pousava nas rvores como sobre pessoas dormindo. Todas as crianas da rua encostavam o rosto nas grades do porto, e seus olhos encantados luziam, percorrendo o jardim iluminado. A rua parecia ter desaparecido. Pareciam ter desaparecido todas as outras casas, na escurido que se acumulara l fora. O mundo acabava ali no porto. E os meninos subiam e desciam a escada, caminhavam pelas beiras dos muros, e ningum dizia para que era aquela barraca de papel, toda iluminada, e onde podiam caber umas duas ou trs crianas. O vento fazia-a palpitar, como um balo. Os meninos falavam muito, e muito depressa. As crianas do porto falavam tambm, perguntando coisas. A mocinha desaparecera. E a menina pensava.
       E a menina tinha de ir-se embora. Como era ali perto, o menino foi lev-la at em casa.
       Primeiro, era muito escuro. Depois, comearam a verse,  distncia, as casas iluminadas pelos frouxos lampies. Em algumas, havia pessoas  janela. Mais adiante, encontravam-se tambm pessoas embaixo das rvores.  Ao  dobrar a esquina, viram ainda pretinhas  pulando  corda,   e  garotos fanhosos, que gritavam:
       
       "Que tempo ser? 
       NI NI, C C!
       Laranja da China? 
       Tabaco em p!"
       
       E as duas crianas andavam. Ela, de vez em quando, tinha medo. Podia sair algum de uma esquina, ou da sombra de uma rvore. Mas ele dizia: "No sai, no." E fazia uma voz valente.
       Ela perguntava:  "E se aparecesse um ladro?"
       Ele respondia rindo: "No vem, no. Se viesse... a gente corria e gritava."
       "E se for uma alma do outro mundo?" Ele no respondeu logo. Ela insistiu: "Hein?" Sentiu um frio nas dobras das pernas, e teve vontade de correr. Ele falou distrado: "No vem, no..." A menina olhou para ele, e sentiu que ele pensava na festa, na barraquinha iluminada, nas lanternas acesas.
       Separaram-se no porto. Ele desceu a correr, ela subiu a correr. Todos se admiraram de que chegasse to sozinha. Seus olhos estavam cheios de luzes. Seus olhos viam a mquina dos retratos com o pano preto: "Plic! Est pronto..." Viam os meninos subindo e descendo os muros e as escadas. Os olhos das outras crianas luzindo junto s grades. Tudo tinha sido maravilhoso. E, no entanto, parece que ela no tinha gostado.
       
       D. Teresa morava l "onde o Judas perdeu as botas". Pois, em tempos passados, uma menina sonhou longamente com esse lugar. "Sabe, coisinha, estive em Botafogo! Sabe, coisinha, estive em Niteri!" Ela murmurou simplesmente: "Eu tambm vou passear muito longe daqui. Vou ao lugar mais longe do mundo. Vou l onde o Judas perdeu as botas." E as outras crianas ficaram pasmas, olhando para ela. Nenhuma tinha nem ouvido falar nesse lugar.
       E foi mesmo. E com ela ia a lua, andando, andando. Sempre que levantava os olhos, encontrava-a perto. O cho, a casa, os muros, tudo ficava cada vez mais branco. Os vidros da igreja chispavam prata. Havia caramanches, de onde se entornava um perfume branco de leite florido. Diziam: "Oh! os jasmins. . ." Diziam: "Oh! a baunilha..." Respirando-se muito, os olhos fechavam-se mansamente.
       At as crianas pretas estavam pinceladas de branco, e rolavam pelas ruas, em volta das rvores. Homens bbados reclinavam-se nas caladas. Pousavam brancuras nos chapus amassados, e nas pesadas mos: "Eu s o emperad; vosse-mec  a emperatriz?" Caam brancuras na voz pegajosa.
       As moas de pedra arregaavam seus mantos, rente aos telhados. Como eram frios e alvos os seus joelhos, meu Deus! E os grandes lees de loua, embebidos na sua juba, resplandeciam branqussimos, por cima dos portes.
       Ouvia-se plec, plec, plec. . . "Deve ser o tlburi do conselheiro!" As patas prendiam-se ao branco, soltavam-se do branco. A campainha oscilava como um lrio de vidro.
       Encontraram a chcara. Oh! a lua no cho molhado. . . Por que os homens andavam ainda com regadores, se o luar j tinha regado tudo? Cho empapado de brancura. Cho de hortalias brancas. As couves alargavam-se repletas de claridade. As rosas pareciam felizes, de to abertas, e pareciam pedir ao cu que as acabasse de desfolhar.
       E os grilos revestiam o cho de uma sedosa msica, e uns rastros de gua circulavam sem rudo, como xales brancos, exalando um cheiro confuso de terra molhada, de luar, de folhas verdes e de flores.
       Andava-se, andava-se, e andava a lua. E a chcara continuava, com seus muitos muros e suas muitas grades. Os braos em mangas de camisa carregavam regadores que escorriam pingos brancos. Deviam pesar bastante, porque o corpo ia vergando para o lado.
       E os lampies batiam em cheio no rosto dos velhos,  janela. E tudo ficava amarelo. Mas para longe continuava branco.
       E um menino rodava um arco, e ouvia-se o aro bater nas paredes. . .
       E das salas abertas saam vozes de gente e de piano.
       Nos pores, as negrinhas passavam roupa a ferro, sozinhas, com a roupa ali amontoada. . .
       "Onde foi que o Judas perdeu as botas?"
       "Voc j est ficando muito grande para andar de colo.. ."
       Era um tempo muito passado, aquele. Sua capa branca tinha um capuz cado para trs. E seus cabelos passavam perto das trepadeiras, e sua mo tocava grandes flores, parecidas com a lua. E o perfume ia andando sobre o seu rosto. . .
       No fundo de um jardim cheiroso, numa janela de cortinas brancas, distantes um do outro, sorria um rosto de moa para um rosto de homem. A areia do jardim brilhava com a lua. No havia mais ningum. Tinham-se acabado as crianas, os bbados, os tlburis, as janelas. No havia mais o resto da rua. E a menina secretamente desejou ser grande, ter aquela blusa de babados, e sorrir assim, sob cortinas brancas, numa noite de lua, num silncio com flores. . .
       
       Um dia, os mascarados chegavam. "Voc me conhece?" E as caras de papelo rodavam para um lado e para outro,
       As crianas j saam da cama sacudindo pandeiros e soprando cometas estridentes. Punham cadeirinhas do lado de fora, sentavam-se tambm na soleira da porta, tagarelavam com a lngua muito embrulhada, e a boca cheia de cuspo. De vez em quando, um pandeiro rolava pela rua abaixo.
       Risadas, vozes fanhosas, sacudir de guizos: vinha gente enrolada em lenis, segurando a mscara de pano com uma das mos, e fechando com a outra a vestimenta sobre as pernas. "Voc me conhece? Como vai? Adeusinho!" Sacudiam o leque entreaberto, e passavam para a outra rua, com aquela misteriosa forma simplificada. Os garotos meio apreensivos, contavam: "Um fantasma! Dois fantasmas!" Mas vinham muitos. Era uma famlia inteira de fantasmas. E o vento inchava-lhes os panos brancos da roupa, e pareciam capazes de subir, como bales.
       Desciam negros de perna cambada, vestidos de mulher, sapatos de salto alto, e cara prateada, abanando-se. Os garotos apostavam:  " home! Num !  home! Num  no. . ."
       As meninas debruavam-se para fora das janelas, e balanavam na rua sacos de talagara, com confete vermelho ou verde.
       "O paiao que ?  ladro de mui!"
       O sol batia nas rodas dos pandeiros. Punha-se a mo por cima dos olhos, para se poder enxergar. Tilintavam guizos. Por onde? Para l das casas, dos telhados, das ruas, um bando de vozes cantava:   " abre alas,  que eu. . .   quero passar!"
       O menino saa da cadeira, gritando, com a cometa na mo:
        Olha o clove! Olha o clove!
       E os outros garotos respondiam: "Dois! Trs!. . . inda vem mais!"
       Um depois do outro, eles iam aparecendo. Na cara mole de pano preto, balanava-se o narigo encarnado. A boca parecia cheia de sangue. Os olhos eram tristes como os dos animais doentes. Saam dois tufos triangulares, imitando o cabelo. Pareciam duas chamas. Eram mesmo cor de fogo. Brilhavam as palhetas do bolero bordado. No meio das costas, estava o sol com seus raios. Depois vinham as estrelas, as luas, as lantejoulas dispersas  toa. Brilhava a franja de prata nas curvas do veludo. Um depois do outro, os cloves iam subindo a rua.
       As meninas puxavam para cima os sacos de talagara, e soltavam punhados de confete que o vento desbaratava em cores vivas.
       Os cloves iam subindo a rua. As calas coloridas dilatavam-se com o movimento. O andar era fatigado, como se estivessem vindo de muito longe, e ainda tivessem que ir para mais longe, dentro daquelas roupas, debaixo daquele sol.
       Mas do alto do morro brotava um grupo muito maior. Os garotos gritavam e pulavam. At os cachorros e os gatos vinham ver. Gente de cara pintada, com guarda-chuvas quebrados, agitando ventarolas de papelo, arrastavam calas grandes demais, que a cada instante arregaavam, e abanavam, com a dana, os molambos dos palets vestidos pelo avesso. Sacudiam chocalhos, tamborilavam em latas, cantavam com voz esborrachada, e danavam de ps espalhados. Arrastavam consigo um companheiro metido numa roupa de urso. As negrinhas achavam graa, e jogavam dinheiro no pires que eles estendiam. Dentinho de Arroz, dizia: "Que sujeira! Essa negrada no se d ao respeito!" E o sinalzinho do seu lbio arregaado subia  numa expresso de repugnncia e desprezo.
        Boquinha de Doce comentava, mirando de longe: "Tudo loucura! Tudo loucura! Andam nessa folia. . .   e h gente sofrendo! Quantos esto doentes, por a, a esta hora, em cima das camas!. . . Quantos, quantos esto morrendo a esta hora! E eles cantam!"
       Os ces latiam, enlouquecidos. As negrinhas gritavam: "Olha a cara dele!" E a outra voz continuava: "Cansam-se desta maneira,  toa,  toa! Amanh estaro todos tsicos. . . Amanh morrero tambm..."
       Depois, havia uma serenidade. "Os mascarados, a esta hora, vo todos dormir. . ." D. Sinh balanava-se na sua rede. Os sabis piavam, ntidos e tristes. A moa de trancas fechava a janela. O afilhado do doutor desaparecia. Desapareciam as cadeirinhas com as crianas. As cometas e os pandeiros. Todas as mscaras se escondiam. Do outro lado do filo, danava, ciciando, um mosquito.
       Depois, reapareciam as portas, as cadeirinhas, as vozes, os guizos, lentamente. Um guincho de cometa estremecia. "Voc me conhece?" E havia outra vez a rua, com os mascarados andando, sem saberem que tinha havido nenhuma interrupo no tempo. Os pandeiros rolavam pela rua. Os garotos esmurravam-se. Alguns choravam com muitas lgrimas, fazendo escorrer pela cara o bigodinho desenhado a carvo.
       Vagarosamente descia o dr. Burro, com uma cabea enorme, a casaca abanando, um livro debaixo do brao. No falava nada. Caminhava, apenas, com um passo refletido, e de vez em quando abria o livro para estudar um bocado mais.
       E os ndios giravam os arcos, srios, quase ferozes. Dos ps  cabea, oscilavam todos, nas penas que balanavam mares coloridos.
       Os domins das malas no sairiam mais, com seus guizos e suas franjas? No havia ningum para os vestir, nunca mais. Por onde teriam eles andado, uma vez. . . uma vez?
       Mas passava a noite, de vestido azul, bordado de estrelas. O seu diadema cintilava intensamente, com suas luas de espelho.
       Descia, porm, um vulto de preto, com uma foice s costas e uma campainha na mo. "Delem, delem, delem, delem . . .!" O manto abria-se e aparecia uma caveira muito branca. De dentro dos seus compridos dentes cerrados, uma voz aguda e trmula gritava para o mundo inteiro: "OLHA A MORTE!" As negrinhas encolhiam-se: "Cruzes!" Sentia-se um arrepio.
       
       
    9
       
       A RUA estava to cheia como se todas as pessoas do mundo houvessem corrido por ali. Quase todos parados: uns de p, outros em cadeiras e bancos. As criancinhas de colo dormiam, moles, no ombro das mulheres e dos homens. Quando eles se moviam, os bracinhos delas se balanavam, tristemente desengonados. Mas seus olhinhos continuavam sem se abrir. A borda das plpebras tinha um brilho duro e liso de ncar.
       Era noite e as luzes da rua estavam acesas. E as rvores, recebendo essa claridade por baixo das folhas, amarelavam-se, envelheciam: seus galhos ficavam duros e frios como ossos. Mas na verdade fazia muito calor; e a multido palpitava em ventarolas e leques, em chapus de palha e em bons.
       As velhas gordas cochilavam com as mos cruzadas no regao. As moas e os rapazes sorriam com dentes de ouro, e davam gritinhos sem expresso. Apertavam-se bisnagas de gua perfumada. Brilhava confete dourado no cabelo das moas. Os garotos espertos amontoavam no cho, pelas esquinas, o confete cado junto com pontas de cigarro e papis velhos. "A! Hein? Toda na ponta!" "Pois ento! na ponta do Bedeng!" As mulatinhas mostravam os dentes brancos e oblquos, e seus olhos, virando-se para um lado e para outro pareciam velas acesas.
       Cada vez havia mais gente. Cheirava a muitos cheiros: a roupa, a suor, a p-de-arroz, a brilhantina, a cerveja.. .
       No meio dessa multido, uma negra velha, com movimentos de pato, segurava seu tabuleiro de pastis, e com um garfo preto na mo fazia troco, murmurando coisas numa inflexo conformista, erguendo as sobrancelhas com todo o poder da sua pacincia.
       E conseguia-se andar no meio do povo. E havia velhos rindo-se s gargalhadas, e crianas chorando com lgrimas longas. Porque as crianas pediam s mes coisas impossveis: doces, confete, cometas. . .
       E os domins passavam, cansados, com a cara de fora, falando na sua voz natural. Os homens fantasiados levantavam para a cabea as enormes carrancas de boi, de burro, de veado e bebiam refrescos, e fumavam cigarros, e enxugavam com grandes lenos sujos a testa e o pescoo, todos lustrosos de suor.
       Nas obras da igreja estavam sentados coxos, cegos, para-lticos, gente coberta de feridas. E todos, mesmo os cegos, levantavam a cabea para aquele movimento vagaroso e denso da rua repleta. E, apesar de toda a algazarra, ouvia-se subir das pedras e da escurido um gemido sucessivo: "D, d! Uma esmolinha pelo amor de Deus!" E em outros tons, vozes diversas explicavam, umas graves, umas agudas, todas doloridas: "Um ceguinho de nascena!" "O aleijadinho, o aleijadinho!" E o coro repetia:  "D! D!"
       E a menina levantava os olhos interrogativos. "Vai dar a eles!" E as mos se aproximavam, abertas e tateantes, debaixo da sua, e entre os saltos dos palhaos e o berrar das cometas, ouvia-se rastejar o murmrio dos mendigos: "Minha rica menina!" Passava um jorro de confete dissipando-se no ar. "Deus te crie para o bem!" " abre alas, que eu quero passar!" "...  te faa feliz..."
       Mas por perto do quiosque no a queriam levar. Mesmo por entre a multido, ela via um pouco adiante as suas luzes brilharem, e braos peludos tirarem das prateleiras garrafas e maos de cigarro. Ouvia-se um tinir de copos, de canecas, e vozes de homens diziam muito alto, muito alto, mais alto que toda a multido coisas desarticuladas, de que os outros se riam brutalmente. "So os bbados. . . So os bbados..." A mo que levava a sua estremecia: e os ps tomavam outro caminho.
       Mas um chins de rabicho avanava, amarelo e magro, e indiferente, com um pau atravessado no ombro, e um cesto pendurado, em cada ponta. Seus bigodes de linha preta passavam hirtos como cadveres. E por dentro da menina comeava uma cano:
       
       "Quem eu amo, te digo, est longe, 
       l nas terras do imprio chins, 
       num palcio de loua vermelha, 
       sobre um trono de azul japons..."
       
       De repente, todos recuavam para as paredes, subiam para as grades, para as pedras, para as rvores. "J vem o Z-Pereira!" diziam os garotos. "J vem o Z-Pereira!" gritavam as mocinhas. As velhas repercutiam como quem fala dentro de uma caixa:  "J vem o Z-Pereira!"
       Os que estavam cochilando reanimavam-se com um profundo suspiro, enxugavam a boca, esfregavam as pestanas. Sacudiam-se as criancinhas para as acordar: elas bamboleavam, descerravam os olhos, deitavam o rosto sobre a outra face, e continuavam a dormir.
       Mais para longe ainda se ouvia a propagao daquele anncio: "J vem o Z -P e r e i r a. . .!"
       E o zabumba aparecia:
       
       "Z-Pereira! Pum, pum, pum!"
       
       As negras, com cheiro forte de bicho, passavam jeitosas, para no amassarem os babados dos vestidos: "me d licena. . ." E os negros de bons com gomos de vrias cores sorriam de lado, com salpicos de confete azul e verde pela cara. . .
       
       Surgia uma claridade cor-de-rosa, como nuvem que houvesse baixado  altura das casas. Oh! surgia uma claridade verde, de um verde que levava fumaas azuis dentro de si. . . Um som de metal muito fino, muito agudo, gritava ordens ardentes. As crianas paravam de comer a cocada, com os dedos todos lambuzados e a boca aberta. S algum rapaz, de cara de cavalo, como o afilhado do doutor, ainda aproveitava o xtase imenso para dizer douras  menina que sorria olhando para o leque aberto.
       Passavam os fogos cor-de-rosa. . . Passavam os fogos verdes... A msica insistia. O bombo ajudava.
       E ento chegavam, num lento deslizar, sobre pesados carros, os drages dourados, abrindo e fechando a bocarra imensa, onde apareciam e desapareciam moas nuas, que, enfeitadas de lantejoulas, sorriam e atiravam beijos.
       Rodavam flores, de ouro vermelho, de ouro azul, de ouro amarelo: ora de costas, ora de frente, moas nuas, cobertas de lantejoulas, atiravam beijos, sorrindo.
       A multido apertava os olhos para ver bem. Os domins, sem mscaras, contemplavam, silenciosos e fatigados.
       Balanos prateados entravam e saam de portas mgicas. Outras moas atiravam beijos, sorrindo, e as lantejoulas choviam por todo o seu corpo.
       Abriam-se conchas imensas, dentro de guas cintilantes: moas nuas, de p, sorriam, atirando beijos. . .
       Nuvens de fogo rseo, nuvens de fogo azul contornavam as cenas deslumbradoras.
       Vozes roucas bradavam, no cortejo: "Viva! Viva! Viva!" Longe, a msica insistia; o bombo ajudava.
       S as criancinhas dormiam, sob o cheiro das bisnagas, entre o abanar dos leques, no meio da multido em delrio, diante dos grandes carros faiscantes que rodavam, rodavam, rodavam. ..
       E ela adormecia tambm, com aquelas coisas encantadas sobre os olhos. Giravam as flores. Abriam-se as conchas. E as moas todas azuis! E as moas todas verdes! E as estrelas que brotavam do seu corpo. . . E os braos ficavam to brancos, to brancos...
       Junto a esse mundo extraordinrio, ali ficava, como um gato, como um co adormecido na soleira de uma porta.
       
       Debaixo da rvore, as negrinhas perguntaram-lhe:
         Tu qu brinca tambm de roda, com a gente?
       Ela achou muito singular dar a mo quelas criancinhas desconhecidas, de lngua vermelha e olhos de bola de gude, que pulavam como passarinhos de um lado para o outro, abanando os vestidos de chita no alto das perninhas de ave, pretas e finas.
       Antes de comear, as negrinhas perguntaram de novo:
         Como  o teu nome?
       Ela disse uma vez  com a renda do cabeo em cima da boca. Depois tornou a dizer, porque elas no tinham entendido.
       As negrinhas ficaram satisfeitas. Uma disse: "Eu me chamo Djanira, esta aqui se chama Coleta!" e ensinaram-lhe a segurar nas mos, para brincar de roda. "Com fora!  diziam  voc tem a mo muito mole, pequena!"
       E depois ensinaram-lhe as palavras e a msica, e os movimentos. "Mas segura na mo da gente!" E comearam todas juntas:
       
       "Olha o passarinho, domin! 
       que caiu no lao, domine! 
       d-me um beijinho, domin!
       d-me um abrao, domin!"
       
       "Segura na mo da gente, pequena! Assim,  olha:  com fora. Viu como ? Tu nunca brincou de roda, no?" E prosseguiram todas juntas:
       
       "Foi por esta rua, domin,
       que passou meu bem, domin,
       ser s por mim, domin,
       ou por mais algum?  domin."
       
       Quando a pequena sacudiu a mo dela, OLHINHOS DE GATO estava vendo abrir-se a mala velha, cravejada de pregos dourados, e os domins vermelhos e azuis, cheirando a mofo, desdobrarem suas pregas, levantarem seus capuzes, abanarem seus guizos e suas franjas douradas, e, sem ningum dentro, pularem tambm na dana, animadamente, cantando em falsete com a Coleta e a Djanira. . .
       
       Quanto aos domins. . .  Os domins. . .
       "Tu num qu mais brinca, no, pequena?"
       E caa a tarde. E os troncos das rvores ficavam cada vez mais negros. Por cima das chamins, surgia a lua. Algum passava carregando latas d'gua. Ficava um rastro molhado pelo cho.
       
       "Olha o passarinho, domin,
        que caiu no lao, domin..."
       
       Do alto da rvore comearam a cair umas flores imensas, amarelas e moles, com as ptalas frgeis e enrugadas, e um miolo cor de vinho, e um veludoso pistilo. . . To bom, apanh-las e pous-las no rosto  como lenos, borboletas, mos...  sonhos. . .
       "Tu num qu brinca mais, pequena?"
       E a Djanira, e a Coleta, e as outras olhavam para ela, com seus olhos de bola de gude.
       Mas o menino chegou de manso, com um assovio de madeira, com um som fino e enroscado que nem o canto do canrio, e trinava, trinava. . . e todos correram para perto dele: "Me mostra! Me mostra! Me deixa soprar tambm!"
       E a madeira destingia na boca. E a menina olhava encantada a bela cor nos lbios polpudos das negrinhas, e por cima dos dentes. . .
        To bonito! Encarnado!  exclamou.
       Mas a outra negrinha disse com desprezo: "Isso no  encarnado, sua boba, isso   SULFERINO!"
       Ah!
       E ela no se importou de ter sido boba. Ela achava to bonito, to bonito! SULFERINO!
        assim. Cada coisa tem um nome certo. E  preciso saber o nome certo das coisas.
       
       E ela ouvia dizer com delcia: "Mas onde se teria metido essa criana?" Ouvia dizer, e sentia no nariz o cheiro particular daquele recanto de escurido. "Estar no armrio?" Seu corao batia forte: pum, pum. No, no armrio no estava. . .
       Maria Maruca bateu todo o quintal  sua procura. Dentinho de Arroz foi espiar, mansamente, por entre os vestidos.
       E ela via os ps de Dentinho de Arroz: o bico triangular, o bico de verniz dos chinelos de plo branco e preto. . . Via o contorno amarelo da sola. Via a pele do calcanhar, um pouco gretada. . . Via tambm a poeira brincando na rstia de sol que vinha modelar o p torneado da cadeira... A franja branca da colcha caa de um lado a outro, reta, por igual. No se respirava muito bem, o corpo no estava muito  vontade, mas era fresco, e talvez assim se conseguisse escapar daquele perigo.
       Quando ela viu, porm, que os ps se aproximavam: "Se no est no armrio, ento..." e sentiu que se ajoelhavam, e percebeu que levantavam a barra da colcha  suspendeu a respirao, e fechou os olhos. Mas foi intil... ah! foi intil! . . . "Eu logo vi! No disse? Saia j da, seu bicho-do-mato!" E a mo tocava-lhe o vestido, o joelho, um trecho do brao  a mo que no se via, no escuro, mas que se sentia movendo os dedos finos e elegantes como cavalinhos caminhando. . . E o rosto espiava sob a franja da colcha: "Vamos, que esto esperando!" E os dentinhos brancos luziam midos como sementes. E os olhos ficavam bonitos como o luar na gua.
       Quando saiu do seu esconderijo, Boquinha de Doce tambm tinha chegado: "Mas onde isto se foi meter! E todos procurando! E a tia Tota. . . e o priminho..."
       Mas seus cabelos estavam despenteados, e o vestido todo torcido no corpo. "Venha conhecer o priminho!" No, o priminho ela no queria conhecer de modo algum. Os meninos, caadores de borboletas e passarinhos, amarradores de caudas de liblula e rabos de gato, quebradores de vidraa e apedrejadores de frutas, constituem uma casta de sua profunda antipatia. No queria saber do primo. Eram eles, os meninos, que, depois de crescidos, se transformavam em ladres. Positivamente, no queria saber dessa gente.
        Dentinho de Arroz, concertando-lhe a roupa e o cabelo, ia dizendo: "Bicho-do-mato, que voc ! Onde j se viu menina bonita fazer uma coisa assim? Seu primo vai dizer a todo o mundo que voc  um bicho-do-mato. . . E ele  to bonitinho! S vendo! Usa pastinha. . . Tem uma roupa de gravata e cabeo. . .  Traz uma bengalinha. . .   Parece um prncipe!"
       Ouvia-se do outro lado a voz de Boquinha de Doce: " uma criana muito boa, muito boa. . . Com to bom corao, nunca vi, mesmo. Mas  to teimosa, to teimosinha. . . Muito esquisita. ESQUISITA. Embirra com as coisas e com as pessoas, no se sabe por qu. Por exemplo, a D. Carolina: no a quer enxergar na sua frente! Eu at fico envergonhada. . . Mas que se h de fazer? Outras vezes  com os bichos: houve um tempo  mas isso foi logo que veio para o meu poder  em que no podia ver nem ouvir o galo. Punha-se a chorar, a chorar, que no se sabia o que fazer. Depois foi passando, graas a Deus. Passou-lhe a mania do galo, mas veio-lhe a do vento. Era s comear uma folha a tremer nas rvores, e j ningum podia com ela... s vezes so outras coisas: pois no havia de cismar com um vestido que a madrinha lhe deu: "Porque no boto, porque no boto: porque este vestido  de homem. . . eu no sou homem, eu no boto o vestido." Levou nessa lengalenga, e no botou o vestido! Um vestido to bom! De brim com uns risquinhos. Tudo porque no queria ser homem.  outra cisma, agora. . ."
       E a voz da senhora magra, de mos de marfim e olheiras azuis respondia, grave e doce: "Criana  assim mesmo. . .  preciso ter pacincia. . . Com o tempo endireitam..."
       Ela esperava pela voz do primo. Quem sabe ele tambm ia dizer alguma coisa? Mas o menino no dizia nada.
        Quando acabar de enrolar os cachinhos, vamos pr p-de-arroz, e voc vai aparecer. . . Voc no  bicho-do-mato. . . Que coisa feia ter medo de homem!
       Mas nem com o p-de-arroz e os cachinhos enrolados a menina se animou a aparecer.
        Dentinho de Arroz foi-se embora: "Tambm quando voc me pedir para passear, eu no levo, no."
       A conversa caminhava por outros assuntos: coisas de doena, de festa, de casamento e de morte. . . O canrio trinava. Pessoas de longe. . . Lembranas dos outros tempos. Notcias de outros lugares. . .
       E a menina, encostada  cama, pensava: " to bonitinho! S vendo. Usa pastinha. . . Roupa de gravata e cabeo . . .   Bengalinha. . .   Parece um prncipe..."
       Mas era menino. . . Devia ser um futuro ladro. . . Com certeza, tinha no bolso uma pedra para matar passarinhos. . . Mas usa pastinha. . . E deve trepar nas rvores dos outros para arrancar as flores. . . Mas tem uma bengalinha... E sai com um pau na mo para bater noutros meninos. . . Mas a sua roupa.. .
       Ento, foi at o canto do quarto, bem no canto, atrs do cadeiro enorme, e olhou para a espada encostada  parede. Que espada imensa! Que espada pesada! "E si entrasse um ladro de noite?"  costumava perguntar Dentinho de Arroz. "Oh! temos a espada ali..."  respondia Boquinha de Doce, sorrindo. Que espada! A bainha deixava ferrugem nas mos. O punho retorcido parecia de madeira. E havia um pedao de corrente grossa, que oscilava lentamente, quando se tocava na espada.
       
       O menino ficou olhando para ela sem pestanejar, com o queixo enterrado no grande lao da gravata de seda. Tinha pastinha grudada  testa, com os fios do cabelo muito alisados, separados uns dos outros, como pregados ali um a um.
       Tia Tota esboou um sorriso muito suave, e seus olhos cor de violeta ficaram parados como um desenho. Sua boca mansamente perguntou: "Por que no vem falar conosco?" E de novo apareceram seus dentes longos e amarelados.
        Boquinha de Doce, que estava de costas, compreendeu que ela havia aparecido, e voltou-se para falar-lhe.
       Ela, porm, continuava imvel como uma esttua, olhando para todos trs em silncio, com as duas mos firmemente apoiadas na espada, cuja ponta assentava perpendicularmente no cho.
       Depois, tornou a entrar, arrastando a espada pela corrente, e sentou-se na beira da cama, cansada de seu desiludido esforo.
       Do outro lado sentia-se um silncio grande, muito grande. E do meio dele, como um repuxo, a voz do canrio ia subindo at muito alto.
       Para qu, tudo aquilo?
       No achava parecena nenhuma, afinal, entre o primo e os prncipes.
       
       
       
    10
    
       MARIA MARUCA apalpava na corda a roupa que no secava, e dizia em voz alta, mas para si mesma: " mesmo muito esquisito: quando estes dias chegam, sempre d pra ficar assim!"
       Por entre os gatos, as plantas, os pianinhos quebrados, a boneca deitada, as caixas vazias, a menina olhava o tempo, por cima dos muros, das rvores, dos telhados.
       At os dias so de vida ou de morte. Umas vezes,  a luz danando sobre as flores, laos de luz nos ramos, rendas de luz nas guas, pulseiras de luz pelo cho. Tempo feliz das borboletas e dos pssaros. At as formigas parecem novas, de um cintilante vidro dourado. At o rato que se escapa do muro parece andar preparando uma festa.
       Mas, de repente, tudo entristece. Numa secreta noite, tudo isso se desmancha, e o que existia na vspera j no se encontra mais. Nuvens, s nuvens, tudo nuvens. O cu forrado de nuvens, as montanhas vestidas de nuvens, as rvores enroladas em nuvens, as casas cobertas de nuvens, os quintais transbordantes de nuvens... O aveludado azul, o lustroso verde, os amarelos, os roxos, os vermelhos acabaram-se, naquela secreta noite.  "TUDO MORRE"  exala o cu, exala a terra. E, no entanto, algumas coisas renascem: "So bichos enfeitiados, as lagartixas: pode-se-lhes cortar o rabo, que torna a nascer. At sem cabea, andam!"
       As velhas de mantilhas pretas passavam cabisbaixas para a igreja. As franjas das nuvens pousavam nas suas costas, como xales de cinza. As franjas das nuvens balanavam-se com o toque triste do sino.
        Boquinha de Doce estendia na cmoda uma toalha engomada, e alumiava em silncio as imagens dos santos. O vento dava nas chamas, as velas escorriam e secavam, formavam lgrimas, crostas, rendas, ningum falava. A menina de braos no tapete virava as folhas dos livros.
       "Qual! isto hoje no seca mesmo!"  diziam de novo l fora.
        Boquinha de Doce sentava-se na sua cadeira de vime, abria tambm seu livro, que era pequenino, mas grosso, e de beiras douradas, e ali ficava, entre nuvens. E a menina ajoelhava-se, levantava-se, chegava-se para perto dela, aninhava-se no seu colo, ficava entre o seu rosto e o livro. E as figuras passavam: homens de outros tempos abriam os braos falando para multides; a cabea do santo gotejava sangue, sob os espinhos; o corpo do santo se arrastava entre soldados; o santo morria na cruz, e as mulheres choravam ajoelhadas.
       Mas depois a figura do santo reaparecia, de braos alegres, abrindo nuvens, e o sol raiava de dentro de seu corpo, e um pouco de vento brincava no pequeno pano que lhe cingia o ventre.
       "Um homem levou seus criados para trabalharem no campo, no dia de hoje.  Mas no dia de hoje, vizinho? Pois neste dia ides semear?  Ora, o que for se ver!  E o que foi semeado at o meio-dia ainda vingou e produziu. Mas o do meio-dia para a tarde apodreceu, no deu nada..."
       Maria Maruca perguntava com os olhos cheios de nuvens: "J passar do meio-dia? Far mal cortar as unhas dos ps?"
       E as nuvens boiavam entre as rvores. As nuvens atravessavam a gaiola do pssaro. As nuvens toldavam as cores do papagaio, de olhos fechados, que, com as penas do pescoo eriadas e frias, se cocava, se cocava, com a pata enrugada, coberta de pretas escamas velhas.
       A rea mida tomava a cor do cu. No rego do tanque, secava a ferrugem do limo. A hera do muro, cinzenta e fosca.
       No alto da pilastra, o vaso de barro. E uma pincelada de nuvem no tringulo do tinhoro vermelho.
       E um silncio! Um silncio tal que se ouvia l longe as negrinhas conversarem embaixo das rvores, que se sentia muito distante  em que rua? em que rua?  uma ltima carroa rodar tristemente pelas pedras. E o rumor de um tlburi desenhava-se no ar igual a bolinhas de pedra  plec, plec  caindo na gua.
       E o gato resvalava, encostava-se nas pessoas, miava sem som, como as teclas mudas dos pianos, erguia os bigodes, arreganhava a boca num bocejo vazio.
       Entrava-se, saa-se  dava-se uma volta por baixo das rvores  balanava-se o balano, agitando as nuvens. E o dia no terminava.
       As galinhas amontoavam-se umas sobre as outras, parecendo esperar uma grande desgraa. Abriam os olhos de vez em quando, para ver se j teria chegado. Um galo atrevia-se a cantar noutros quintais? Seu grito, debaixo das nuvens, era uma pergunta para alm: "Ainda estou vivo?" E um outro, de voz mais dbil, repetia com angstia: "Ainda estou vivo?" Ento, este tambm se encorajava, dava uns trs passos para a frente, arqueava o peito, e respondia. As galinhas estremeciam nas pernas frouxas. "Ainda estou vivo." E as nuvens cerravam-se.
       Estavam todas as janelas fechadas. Um moleque descia a rua correndo, mas ia descalo e seus ps saltavam rpidos e mudos, com uma ligeireza fona de borracha.
       E mais nada, seno algum mosquito fazendo crculos por cima de uma poa, alguma formiga marchando entre as pedras desconjuntadas.
       Entrava-se, saa-se. Boquinha de Doce, na sua cadeira, lia as pequenas pginas. E havia mantilhas negras estendidas nos quadros dos santos, e, de alto a baixo, todos os espelhos tinham sido cobertos de panos pretos.
       As nuvens estavam mais escuras, tambm. As nuvens j se acumulavam nas folhas do livro: os soldados confundiam-se. As mulheres sumiam-se com seus mantos. Os anjos ficavam imperceptveis. O santo apagava-se.
       Em cima da cmoda, numa garrafa que as luzes douravam, desenhavam-se aquelas coisas do livro: cruz, escadas, martelos, cravos.
       Eram as mesmas coisas que nascem nas flores da trepadeira de D. Sinh. Nas flores roxas e vermelhas, manchadas pelo sangue do santo.
       
       Mas de novo a noite secreta move suas invisveis mos. De novo muda o rosto do tempo, e entre o cu e a terra aparece outra vez o dia. Levam as invisveis mos, levam para longe, sem explicao nem rumor, as nuvens imensas que andaram por cima do sol e da lua.
       O negro Alcebades pousa o balde, encosta a escova e arregaa as calas. A espuma comea a esbranquiar os ladrilhos  Frch, frch, frch  comea a esbranquiar os ladrilhos da varanda, a escorrer pelo muro, a descer para a calada, a alastrar-se pela rua, a sumir-se pela esquina... Vai-se embora, vai-se embora. Por fim, desce uma gua to clara e brilhante que causa alegria: trana de prata em que flutua uma flor azul de trepadeira como uma jia perdida.
       As negrinhas tagarelam de pano na cabea: "Eu corri as sete igrejas. Quanto povo, minha Me Santssima!  Hoje tem baile em So Cristvo."
       Sobem as pretas velhas, com as mantilhas descadas para o pescoo. "Tambm visitou as igreja, D. Quimica?" "Pois anto num havra de ? Premssa!"
       E os garotos, armados de pau, comeam a aparecer, saindo dos corredores, pulando dos muros, descendo dos barrancos, furando cercas, surgindo das esquinas. Metem os dedos na boca e assobiam: chamam uns pelos outros, propem, combinam, comunicam-se por meio dessa linguagem como se fossem pssaros.
       Abrem-se janelas, sacodem-se tapetes. As moas endireitam as travessas nos cabelos. E os regadores vermelhos circulam pelos jardins, derramando chuveiros de cristal.
       As botinas pretas vo subindo cansadamente, com o peso que as costas levam. As pontas de renda caem verticalmente de dentro dos bas azuis. O mascate ri-se para as freguesas, matraqueando com o metro. Seu chapu de feltro sem abas, como um dedal, pende para um lado. Pelo outro, irrompe um tufo encaracolado de cabelo, em que resplandece uma rosa corada.
       Depois,  um turbilho de penas, uma palpitao de asas presas, um resignado estertor  e uma voz que apregoa com uma estridncia de clarim, de bandeira encarnada ao pino do sol: "Eh! frangos, perus, galinhas gordas!..." Passam como leques abertos, as penas brancas, as penas pretas, as penas cinzentas. . . Mas os olhos dos animais vo abertos e humilhados, mirando o que encontram, com aquela expresso ajoelhada do Santo coberto de espinhos. Mas um Anjo levantava o Santo, s vezes. A eles,  o brao peludo e suado que os levanta, de vez em quando, mostrando-o s criadas, nos portes. E ningum aparece para socorrer aquela dor que passa sem nada pedir.
       O homem do realejo roda, roda, roda a sua msica na caixa sonora. . . Que importa o destino das asas que palpitam s por alguns minutos mais? "Salta, Rosinha, vem tirar a sorte da moa!"  assim que fala o homem vestido de veludo, para o pequenino periquito que o acompanha. E o periquito retira com o bico um papel onde est dobrado um verso. As negrinhas exclamam: "Cruz! que bicho ensinado! Tem parte com o co!" O homem ri-se com seu riso de carcamano. As crianas chegam-se para junto dele: os garotos com os paus nas mos, as meninas, enternecidas, com as mos para trs, miram a cena e murmuram: "Rosinha!" E em seus lbios srios h uma espcie de xtase.
       E a msica roda: Fim, fim, fim, fim, fim, fim.
       Maria Maruca vai grudando as palavras aos sons:
       
       "Eu fui no Toror, 
       beber gua, no achei, 
       achei bela morena, 
       que no Toror deixei..."
       
       O homem desce com o periquito e o realejo; os garotos apedrejam os pssaros, cuspinham para o lado, como gente grande, e perguntam para a menina, sem cerimnia: "Como ? Voc no vai malhar o Judas?
       E a menina foge.
       Foge: e v os santos descobertos, as dlias orvalhadas nas jarras, a rea secando ao sol, a roupa brilhando na corda, e Maria Maruca entre as galinhas que lhe escapam, em debandada.
       E  um turbilho de penas e um alarido de vozes. Mas a criana est em silncio. Est em silncio e pensa no Santo. Ele salvar  aquela  galinha que vem nos braos  de Maria Maruca? Ele saber que  to bonita, to redonda, que se deita de lado com tanta graa e estende as asas para o sol to mansamente?. . . E a menina pede ao Santo que no lhe acontea nenhum mal. E embaixo de uma rvore, com o rosto escondido nos joelhos, espera que sossegue o tumulto do galinheiro.
       Maria Maruca alegremente canta:
       
       "Hoje  sbado de Aleluia, 
       peixe no prato, 
       farinha na cuia!"
       
       A menina sobe lentamente.
       Os sinos bimbalham como gente rindo-se no alto das torres. E as chamins apitam. E apitam os trens, e os navios, longe, muito longe. . . E os garotos batem com os paus em latas, em ferros, em caixas. . . E rodas douradas de pandeiros estremecem cintilantes no meio dos grandes rumores... E as criadas soltam gargalhadas. . . E as patroas abrem as janelas. . . E um largo perfume de incenso se derrama de dentro das casas. . . "Malha! Malha o Judas!" Os paus batem num boneco de estopa: pan, pan, pan. . .
       A menina chega e v sobre a mesa da cozinha a galinha morta, com as frouxas penas cheias de um tnue frio.
       
       
    11
    
       AS MULATINHAS perguntavam: " de berlinda?" E elas mesmas respondiam: "Parece que  de coup. . ."
       E na outra rua progredia o trotar das parelhas ao tinir dos arreios.
       As janelas abriam-se com um estalar de fechos e um estremecer de cortinas. As moas de trana, morenas e plidas, chegavam, como em sonho, definindo-se e diluindo-se entre as vidraas e a renda.
       As meninas levantavam-se dos canteiros, arrastando pelo cho as bonecas despidas; os meninos corriam para a porta com as espingardas e os arcos.
       Os moleques assoviavam uns para os outros, gritavam: "L vm eles!"  e subiam pela rua aos pinotes, olhando para trs de vez em quando.
       Por entre as grades, por cima dos muros, no alto das varandas, apareciam as mulatinhas cochichando umas com as outras, e cobrindo a boca com a mo para rir. . .
       At os velhos de palet de alpaca saam da cadeira de balano, com o leno na mo, arrastando as chinelas e cocando a cabea por baixo do gorrinho de seda. As velhas gordas vinham-se chegando, cambando para um lado e para outro, como barcas, consertando na frente os franzidos da saia.
       Brilhava uma estrela na testa do cavalo. Brilhavam duas estrelas. Brilhavam todas as estrelas, e os arreios cobertos de guizos de prata. A cartola do cocheiro surgia, to alta, muito acima do muro. Com uma sacudidela mais forte, sussurravam todos os guizos. E fazia-se uma pausa, dentro da qual se ouvia o rumor dos carros que vinham depois.
        Que beleza! Cavalos brancos! exclamavam as mulatinhas, debruando-se. Os moleques olhavam de longe, assombrados.
       "Ainda no  aquele!" apostavam as crianas. As moas plidas olhavam srias, muito de longe.
       "Vem mais outro!" gritavam os moleques.
       Os cavalos estremeciam: e, como se fosse musical todo o seu corpo, vibravam os guizos sobre cada msculo. Os cocheiros, de perna cruzada, e com a cartola para trs, enxugavam o pescoo por dentro do colarinho, e conversavam devagar uns com os outros.
       Enchia-se o fundo da rua de carros reluzentes, cujos vidros chispavam com o sol. E um deles era to recamado de flores, to fresco na sua brancura de lua e jasmim que se devia estar l dentro com a mesma delcia que, no silncio da noite, debaixo de um caramancho.
       L em cima, o jardim se enchia de cores e movimento. Surgiam vestidos de gaze, molhos de flores, laos de fitas. Cintilavam ao sol j plido rpidos leques de lantejoulas.
       E l embaixo os cocheiros descruzavam a perna, e, endireitando a cartola, enxugavam pela ltima vez o suor d0 pescoo.
       Os cavalos levantavam uma pata, sacudiam a crina. As estrelas lampejavam. E a msica dos guizos tremulava entre as velhas pedras do cho e a sombra mansa e densa das amplas mangueiras acinzentadas.
       Umas diziam: "Mas como est bonita!" Outras contrariavam: "Ah! eu no acho, no." Umas diziam: "Daqueles vestidos  que eu gosto. Est vendo? Todinhos de casas de marimbondo!" Outras diziam: "Que falta de gosto! Eu acho a madrinha muito mais bonita!"
       As moas plidas, passando a mo pela trana, vertiam os olhos escuros pela janela abaixo, e pensavam.
       Mas o cortejo descia. O padrinho arqueava o brao com uma infinita solicitude. As meninas de laarotes nos cabelos encrespados suspendiam muito srias a imensa cauda do vestido. Os meninos, entalados em roupas novas, carregavam nos braos grandes almofadas de cetim branco, e davam passos miudinhos com os seus sapatos apertados e fulgurantes. . .
       Como uma figura de livro, a noiva parecia apenas um desenho: no falava, no olhava. Se lhe perguntassem quem era, talvez no soubesse. Parecia ter deixado o seu prprio nome em algum lugar, e s o seu desenho descia a rua, sem que se soubesse como, porque nem se lhe viam os ps.
       As pessoas tomavam seus lugares nos carros. Ouvia-se o bater das portinholas. Os guizos cantavam alegremente, com a voz unnime de todos os grilos da noite. . .
       As rodas rodavam, as patas dos animais martelavam cadenciadamente a rua, cada vez menos perto, menos perto. . . Ficavam pelo cho os moleques, olhando, misturados com os gatos, os ces, as pedras. . . Os vizinhos suspiravam, lembravam coisas, recolhiam-se. . .
       Mas dentro das casas sentia-se que a conversa continuava sobre os personagens da festa.
       
       Oh! quando voltavam os cavalos sussurrantes, comeava a escurecer: e o brilho dos vidros, dos metais, dos cetins, das lantejoulas adquiria trepidaes e transparncias perturbadoras.
       Todas as janelas e portas se povoavam de novo: mas no se distinguiam muito bem os rostos: as formas fundiam-se em desenhos superpostos.
       O cortejo duplicava: cada pessoa levava consigo a sua sombra. Sentia-se que sorriam, sentia-se que falavam: mas os lbios se dispersavam na noite. As vozes se desfaziam facilmente. A asa dos leques sacudia estrelas para todos os lados. Aquela claridade passando lentamente, longa como um pssaro, era a noiva, coberta de flores, com um longo vu e uma longa cauda.. .
       Perdia-se no fim das ruas a msica dos cavalos e o rodar dos carros. Giravam os morcegos entre as rvores. . . Acordava o tremor dos grilos pelas ervas, pelas paredes, nos interstcios do ar. Fechavam-se as casas. Apagavam-se as varandas. E a noite parecia uma noite qualquer.
       Ah! mas no era...
       No era porque, do alto da rua, junto ao cu, perto das estrelas, um som cristalino comeava a gotejar vagarosa melodia. Ouvindo-a, murmuravam: " a festa! Vai comear a festa!" As negrinhas falavam umas com as outras, na sombra dos corredores e dos quintais: "A festa! Voc no quer ir ver danar?"
       Os garotos diziam l fora: "Comeou a festa! Vamos ver!"
       E alguma pessoa que ia subindo sem saber de nada, olhava o claro, l em cima, e perguntava: " casamento? Ah?"
       E o claro, l em cima, anulava a pobre iluminao dos lampies da rua. Era o jardim todo aceso, eram as salas iluminadas, eram as janelas abertas dissipando as luzes da terra e as luzes do cu.
       Custava-se muito a subir a rua. Os ps caminhavam pelo escuro, atentos mas cegos. As meias agarravam-se s ervas do cho. Brilhavam fascas sbitas: os vaga-lumes fugiam.
       s vezes, alguma coisa arranhava as pernas: algum bicho? alguma planta? Ficava um ardor que as unhas no acalmavam. E subia-se.
       Respirava-se com surpresa o ar estranho dos jardins vizinhos. De cada um, vinha no apenas os cheiros das flores, mas todos os cheiros que compunham a estrutura da casa e a sua respirao humana. Perfumes doces, ntidos, da trepadeira aparada estrelando com suas folhas a parede branca da casa do casal sem filhos; confusos cheiros de rosa e lodo, dentre as grades velhas do jardim do paraltico; aroma das plantas humildes alinhadas em latas enferrujadas; suave exalao dos canteiros regados, ainda com pingos de gua nas folhas longas  canteiros da casa rica, entre os quais desce, constantemente, a voz do afilhado do doutor: "Mas por que  que o profeta Jeremias. . . ?"
       As velhinhas perguntavam do alto dos peitoris: "Vai ver a festa?" e seus olhinhos brilhavam no fundo rosto, surpreendidos de ainda se acharem acordados.
       Os gatos pulam para a rua. Um vento leve dana com os ramos. Algum fecha num poro uma janela, devagar. V-se ainda luzir as candeias dos santos.
       Cai um fio de gua limosa por um muro abaixo: o ar tinge-se dessa umidade, acre e pegajosa.
       Cachorrinhos nervosos latem  toa e pulam degraus de escada.
       Sentado no terrao, o velho cachimba, e ouve a msica sozinho, sozinho, como se no houvesse mais nada no mundo seno mesmo a msica e ele. E a fumaa do cachimbo boiava no seu desenho de longa nuvem, branca e leve, por baixo do cu. . .
         Boa noite!
       Olhando-se para trs, via-se a rua perder-se numa confusa sombra. Desapareciam casas, jardins, pessoas, numa densa escurido.
       S existia cada trecho de rua no momento em que cabia dentro do olhar. E, longe, muito longe, ruas invisveis, estendidas paralelamente, imitavam, na terra, com seu salpico de luzes dbeis, o mistrio do cu levemente estrelado.
       Mas a msica ouvia-se cada vez mais perto. E agora havia mais gente pelas janelas e pelas portas, em grupos modelados de penumbra, onde apenas se destacavam alguns relevos tocados de luz, e a cintilao dos olhos feridos pela claridade.
       E de repente passava-se da escurido para a zona iluminada: viam-se os bicos dos sapatos na terra clara; percebia-se o desenho verde das plantas rasteiras. Entrando-se nessa zona, mudava-se de mundo. Cessava aquele ermo e elevado silncio em que existia apenas a alma frgil de grilos, vaga-lumes, estrelas e flores. E cujos habitantes humanos paravam como esttuas ou deslizavam como sombras.
       Nesta zona iluminada, uma vida turbulenta e ruidosa se agitava. As meninas, de camisolas de seda com grinaldas de flores, corriam umas atrs das outras, pela varanda, pelo jardim, desaparecendo entre as rvores e reaparecendo, com os cabelos batendo ao vento, numa cascata de cachos. Os meninos, de blusa de cetim, corriam tambm com elas e ouviam-se suas vozes gritando, ao longe, diminutivos:
         Nininha!
         Quinquim!
       O resto era um rumor risonho e perdido, que no se percebia com clareza, porque, no primeiro plano, estava a msica, uma cristalina, brilhante, lmpida msica.
       Reluzia, inclinado na parede, um imenso espelho, pesado de ornamentos  e quadros com molduras de veludo inclinavam-se tambm como janelas onde sorriam, pessoas, com certeza j mortas.
       Viam-se as flores nas jarras  e, ora de frente, ora de costas, passavam danando as moas de azul e as senhoras de cinzento, e a luz copiosa do lustre de pingentes fazia brilhar travessas de ouro e de pedras claras, nos cabelos armados em altos bandos.
       No fundo da sala, sentados no sof, de face para a rua, os noivos assistiam ao deslizar dos pares. No falavam, no sorriam, no olhavam um para o outro. Estavam ali, sentados, quietos, srios, como duas pessoas adormecidas de olhos abertos. Uma coroa de flores de pelica cingia  frente da moa, muito plida, o imenso vu que a cercava de nuvens brancas. Seus olhos eram escuros, com fortes sobrancelhas perfeitamente desenhadas. Lentamente ela movia o leque de rendas sobre o peito. E a luz feria as lantejoulas, que jorravam multiplicadas, numa distribuio mgica.
       A msica docemente cantava, um pouco triste, mas to linda!
       E os vultos perpassavam, alternando as suaves cores dos vestidos, numa deliciosa sucesso.
       Diziam: "A mais bonita  aquela de branco. Repare: vai passar agora." E passava a de branco, toda, toda cercada de gaze, como uma flor numa jarra de cristal. Respondiam: " mesmo: mais bonita que a noiva! Parece uma santa!"
       De repente, a msica parava, os cavalheiros faziam uma reverncia, batiam palmas. O pianista agradecia, e abanava-se. Os pares saam mansamente da sala, de brao dado.
       Ouviam-se as vozes risonhas das crianas por entre as rvores: "Quinquim!" "Mariazinha!"
       Na rua comentavam: "Agora esto nos doces. Viu quantos bas vieram da confeitaria? Esto abrindo o champagne!"
       Mas os noivos continuavam na sala. E sentavam-se perto deles senhoras de cabelos brancos. Ela fechava e abria o leque de lantejoulas; e uma serenidade imensa pousava em seu rosto plido, a que as ntidas sobrancelhas davam um ar de misterioso pssaro.
       E a menina, cansada, com os olhos entontecidos de sono, sentia-se dentro daquele vestido rebrilhante, alegre de tanta brancura, abanando-se com aquele leque faiscante. E pensava que seria bom adormecer assim vestida, entre vus to fofos cercada de flores to eternas, e daquela msica que parecia um bailado de estrelas  fina, leve, lmpida. . .
         Pois agora  que vai comear a quadrilha. . .  murmuraram.
         Mas a menina j est caindo de sono. . .
         Por que no volta depois? Venha ver o balance!. . . . . . Devia ser doce, a frescura do leque sobre as nuvens do vu. As lantejoulas se soltariam, seriam pssaros de luz, cantando nas ramagens da noite. As flores se abririam de um lado e de outro do sonho, silenciosas. E o moo, perto dela, estaria para sempre, imvel, guardando-a para que ningum a roubasse, adormecida e to linda. . .
       
       Dobravam-se duas esquinas, passava-se pela grande rvore onde as negrinhas gostavam de brincar de "tempo-ser", de quatro cantos ou de pular corda. Mesmo quando elas no estavam, ou eram as pedras, ou as paredes, ou os ramos, ouviam-se as vozes: "Pega! Foge! Quem pega passarinho no deixa fugi!"
       Depois, havia muitas janelinhas iguais. Era isso o que atrapalhava.
       Maria Maruca olhava o nmero, e dizia: " aqui." Batia-se diretamente na porta sobre a rua. Abriam um postigo, olhavam: "Oh!" E quando a porta se abria, abriam-se tambm os braos: "Mas cad ela? E como vem bonita! Cheia de babados!" Levavam-na por um corredor, e numa pobre mesa estendiam uma toalha dobrada, alteavam-lhe a cadeira com travesseiros, e serviam-lhe, num pires com florezinhas, doce de coco, ou arroz-de-leite, ou canjica, ou manjar-branco. Era sempre assim.
       Ela custava a tirar a colher da boca, absorvendo o ltimo vestgio de acar pelo metal. Depois, tiravam-lhe o guardanapo, lavavam-lhe as mos e, enquanto as enxugavam numa toalha com bordados de linha encarnada, diziam-lhe com meiguice, girando os olhos, e franzindo e desfranzindo os lbios largos: "Agora. . . quero que me recite um verso!"
       Ento, ela se punha no meio da casa, abria os braos, e com um grande esforo de articulao, comeava, numa cantilena:
       
       "Sou pequenina, 
       meu vestido  curto, 
       deixando, a furto, 
       entrever meu p..."
       
       C ia seguindo suas expresses como um espelho: virava a cabea, abaixava o queixo, mexia com os dedos.
       Quando aquilo acabava, saa correndo para esconder-se muito tempo nos braos que a esperavam.
       E C animava-a, batendo-lhe nos babados do vestido: "Est ficando uma sabichona. V brincar! Precisa aprender outro versinho!"
       As crianas apareciam de todos os lados. Agarravam-na, analisavam-na: "Xi! Tem olho de gato! Deixa ver! Como  teu nome, coisinha? Tem um colarzinho de ouro! Me mostra. Que bonito! Tem calunga, tem figuinha, tem cruz, tem corao, quem te deu tudo isso, hein, pequena?"
       Puxavam-na para todos os lados. O vestido desabotoava-se. O colar abria-se. As crianas consertavam tudo outra vez: "Voc qu vim brinca com a gente? Qu brinca de veado qu fugi?" E mostravam a variedade dos brinquedos: "A gente sabe brinca de Viuvinha; de Tempo-ser; de marre dici; de Ciranda, cirandinha; de Manda tiro tirol; de Bento que bento  o frade..."
       Uma negrinha mais espevitada intervinha e decidia:
        De Tempo-ser! De Tempo-ser! O pique  ali na rvore. Vamo v quem  a boi:
       Encolhia a mo como a pata do papagaio, e estendendo um nico dedo, pontudo, preto, engelhado como o de um velhinho, com uma unha branca, fosca e convexa, ia espetando o peito de cada uma dizendo muito gravemente esta lengalenga:
       
       "Un, deux, trois, 
       marimbomb de chocolat..."
       
       E ordenava de vez em quando: "Sai fora!" Comeavam a correr. Ralava-se o joelho nas pedras. C intervinha com trapos molhados em vinagre. E voltava-se para brincar, meio capenga, limpando as ltimas lgrimas nos babados da gola.
       Quando se ia embora, quando todas as negrinhas desapareciam, as pedras, as paredes, a rvore continuavam a brincar:
       
       "Foi por esta rua, domin. . .!"
       
       Mas, uma noite, uma pessoa diferente tomou-a pela mo e disse-lhe: "Vamos." E deixaram-na ir. E a mo que a levava causava-lhe estranheza: to fria, to pegajosa, to dura. Por que seria que a deixavam ir?
       Dobraram uma esquina. Dobraram a outra. J se avistava a rvore, e, brandamente, por baixo dela, as vozes das coisas cantavam:
       
       "Nesta rua, nesta rua tem um bosque..."
       
       E estava escuro, e os lampies vacilavam nas nvoas da noite. No havia quase ningum. Algum gato, sentado nos muros, assustava com seus olhos fulgurantes. Um ltimo brio vinha saindo de uma ltima porta. E a pessoa perguntou para si mesma, ou para a noite: "Ser a mesmo?" E a pessoa respondeu para si mesma  ou foi a noite: "Deve ser." E a mo bateu levemente na porta: "pan, pan, pan. . ."
       Ento, sentiu-se uma luz caminhar, ouviu-se o arrastar dos chinelos no assoalho, e viram-se os vidros das janelas todos vermelhos. E abriu-se o postigo e um rosto fatigado apareceu, e murmurou qualquer coisa em voz baixa.
       E a mo suada, fria e dura, estremeceu, agarrando-se com fora  mo da criana, e a voz suspirou inquieta: "??. . ." E essa nica letra tinha um som estranho, e prolongado, interminvel, crescendo, crescendo no vazio da noite. . .
       E o postigo fechou-se. Nenhum sorriso dos lbios grossos e largos. Nem tempo para dizer: "C!" E alis... por qu?  parece que nem a tinham visto. . . E a pessoa apressando o passo, e a mo tremendo, na noite morna, na noite que envolvia de nvoa os candieiros da rua velha. A boca murmurava para si mesma, ou para a noite, ou para a criana: "Meu Deus! Meu Deus!" E a pessoa corria, corria. A criana mal a podia acompanhar, embaraando as pernas uma na outra. E a pessoa dizia, sufocada: "Depressa! Corre! Foge!" E a criana queria olhar, para ver se vinham soldados, se vinham ladres, se vinham bichos. E a pessoa insistia: "No olha, menina, no olha, que pega!"
       E a criana olhava, apesar de tudo. E no via nada. Nada, seno a noite, e as duas sombras quebrando-se pelas paredes. E no recanto deixado para trs misturavam-se, em seus ouvidos, as cantigas e os brinquedos, sobrepostos, entrelaados, confundidos, e os corpos das negrinhas, e seus braos, suas mos engelhadas, pedaos de umas nos corpos de outras. . .
       A pessoa deixou-se cair numa cadeira, e disse, amarela, fria, arquejante, com os olhos projetados para fora: "Bexigas!"
       A palavra sussurrou pela casa: "Bexigas. . ." e ainda mais baixo: "Bexigas."
        Boquinha de Doce suspirou apenas:  "Seja o que Deus quiser!"
       A pessoa desatou a chorar. E ela dizia: "No chore! No tenha medo!" E batia-lhe no ombro.
       Maria Maruca profetizava num canto, com voz grossa: "Quanto mais medo, pior,  quando pega!"
       Despiram a menina, e deitaram-na.
       A pessoa devia ter-se ido  embora  quando ela j dormia.
       
       
    12
       
       A NEGRA que trazia a notcia resmungava, encostada  parede:
        Pois  verdade! Pois foi assim. . . Virge Nossa Senhora!
       E Boquinha de Doce, pensativa, murmurava: "Coitadinha! Tanto medo que teve! Sentou-se naquela cadeira tremendo. . .   Chorava como uma criana!"
       OLHINHOS DE GATO refazia a cena: "Ela corria! Ela dizia que pegava! Ela me puxou pela rua afora! A mo dela tremia! Ela estava com muito medo!"
       Maria Maruca amarrava o avental, e observava: "Eu c sempre digo: quanto mais medo, pior. Deus me perdoe: mas eu no tenho medo de nada!"
       A negra que trazia a notcia tornava a dizer, encostada  parede: "Pois  verdade! Pois foi assim... Virge Nossa Senhora!"
       Uma pausa. O galo que canta, o passarinho que belisca o alpiste, Maria Maruca que vai lavar roupa. . .
         S Deus sabe o que est para acontecer a cada um! Boquinha de Doce separa as mos, no seu gesto resignado: "Seja o que Deus quiser!"
       A negra descia a escada, com o corpo de lado, acertando com cuidado os ps nos degraus. No seu pulso preto e fino, em que o sol punha um risco branco, havia muitos, muitos fios de prata, enrolados uns sobre os outros. Depois, Maria Maruca comentava:
         Qualquer dia vem a o doutor, e vacina-te. Dizem que  muito bom. Eu c no me vacino, no. Deus me livre! Isso  s para as crianas... E eu no tenho medo de nada. . .
         Quando  que o doutor vem?  perguntava a menina.
         Ah! qualquer dia destes. . . Quanto mais cedo, melhor. E cantava:
       
       "L vem o sr. doutor,
        com a sua camisa de chita, 
       com a sua lanceta na mo fazer a sua visita..."
       A menina perguntava: "Que  lanceta?"
       
       Ela batia a roupa na pedra e explicava: "So instrumentos que os doutores usam."
       E Boquinha de Doce ainda murmurava: "Coitadinha! Parece que adivinhava..."
         Coisinha, por que  que tu no vem brinca?
         Num posso. . .
         Por qu? Tu t doente? T cum cunstipao? Que  que tu tem?
       Maria Maruca continuava: "Quanto mais medo, pior. Viu o que aconteceu cum a outra? Tremeu tanto, correu tanto, chorou tanto! O que tem de vir vem mesmo. E quando a hora chega, no h remdio seno esticar a canela."
         Anda, coisinha! Tou te esperando!
        Boquinha de Doce suspirava: "Seja o que Deus quiser!" Ento  a menina descia  a escada,  e  dava  as  mos  s crianas.
         Por que tu demorou tanto! Tu num queria vim? Vamo brinca de roda:
       
       "Mariquinha morreu onte 
       onte mesmo si enterrou 
       na cova da Mariquinha 
       nasceu um buqu de fr!"
       
       Mas no dia em que ela ouviu dizer que o doutor j estava na casa do vizinho, meteu-se no guarda-roupa e fechou as portas.
       Maria Maruca cantava muito animada:
       
       "L vem o sr. doutor,
       com a sua camisa de chita..."
       
       O doutor mandou busc-la, e, a muito custo, ela sempre conseguiu aparecer.
         Eu hoje no vacino, no  declarou ele  menina, brandindo a lanceta. Hoje, continuou, vou s marcar o lugar em que vacinarei depois.
       Ento, ela deixou que lhe tomassem o brao, onde a lanceta fez trs cruzes pequeninas.
       Maria Maruca exclamou com todos os dentes de fora:
         Ai! to bonitinho! Vs como o brao fica todo enfeitado? Deus me perdoe, mas at parece o do mascate!
       E o doutor acrescentou:
         Agora no se toca, no se mexe, para no sujar tudo com a tinta. . .
       Ela olhou, olhou e compreendeu que aquela tinta vinha de dentro dela mesma, que era o seu sangue, que aparecia naqueles trs pequenos desenhos.
       O doutor fechou a mala com um estalinho. Boquinha de Doce levou-o at a escada. Maria Maruca enrolou-lhe a manga do vestido no alto do brao.
         Hoje no vacino, no. . . Vou s marcar os lugares. . .
       A menina sentiu dentro de si aquela melancolia indefinida das coisas inexatas. Como quando acordou e no encontrou C perto dela. . . como quando lhe disseram que o cachorrinho tinha fugido. . .
       As pontas do fraque do doutor abanavam, no descer da escada.
        Dentinho de Arroz apalpa o cho cautelosamente. "No: aqui est mido. Vamos mais para cima." OLHINHOS DE GATO vai pulando na frente. Agarra-se ao tronco esverdeado e rugoso que seus braos no abarcam. O tronco  bonito, aveludado e, olhando-se bem, sente-se por dentro dele relva, roupas de seda, frascos, pedras limosas, tanques de gua fria, cigarras.. .
        Dentinho de Arroz est olhando, olhando. "Voc est vendo os morrinhos verdes. . .? o riacho. . .?"
        No, eu estou vendo  se tem formiga-de-fogo ou bicho-cabeludo pra queimar o pescoo da gente.
       Limpou com a mo o tronco, cuja casca se esfarelava  toa. Desfizeram-se em p muitas paisagens dormentes: mas logo brotaram outras novas, na surgida madeira morena.
        Dentinho de Arroz enrola as saias nas pernas, e senta-se numa espcie de banco formado pelas razes da rvore, e por algumas pedras. Senta em seu colo a menina.
       Pelo muro sobem umas pontas de hera. As extremidades, que so ao mesmo tempo verdes, vermelhas e pardas, brilham, midas ao sol, com um lustro vivo de verniz. Mas o resto  acinzentado e fosco. Na parte mais velha, a planta perde sua condio vegetal, converte-se na substncia da calia, dos tijolos, e suas razes torcidas e duras so lavores de pedra.
       Correm lagartixas claras, de olhos salientes, que se somem nos tufos da folhagem. Brincam no cho as manchas de sol movidas pelas folhas, como grandes medalhas de ouro. Canta uma cigarra bem perto, outra, de longe, responde. Depois, a primeira cala-se, e rompe num sbito vo, atravessando as folhas e o ar rumorosamente.
       Cantam galos, aqui e ali, pela rua toda. Mesmo os das outras ruas respondem, mas to distantes, to leves, to areos, que o vento, um curto sopro de vento desfaz a ascenso de seu grito.
       E o sol chispa ao longe nas clarabias. Cai uma folha. Passa uma formiga.
       To bom! To bom resvalar do colo para a terra, e abrir os braos, e encostar o rosto no cho spero, sentindo rente aos olhos os gros de areia, a penugem das ervas, a mescla de vermelhos, de negros, de amarelos que compem o corpo do mundo. . . Num recanto mais sombrio, avistam-se os cogumelos de frgil carne rsea. Os cogumelos que Maria Maruca chama de "chapu de sol dos sapos. . ."
       To bom, perto da terra! Por cima da terra... por dentro da terra. . . "Ali morreu teu av. . . Como tinha chovido uns dias antes, quando o levantaram, o molde de seu corpo ficou aberto no cho..." As folhas ovais do cajueiro superpunham-se como pequenas ventarolas douradas, rubras, castanhas, verdes. . .
       "Ossinhos. . . tudo ossinhos... Oh! como di o corao.. ."
       Salta um passarinho por entre os ramos. Os urubus, altos, altos, fazem crculos, crculos... O srio dos pssegos apregoa pela ltima vez, joga o cesto para o cho, joga a rodilha, joga o corpo, e  sombra do muro come o resto das frutas, cantando uma rouca melodia. E cospe para longe os caroos. . .
       To bom! A gua do tanque vem vindo por um trilho esverdinhado. Passa pelo p da laranjeira, arredonda-se entre as pedras, goteja, segue, some-se pelo cho.
       Nesse momento, numa casa longe, algum abre um piano e comea a estudar escalas. Ouve-se cada nota nitidamente. Sente-se a mo suspensa, hesitando no compasso, e os dedos acertando cada nota trocada.
        a menina loura que toca. S a menina loura, em todo o quarteiro, faz daqueles exerccios to fceis.
       E Dentinho de Arroz, relembrando tempos de familiaridade com a msica,  era ela que limpava o teclado, era ela que estendia um veludo bordado sobre o marfim  solfeja, acompanhando:  d, r, mi, f. . .
       E OLHINHOS DE GATO sonha, com os olhos fechados, cheios de luz cor-de-rosa. Sonha. H quanto tempo ela sonha com um piano grande como aquele, como o da casa de Orelhinha Peluda! Um piano que tenha aquele misterioso cheiro de madeira, verniz, metal e msica. . . Um piano vibrante, desses que tm vida humana por dentro, que respiram, falam, cantam, choram, quando se calca uma simples tecla. . . E que depois conservam ainda uma espcie de suspiro esparso, uma espcie de arquejo de alegria ou de mgoa, que paira em ondas pela sala toda.
       Esses seus sonhos de msica, ela mesma no os entende. Mas pensa, pensa em certos sons muito finos, espaados, extremamente agradveis, como em alguma coisa inesquecvel que se ouviu remotamente com infinito prazer. Vir das gravuras dos livros? de alguma coisa perdida em sua lembrana? de alguma coisa acontecida durante o sono? Nos pianinhos de dez teclas no  possvel combinar esses sons que trazem dentro de si muitas vises, que no so nada, eles mesmos,  e, no entanto, trazem consigo tantas coisas arrastadas;  que so apenas pancadas batidas numa parede mgica, num cho de encantamento: rodam portas invisveis, enroscam-se escadas ocultas, e chega-se a um outro mundo de habitantes desconhecidos e no entanto familiares, que no tm nome, e se reconhecem; que no falam, e se comunicam. E uma espcie de transparncia, um sorriso geral circula e comove. . .
       Com um piano, OLHINHOS DE GATO desce constantemente a esse mundo. Mas, na verdade, todos os sons possuem essa secreta propriedade de a transportarem por profundas viagens: a voz do galo...  o canrio cantando  o sussuro da gua no cho  o quase silencioso ciciar dos insetos  o bater dos relgios e dos sinos  a gaita do doceiro, estridente e inbil  a cometa de chifre do aguadeiro  as campainhas dos cavalos  os pandeiros de Carnaval  as cordas da guitarra: dlen, dlon, fll. . .
       Que pena, ter desaparecido o piano que havia em casa, o piano em que Dentinho de Arroz estendia um pano de veludo bordado... S restavam as msicas, com anjinhos gordos nas capas, e letras muito enoveladas, em curvas planturosas de nuvens.
       O piano da menina loura toca ao longe outro exerccio: d, r, mi, r, mi, f, mi, f. . .
       Mas havia uma espcie de proibio, verdadeiramente. Na primeira noite que ela sonhou possuir, afinal, o piano grande, chegou a sentar-se no banco e a pousar a mo no teclado. Mas as teclas eram mudas. Eram de algodo? Eram de leite? Msica nenhuma pde nascer daquela tentativa secreta dos seus dedos, naquela nuvem de iluso e deserto.
       A segunda vez que a noite repetiu seu sonho, chegou-se a ouvir a primeira nota: mas s essa. Porque ela estremeceu de alegria e, por estremecer, acordou. E suas mos ainda estavam comovidas, mas j tristes, sobre o seu corao.
       Depois no sonhou mais com isso. Apenas, ouvindo os pianos, principalmente nos exerccios fceis, punha-se a viajar por lugares perturbadores. Os mesmos lugares por onde a transportavam os papagaios de papel que no conseguia empinar. Flecha, papel, linha crua, vento: tudo isso ela conseguiu. Ficaria feliz de dar uma parte de si mesma a esse colorido pssaro plano que as outras crianas to facilmente deixavam ir at as nuvens. E no conseguia. S uma vez, em casa de Orelhinha Peluda, o menino deixou-a segurar o fio do papagaio j muito alto. Era extremamente agradvel. Estava-se na terra e no cu, ao mesmo tempo. Atravessava-se com um barbante a nvoa e o sol. Ficava-se inteiramente solitrio, mas ouvia-se o mundo, querendo-se.
       Mas, depois, o menino olhou para ela com indiferena: "Me d, pra botar mais linha na fieira..." Ele no estava viajando pelo ar. Ele estava preocupado com a quantidade de linha...
       
       Como as obras da igreja no acabavam, resolveram fazer uma festa, com leilo de prendas. Andaram pedindo por toda a vizinhana. Boquinha de Doce dizia, sentada  mesa: "O poder divino no est em nada disso. Que importa, a Deus, ter mais ou menos uma igreja? O lugar de Deus  no corao das criaturas. Mas no se deve ir contra a f de ningum. Apenas, sem um corao limpo, no adianta nada tanta reza e tanto altar..."
       Nem Maria Maruca falava. At Maria Maruca ficava atenta.
       "H pessoas que pensam muito na salvao, e fazem tudo para a conseguirem, menos o essencial. O essencial  o amor. No h nada para pedir seno andar pelo caminho de Deus. Cada um ter o que merecer. E o que no tiver, aceitar com pacincia a sua sorte. Ningum sabe o que est para acontecer a cada hora. Por que desesperar-se hoje, se amanh talvez tudo mude? E por que alegrar-se tambm tanto agora, se daqui a pouco se pode estar morto?  viver. Ir vivendo no Bem. Amanh todos estaremos de olhos fechados."
       Maria Maruca declarou, como quem se confessa: "Depois da minha morte, ser o que Deus quiser. Eu sou dos pobrezinhos, como Jesus. Dos de p no cho. O inferno  para esses prosas, para esses linguarudos, unhas-de-fome, invejosos e comiles. Esses  que vo para as caldeiras-do-pero-botelho. Levam roncando uma hora pra morrer. Dos remorsos do que fizeram. Os outros morrem como os passarinhos. Viram a cabea para o lado e est pronto: a alma voou. E o resto so missas, missas: dominus vobisco, arroz com marisco. . ."
       No entanto, Boquinha de Doce mandou tirar dos armrios e das barricas uma poro de coisas para o leilo.
         Isto tambm?  perguntava Maria Maruca diante de um quadro.
         Tambm. Para que quero mais quadros?
         Ai, se fosse eu no mandava. . . Porque  muito bonito mesmo...
       O jarro azul de cristal, esse, ento, deu-lhe uma grande agonia:
         Ai, uma coisa to bonita! Vendem isto por uns dez-ris. . . Vai parar na casa de alguma beata, para uma negrinha piolhenta o quebrar! Ai, se fosse eu no mandava. . .
       O par de bonecos de biscuit deixou-a sucumbida. Com um boneco em cada mo, perguntava com a incredulidade de quem no ouviu bem:
         Mas. . . isto. . . ISTO vai pro leilo? ISTO? Este casal de prncipes.. . ?
        Boquinha de Doce dizia que sim, sorrindo, e ela insistia:
         Ai, se fosse eu no mandava. . . Uma coisa destas, to linda, to linda. . . Antes ficasse pra mim, pra botar na minha sala de visitas... Se algum dia me casar... Se encontrar um Manei para mim. . .
       Separou-se tanta coisa ali na rea, que parecia uma arrumao de mudana. Maria Maruca enxotava os pintos para no jogarem nada ao cho.
       No dia da festa, Maria Maruca e Dentinho de Arroz foram assistir ao leilo de prendas com a menina.
       O leiloeiro, inchando as veias vermelhas do pescoo, berrava: "Uma caixinha. . . uma caixinha de surpresas! 1$500... 1$500..." O povo dizia com dentes de ouro e pastinhas engraxadas com leo de coco: "Ora, moo, como  que a gente vai dar 1$500 por uma coisa que nem sabe o que ?"
       O leiloeiro contemporizava: "Mas, minha gente,  uma caixinha de surpresas! Pode ter dentro um anel de ouro! 1$500...   1$500..."
       As mulatinhas de vestido engomado levantavam os olhos luminosos para os msicos da banda. E os trombones brilhavam, e as clarinetas e os aros dos bombos. . .
       O leiloeiro levantava pelas asas um galo de ps amarrados: "Um galo, um galo notvel, um galo que pe ovos e choca pintos..." A cara do leiloeiro repuxava-se sangrenta em sorrisos que lhe comprimiam os olhos midos e brincalhes: "Quem quer ficar com o chantecler, vamos ver, vamos ver!" E, de um lado para outro, no alto do palanque, ora enxugava o pescoo no leno, ora brandia o martelinho que marcava os lances na varanda de ripas.
       Entre uma prenda e outra, o leiloeiro bebia um gole de cachaa e dizia graas para o povo. Mas Dentinho de Arroz afastava-se do povo risonho: "No gosto de palhaadas. No sei que vale ser branco, se no se preza."
       Havia um intervalo. A banda rompia em msicas de dana. Pares de negros cerimoniosos danavam distantes um do outro, no adro da igreja. Dentinho de Arroz dizia: "Vamos ver os santos..." E benzia-se diante dos altares, e mostrava  menina as imagens: os santos estavam to quietos, to frios nas suas roupas azuis, vermelhas e douradas como se a festa l fora no tivesse mesmo nada com eles. Nem uma flor se movia, nos jarros: eram todas de papel metlico. Na nave, alinhavam-se paralelos os bancos desertos. L fora, a msica era uma coisa estranha. "O lugar de Deus  no corao das criaturas. . . Que importa mais um altar ou menos um altar..."
       Maria Maruca viu arrematarem o casal de prncipes. Sua cara parecia uma rvore seca. "Mas no se deve contrariar ningum na sua f."
       
       
    13
       
       POR QUE seria que resolveram cortar-lhe os cachos?  era muito trabalhoso enrol-los?  estaria muito ardente aquele vero? Ou seria porque a tia Mariquinhas sempre falava que se deve cortar o cabelo s crianas para, quando crescerem, terem uma trana at os calcanhares?
       "E uma trana de seda...  e to longa que  a barriga...   das  pernas...   alcana!"
        Boquinha de Doce decidiu por onde devia passar a tesoura: nem muito curto nem muito comprido  que se veja a pontinha da orelha. E cortado na frente. Com franjinha.
       Algum acrescentou: "Podia-se dar-lhe agora uns brinquinhos. . . Umas bichinhas de ouro. . . com uma pedrinha de cor..."
       Mas Boquinha de Doce retorquiu: "Ah! no. . . furar as orelhas  pobre criana?... Se eu no sei como isto est vivo. . . Bem trabalho que me deu, para agora maltrat-la?. . . No, no." Tornaram a dizer: "Mas tambm h bichinhas de tarraxa..."
        Dentinho de Arroz no estava por ali. Ela, sim, que tinha as orelhinhas furadas, com uma argolinha de ouro fininha, como essas luas que ainda esto principiando. . .
       E Maria Maruca, enganchando o cinto, dizia:
        Vais ficar uma tetia! Agora podes pentear  marrafa!
       J iam no meio da escada quando Boquinha de Doce ainda se lembrou de recomendar: "E tragam-me para casa os cachinhos cortados! no se esqueam!"
       Ento, descendo a rua, a menina passou a mo melancolicamente pelo cabelo. Cabelo alourado, fino como o dos recm-nascidos, e encaracolando-se sozinho. Pensou vagamente: "Quando voltar..." Um estranho sentimento a foi levando para diante. As outras crianas riam-se para ela: "Voc logo vem brincar de roda?" "Adeus, coisinha!" Depois, as cordas continuavam a bater, e as meninas a pular. Ela olhava para trs: ningum se ocupava mais com ela. Os pais das crianas voltavam do trabalho, davam boa-tarde para os lados, faziam-lhe festa no rostinho: "Vai passear?" E as casas iam ficando longe, e aquela rua, e depois a outra, e os bondes, o quiosque. . .
       Maria Maruca ia andando, andando e levando-a pela mo.
       Por fim, o moo disse: "Que menina to bonita! Tem uns olhinhos de gato..." E levantou-a com uma facilidade como se fosse uma formiga, uma folhinha seca, e sentou-a numa cadeira que subia e descia rodando, diante de um espelho com prateleiras cheias de vidros de perfume, de latas de p-de-arroz.
       A cadeira rodou, rodou, levando-a, como nos carros mgicos de Carnaval. Quando o moo achou que estava de boa altura, tirou da gaveta um pano branco muito bem lavado, e esteve um momento com o pano aberto diante dela, como um toureiro, segurando-o s com dois dedos de cada mo. E a menina pensava que aquilo era uma brincadeira, como as que o Lulu fazia em casa de Orelhinha Peluda, tirando ovos da manga da camisa e virando copos cheios de gua sem os entornar.
       Ela sorria, esperando pela brincadeira. Mas o moo tornou a dizer apenas, mirando-a: "Vai ficar muito bonitinha, de cabelo cortado."
       Passou-lhe o pano pelo peito e amarrou-o no pescoo. Estendeu outro pano pelas costas e perguntou para o lado: " inglesa, no ?"
       Maria Maruca levantou-se e com a ponta do dedo descreveu-lhe por sobre a cabea da criana a altura certa do corte, o lugar certo do risco, o comprimento certo da franja. E o moo disse: "Muito bem!" Maria Maruca tornou a voltar, para dizer ainda: "Os cachos so para levar para casa."
       Ento o moo desatou a fita azul do laarote, e pousou-a na prateleira. A menina, sentada firme, com o pano branco cobrindo-lhe os bracinhos, e as mos pousadas nos joelhos, olhou para a fita transparente estendida sobre o vidro, refletida no espelho, amassada nas marcas do lao. Viu tambm no espelho seu rostinho plido, de lbio triste, e de olhos claros e sozinhos, emoldurado  pela ltima vez!  nos cachos em que a luz despertava umas levezas de ouro claro.
       O moo tomava com uma das mos os caracis, com a outra fechava a tesoura, decepando-os, e contava, a brincar: "Um, dois, trs..." Recolhia cada cacho na palma da mo, concertava-os um pouco, enrolando melhor algum fio disperso, e, entre um e outro, a tesoura fazia tchic, tchic, tchic... no ar, como os ps das crianas que apostam corrida, no instante em que se vo lanar a correr.
       A menina viu reunir assim todo o cabelo cortado numa das mos e depois amarr-los vagarosamente com a fita azul que tirou da prateleira. E viu-se a si mesma, de novo, no espelho,  mas uma outra, diferente da anterior, perdido aquele ar mais infantil dos cabelos esvoaantes, onde a luz armava surpresas de claridade  mais sria agora, com os cabelos concentrados num tom mais escuro, parados, quietos, unidos, tristes.
       O moo colocou os cachos cortados na prateleira, e retomando a tesoura tornou a dizer falando para o espelho: "V, como est ficando bonitinha?" E sorria. E ela sorriu tambm. Sorriu e levantou, com pena, os olhos para os dele. E achou-o simples e inocente como uma criana. E achou-se cheia de pensamentos como uma velhinha.
       E a tesoura comeou a cortar, num tom saltitante: plic, plic. Um homem que saa disse: "Boa noite!" Ela, porm, no pde ver quem era, porque estava de cabea baixa. Por cima do pano, desde os ombros at as suas mos, rolavam pedacinhos de cabelo cortado, que caam juntos, e depois se separavam, dispersando-se pelo pano, pelo cho. E diziam adeus! adeus!  adeus para ela mesma, adeus uns para os outros,  ADEUS.
       Depois, o moo levantou-lhe o queixo, mirou-a, tornou a sorrir, tomou um frasco de metal, molhou-lhe a cabea toda. E esfregando-lhe o cabelo, misturando-o bem entre os dedos, perguntava-lhe: "Gosta do cheirinho, hein? No  mesmo gostoso?" E ela olhava para o espelho, pensando porm outras coisas: vagas, distantes, fora dali. E ele explicava: "Isto  gua de batata-doce." E com um pentinho muito estreito fazia um risco, e alisava o cabelo com a mo, e penteava esticando bem, e aparava no pano as gotas de gua que caam das pontas do cabelo. "gua de batata-doce." E havia aquele cheiro, em redor dela. . .
       A tesoura recomeava: plic, plic. , .  e sacudia no ar as aparas midas: tchic, tchic, tchic. . . "Fique muito quietinha agora para no lhe cortar a orelha." A tesoura rangeu mais demorada, e caiu um grande pedao de cabelo, unido e comprimido pela gua.
       Ele tornou a mir-la, sempre com o mesmo sorriso  de um lado e de outro, de frente e de costas. Segurando o pente e a tesoura, perguntou para o lado: "Estar bem?"
       Maria Maruca veio ver, encontrou as pontinhas das orelhas de fora e concluiu que estava bem.
       Ento, ele ps-se a acertar a franjinha. Passou o pente, passou a escova, pousou a mo  e a tesoura deslizava: plic, plic, plic. . .
       Retirou o pano das costas, sacudiu-o bem, tornou a estend-lo, e disse assim: "Agora vamos raspar o pescoo." E com um pincel cheio de espuma, pintou-lhe o pescoo molemente, frescamente. A maquinazinha passava como um trem pela espuma estendida. Fez-se ento uma grande frescura. Uma nuvem de p-de-arroz dilatou-se no ar, e uma escovinha branda passeou pelo rosto, pelo queixo, pelo pescoo da menina: "V como est bonitinha?" E o moo rodava a cadeira, brincando com ela. "Voc tem olhinhos de gato.. . tem olhinhos de gato.. . tem..."
       Maria Maruca, ao entregar-lhe o dinheiro, perguntou: "O sr. no tem um papelzinho para embrulhar os cachos?" E ele respondeu: " verdade!" Os globos de gs eram cor-de-rosa. Num deles dormia uma grande mosca.
       E voltaram pelas ruas j escurecidas, em que os lampies palpitavam fatigados, de longe em longe.
       Maria Maruca dizia: "Agora vai s andar na marrafa, hein?"
       E ela, passando a mo pela nuca raspada, sentia-se estranha, diferente, uma outra, que era e no era ela. ..
       As crianas disseram: "Ah! coisinha! cortou o cabelo! Corre, gente, vem ver! Oh! To cheiroso! Vem brinca de roda com a gente, vem!"
        Boquinha de Doce sorriu-lhe encantada: "Est ficando uma mocinha. . . Ainda parece mentira!. . . Deixe-me ver se est bem cortado! Estes OLHINHOS DE GATO! E os cachos? Onde esto os cachos?"
       E quando os viu cortados, amarrados com a fita, parou em silncio a mir-los, acariciou-os, beijou-os com um suspiro, como a uma outra criana, que se fosse embora, e lentamente os tornou a embrulhar.
       E a menina assistia, agradecida.
       
        Boquinha de Doce deu-lhe uma cadeirinha de vime. Ela sentou-se para ver a rua  e viu o mundo.
       Passaram os caixeirinhos de caderno na mo e lpis atrs da orelha; os aougueiros de avental e caixote enfiado no brao; os peixeiros e quitandeiros com muitos cestos sobrepostos pendurados num pau vergado no ombro. Passaram os meladeiros, os ageiros, os aguadeiros e, com eles, os mascates e os laranjeiras: gente de todas as cores, falando de todos modos: "Arquitan e cfi, ongu e laranja siletra." Mas o homem de perna de pau era diferente de todos. Todos vendiam para ganhar a vida. Este vendia para fazer feliz. "Corre hoje! Corre hoje!  o 5.583!  o final do touro! Quem quer ficar com a sorte grande? Corre hoje!  a sorte!  a sorte!  o touro com 83!"
       A mulata velha chegava  janela, atrapalhada com a sua gordura. Chamava-o com a mo. O homem da perna de pau vinha subindo, e seu ombro subia e descia, forado pelo movimento. A ponta da perna batia duramente na calada. "O touro com 83." A cara do homem estava suada, seu chapu de palha preta desfiava-se pelas beiras. Ele garantia  mulata: "Corre hoje.  a sorte!  o touro para hoje."
       E a criana compreendia o mistrio do touro de cabea humana, do touro de barbas que existia dentro de um livro.. . Seria aquele o da sorte grande? Seria?
       Mas as mulatinhas contavam umas para as outras. "No compro, no. Em bilhete no tenho sorte. Tiro sempre o mesmo dinheiro. S tenho sorte no jogo do bicho. Joguei no elefante, tirei 12$000. Hoje estou com palpite na borboleta. Cerquei o veado uma semana. O veado e o cachorro. Ganhei em todos dois."
       Longe, embaixo da rvore, as negrinhas saltavam de repente: "O veado qu fugi! O cachorro qu pega! Segura bem, pequena! Voc tem a mo mole!..."
       Um dia a negra Ludovina explicou-lhe: " assim: 1  avestruz; 2  guia; 3  burro; 4  barbuleta." Foi dizendo o nome de todos: jacar e pavo, gato e camelo. . . A menina perguntou: "E passarinho, no tem?" E a negra dizia pacientemente: "Ento num tem a barbuleta? Eu j num disse?" "A borboleta?" "A barbuleta, sim. Pois barbuleta no voa? Como qui num  passarinho?"
       "Corre hoje!  o touro com 83! Olha a sorte! Olha a sorte!" Ludovina explica: "Isso tem sua cina: sonha cum morto, d elefante; cum arve,  cobra  cobra  que trepa em arve; cum soldado  camelo, pru causa da muchila. O sonho  munto bo. O sonho ensina tudo. Mas o jornazinho ainda  mi. A gente pe o copo cum gua em cima dos calunga e v l dentro o parpite. Ou t nos bigode, ou t na carcunda, em carqu lug ele est. Ah! si o meu So Jorge quisesse me ajuda um bocadinho... si ele quisesse ajuda a esta negra veia sua serva. . .  Mas cu..."
       "Corre hoje..." E a perna de pau batia, batia. . .
        Quem qu l sorte? Diz tudo: passado, presente e futuro!
       Esvoaavam os lenos amarelos, os aventais vermelhos, as saias cheias de ramagens. E as pulseiras e os colares chocalhavam.
       As mulatinhas sibilavam: "Psiu... psiu..." As mulheres morenas vergavam para trs as mos finas e escuras, de palma branca, com riscos cor de chocolate: "Tua amiga te engana. Tua amiga branca. Tu toma cuidado com a tua cabea. No fim do ano tua vida vai muda..."
       OLHINHOS DE GATO ficava olhando para a palma da sua mo. Cada risquinho daqueles queria dizer ento uma coisa... E suas mos eram to riscadas... J tia Tota se tinha admirado, uma vez: "Essa menina vai ter uma vida muito atrapalhada... S dificuldades, s dificuldades..." Mas Boquinha de Doce, que lhe afagava o cabelo, murmurou: "Talvez no. . . Oxal que no... E h de ser o que Deus quiser..."
       A menina suspirou, sem saber nada.
       " 500 ris... L tudo: passado, presente, passado, futuro. . . L a sorte, diz se casa, adivinha herana e dinheiro da loteria..."
       O vento inchava as saias de ramagens, as ciganas limpavam o suor no avental, e chocalhando as pulseiras, e balanando as trancas, iam-se embora, inclinadas para trs, coloridas como pssaros. Uma parava para arrancar um espinho do p.
       Mas depois veio o cego, de rosto erguido, com uma bengala, um menino e um co. E esse no falou. Esse no sabia nem o passado, nem o futuro, nem o presente. O menino bateu palmas, a janela abriu-se, a voz disse: "Deus o favorea." Ele continuou a andar, levantando mais o rosto. Seus olhos eram brancos, de bordas vermelhas. Com a ponta da bengala  que ele via o caminho. Com as mos do menino  que ele batia palmas. Com os seus ouvidos  que ele ouvia cair a esmola ou a palavra de consolo.
       Na cadeirinha de vime continuava a menina a olhar para a rua e a ver o mundo. Diziam-lhe: "Entra, que j est muito mormao!" Ela se levantava e arrastava a cadeira, as ciganas, o cego, o perna-de-pau. Andava com eles por dentro de casa. Conversava com eles. E fazia-os conversar uns com os outros.
       O menino do lado perguntava l fora: "Mas por que  que o profeta Jeremias andava sempre chorando?"
       Maria Maruca batia na testa: "O prosa virou pateta..."
       O gato levantava-se do sol e ia descendo a escada.
       
       Dessa cadeira, e debruada para o mundo, foi que ela realizou o seu imenso descobrimento.
       Bastava olhar para o cu de noite, e acontecer cair-lhe na vista a "Gota-serena..." Bastava passar pelos olhos a mo suja do plen das mariposas-.. .
       Passou a ser cega e a viver no mundo dos cegos  com a noite por todos os lados e apenas a prpria memria sustentando a noo de sua presena: como uma pessoa perdida de noite numa casa escura e fechada. Como um enterrado vivo com as mos pelas razes, por baixo do cho. . . Assim esteve a menina ceguinha, sem encontrar sua roupa, sem saber sentar na cadeira, sem distinguir mais o lado certo da porta, sem perceber quem vinha pela sua frente. . . E recebeu a bengala das mos do menino magrinho, deixando-se levar por ele, e falando para a direita com o cachorrinho meio leproso que o acompanhava pela esquerda. . . Assim foi a menina ceguinha, pela rua afora, sentindo o sol pelo calor das mos, sentindo a chuva pelos pingos no rosto. . . Sem ver suas prprias botinas cobertas de p e tropeantes nas ervas. . . Nem a roupa estendida no capim. . . Nem o enterro do anjinho descendo. . . Nada, nada. E por sobre a sua cabea rolava um negro vintm de esmola. Rolavam, mais claras, as palavras da moa pobre: "Deus o favorea..."
       Quando recuperou a vista, OLHINHOS DE GATO compreendeu que voltava de uma profunda viagem, e realizara um imenso descobrimento.
       Comearam, ento, as partidas sucessivas. Foi alternada-mente a moa plida e sria das longas trancas  e a menina loura movendo as mos ao longe, no invisvel piano: d, r, mi, r, d. . .
       Sem sair do lugar andou por estranhos lugares, e sem que ningum reparasse passou para dentro de todas as vidas. Tingiu-se de negro e desceu e subiu, com latas de gua  cabea, com filhos pequeninos ao colo. . . Perdeu a perna e vendeu bilhetes de loteria.
       Caiu bbeda no capim, pesada de tristeza, com os olhos molhados e ardentes: "Vossemec  a empelatriz. . . Eu s o empelad..." Levantou-se Frederico-o-lobisomem, de orelhas amarelas, com os ossos das costas espetados no palet. . . Empurrou o porto como as negrinhas de olhos esquivos. "Passei por aqui, entrei pra armu..." e sentou-se no banquinho de ps em W para comer tutu de feijo.
        OLHINHOS DE GATO! Que  que ests vendo, l longe. . . l longe?
       Ela ficava logo perto. Como poderia explicar o que estava sendo, fora da sua vida?. . .
       E tudo era ser e deixar de ser. Como quem despe um vestido,  como  quem  solta  um  brinquedo  e  apanha  outro: assim. Assim facilmente. E no apenas as pessoas: mas tambm os animais. Sentiu-se cachorro, morcego, formiga, lesma. . . Viu os vultos enormes das pessoas, e o mundo monumental das rvores, das casas, das igrejas, levantando-se perto dela, subindo para o ar e as nuvens, para a lua, para o cu.. .
       Ento, foi vegetal tambm. Ficou fria, de p, com muitos braos abertos, deixando passar os movimentos, as luzes, os sons. . . Sentiu o doce nvel da altura, e o secreto convvio com a terra. Subia e descia pelo caule, como a voz incomunicvel de um morto  procura de um vivo.
       E fechou-se dentro desse cho. E deitou-se inerte entre os mortos. "Ossinhos... Os ossinhos..." Fez-se ossos, apenas. "O poder divino... O poder divino. . . No sei como isto ainda est vivo!" E ela estava ali sentada, sorrindo, e enterrada, e acabada, misturada com as sementes, as formigas, as conchas. "Embaixo do cajueiro. Ali foi que o av morreu."
       E como todas essas vidas ainda eram consistentes e limitadas, afrouxou suas molculas, dispensou qualquer contorno, espraiou-se na fumaa das nuvens, dissipou-se indeterminadamente pelo cu, foi tudo e nada ao mesmo tempo, sem lado de cima, sem lado de baixo, entregue ao campo que h por detrs do mundo, e por onde se rola sem nome, sem figura e sem fim. Mas chamaram l dentro: "OLHINHOS DE GATO!"
       E ento lembrou-se que era a ela que chamavam assim. E tornou a conformar-se em aparecer como uma criana de camisola, com um anelzinho de ouro no dedo, e o cabelo cortado um pouquinho acima da orelha.
         Mas j conhece as letras todas. . .  diziam perto dela.  At o W e o Y!
         Muito bem!
         E conta at 50, ou mais. . . E sabe fazer o Pelo-Sinal. . .
         Parece mentira! Quem havia de dizer! S ela escapou! E todos os mortos estavam em redor olhando: de dentro dos espelhos, de dentro dos quadros, de dentro do lbum, ou puramente nos ares  todos juntos e cada um deles sozinho, sozinho...
       E ela via os mortos e os vivos. E os vivos no sabiam. Nem talvez os mortos, tambm.
       
      Fim
      
      
      
      
      
       
       
       
       
       
       
       
       AUTOR E OBRA
       
       Ceclia Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1901, trs meses aps a morte de seu pai. Antes de completar trs anos de idade, perdeu sua me, passando ento a morar com sua av materna, nica pessoa sobrevivente da famlia.
       Em 1910, concluiu o curso primrio e recebeu, das mos do inspetor de Ensino,  poca o poeta Olavo Bilac, uma medalha de ouro com seu nome gravado, como prmio pelo esforo desempenhado durante o curso. Sete anos depois diplomou-se professora primria e passou a desenvolver intensa atividade como educadora. Estudou tambm lnguas, canto, violino.
       Aos dezoito anos, lanou o livro de poemas Espectros, pelo qual recebeu elogios da crtica especializada.
       Em 1922, casou-se com o artista plstico portugus Fernando Correia Dias, e com ele teve trs filhas: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda, atriz de sucesso. Enviuvou em 1935, mas cinco anos depois contraiu segundas npcias com o professor Heitor Grillo.
       Em 1934 organizou a primeira biblioteca infantil do pas. Em 1935 foi nomeada professora de Literatura Luso-brasileira e, depois, de Tcnica e Crtica Literria na Universidade do ento Distrito Federal.
       Alm de sua atividade como educadora, escreveu:
          POESIA: Espectros; Nunca mais. ..; Poema dos poemas; Baladas para el-rei; Viagem; Vaga msica; Mar absoluto; Outros poemas; Retrato natural; Amor em Leonoreta; Doze noturnos de Holanda; O aeronauta; Romanceiro da Inconfidncia; Pequeno oratrio de Santa Clara; Pistia, cemitrio brasileiro; Canes; Romance de Santa Ceclia; A rosa; Obra potica; Metal rosicler; Poemas escritos na ndia; Solombra; Ou isto ou aquilo; Poemas inditos; Crnica trovada da cidade de Sam Sebastiam do Rio de Janeiro no quarto centenrio de sua fundao pelo capito-mor Estcio de Saa; Poemas italianos; Cnticos.
          PROSA: Girofl, girofl; Quadrante 1; Quadrante 2; Escolha o seu sonho; Votes da cidade; Inditos; O que se diz e o que se entende; Olhinhos de gato.
       E participou tambm das seguintes antologias: Antologia potica; Seleta em prosa e verso; Ceclia Meireles; Flor de poemas.
       Ceclia Meireles faleceu no dia 9 de novembro de 1964, em pleno apogeu de sua atividade literria. Recebeu, post mortem, o Prmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.
       
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1 Homeopatia.
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